A CAIXA E A AUSÊNCIA DE LIBERDADE NA SOCIEDADE CAIXIANA – Parte II.

 

 

É noite de segunda o tempo quando inicio a Parte II sobre a ausência de liberdade na Sociedade Caixiana. Chove lá fora, tempo frio e ainda estamos em isolamento social. Tempo perfeito para voltarmos a falar em ausência de liberdade, visto estarmos em casa por provocação da pandemia. O filme visto no final de semana tratava de uma lenda do rock. Aborda a vida do Elton John. Rocketman é o nome da película. Adiante falo um pouco sobre o filme. Voltemos à Sociedade Caixiana antes que o tempo avance. Aliás, ele avançou e não avisou. Estamos na madrugada da terça.

Rousseau em Confissões escreve que “aqueles que tantas contradições me censuraram não deixarão de me censurar mais uma aqui. Disse que a ociosidade nos círculos de pessoas era insuportável para mim e eis-me à procura da solidão unicamente para me entregar ao ócio.” (Rousseau, Confissões, p. 577) e em O Emílio afirma o mesmo autor que “o essencial é pensar de modo diferente dos outros.” (Rousseau, Emílio ou da Educação, p. 313). Deve o leitor está a refletir o que estas palavras até agora escritas guardam relação com o texto anterior? Questionamento perfeito. Trata-se da relação exposta para entendermos ser a sobrevivência na Sociedade Caixiana somente possível se buscarmos a liberdade. Liberdade da qual falava Rousseau e da qual fala Rocketman retratando a vida de Elton John. Depois falo sobre o filme.  

O ócio é obrigatório à existência da educação. Sim, leitor. É isso que estou a afirmar sem meias palavras ou palavras floreadas. Sem o ócio no sentido de ter espaço a pensar, refletir, exercer a leitura o homem a habitar a Sociedade Caixiana nela continuará a residir devido à incapacidade de olhar por outro caminho a não ser a parede da Caixa. Não consegue sair da região onde está localizada a Caixa por não saber pensar devido ao seu ato negativo em relação à leitura. Negativo no sentido de não ler, mas de ser um crítico da leitura e do hábito de ler. Este ócio a que buscava Rousseau é necessário hoje. Precisamos parar e refletir sobre a Educação imposta (se é imposta não é educação) na Sociedade Caixiana. Mas, não podemos apenas parar e começar a refletir do nada ou sobre o nada. Precisamos de referenciais a nos guiar no caminho do ato de educar. Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa é uma aula sobre Educação e um tratado contra o Ensino. Por isso o mesmo é belo e de tão belo “eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.” (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, p. 31). O ensino me retira a condição de desconfiar para ter comigo a certeza e a verdade. Duas palavras que são desmentidas a cada avanço no conhecimento. O hoje certo e verdadeiro será amanhã ultrapassado. Como é belo meu sertão. Como é bela a educação. Sai pra lá Ensino.

Não, não falo em ensinar. Falo em educar. E, como nos alerta Saramago, da necessidade de se ter cuidado com as palavras. Mudam muito de opinião e nem sempre percebemos. Estamos a habitar a Sociedade Caixiana justamente por não termos tido o devido cuidado com as palavras e, muito menos, com a leitura. Desaprendemos a ler e estamos a querer que os outros desaprendam. Até pensamos que ensinar e educar possam ser a mesma coisa. Quanta inocência destes caminhantes da Caixa.

A atitude de ensinar a alguém começa por lhe tolher a liberdade de pensar. Começamos ensinando como pensamos e afirmamos ao leitor de que nossa liberdade deve ser assim porque é assim que pensamos. Ocorre ter o outro direito (sagrado) de pensar de forma diversa da nossa. Mas, dificilmente aceitamos um pensamento contrário pelo simples fato de nos contrariar. Então, abandonamos a educação e abraçamos (e neste abraço estamos a morrer na Sociedade Caixiana) o ensino. 

No ensino a Sociedade Caixiana se perdeu faz tempo pelo fato de ser o ensino algo que nos deixa acomodado. Por que discordar? Por que aceitar que o outro discorde? Borges discordou de Santo Agostinho em relação ao tempo justamente por não ser ensinado, mas educado e os educadores estão a ler Borges e Sto. Agostinho não para concordar, mas para construir um pensar novo. A educação, caminho à liberdade, nasce no ócio da leitura realizada a nos abrir novos horizontes e a descortinar possibilidades. O ensino nos deixa com uma possibilidade (singular) apresentada por quem diz nos educar quando está, na realidade, nos ensinando a ser igual ao seu pensar.

Vagueando pelo dicionário encontro as duas palavras. Ensino e Educação. Livro engraçado este tal de dicionário. Chamam de livro um conjunto de palavras sem enredo, sem história, sem começo, sem meio, sem fim. Nos coloca significado nas, e das, palavras quando ele não consegue apresentar um signo, um sentido ao amontoado de palavras. Nem uma história consegue narrar este tal de dicionário. Mas quer que sigamos o significado que o mesmo impõe às palavras. Triste realidade. O tal livro, ao qual nominam de dicionário, vive a nos ensinar o sentido das coisas onde ele não tem sentido. És, dicionário, um limitador de possibilidades às palavras e ao conhecimento. Chegas a afirmar ser ensinar uma arte, a arte de transmitir conhecimentos. Não, de forma alguma.

A educação, sim, esta é uma arte. A arte de ir aprendendo aos poucos o caminho do conhecimento ao mesmo tempo que aprende a caminhar sozinho. A arte de lapidar uma pedra bruta sem dela tirar a essência para ver surgir o diamante fruto do trabalho do artesão/educador. Passeia pelas páginas de um livro e terás/verás significado e sentido nas palavras sem existir a necessidade de alguém produzir o teu caminhar. A educação, no momento (tempo) em que se libertar das amarras do ensino estará sendo aquilo que dizem ser. Transformadora. Uma transformação a construir possibilidades de liberdade e não apenas a possibilidade de quem está a te ensinar. Não, leitor. Não digas isso. Não sou contra os professores!! Eu sou professor. 

Estou apenas a defender a necessidade de o professor pensar para além do que dizem. Afinal, ninguém ensina ninguém a pensar. Podemos, quando muito, construir o caminho para que as pessoas pensem apresentando como abrir portas e não abrindo portas. Ao ensinar o como fazer o professor sai do campo da educação e mergulha no mundo do ensino acorrentado por um conjunto de metodologias desconhecidas do mesmo. Vamos trabalhar com metodologias ativas!!! Vamos!!! Mas, se todos estivessem a ler no terreno do ócio de Rousseau as metodologias ativas não existiriam pelo simples fato de que todos conheceriam de método, de metodologia. Na realidade, não existe uma metodologia passiva, o que anula o existir de uma metodologia, dita, ativa. Ou seja, não existe o ensino. Existe a educação. 

Construa o espaço/tempo à leitura e o leitor (aluno) será um novo homem. E livre. Sei que para isto venha um dia a ocorrer será necessária uma ruptura radical com a forma de pensar educação. Isso. Vamos à raiz do problema (sentido da palavra radical) e teremos um caminho à educação saindo dos modelos apresentados nos manuais sobre educação que, na realidade, são manuais sobre ensino. Afinal, “o essencial é pensar de modo diferente dos outros.” (Rousseau, Emílio ou da Educação, p. 313)

   E pensar diferente dos outros fez de Elton John um gênio no território da música. O filme Rocketman é belo. Assim como Bohemian Rhapsody a narrar outro gênio do Rock. Filme por filme fico com Rocketman. Mas, o que estes filmes estão fazendo aqui em um texto que procurou discutir sobre educação? Os dois somente são chamados de gênios porque romperam barreiras, derrubaram muros, pensaram, refletiram, avançaram e houve o momento em que recuaram para novos avanços. Mas, ninguém ensinou Freddie Mercury ou Elton John a cantar. Eles, no momento em que se libertaram das amarras musicais, sociais e culturais mudaram a forma de pensarmos a música. Assim como fizeram Os Beatles. Viva a liberdade criadora da educação. Fora com as amarras metodológicas impostas pelo ensino em suas receitas prontas para resolver os problemas da humanidade desumanizando cada vez mais.

Medeiros Júnior

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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