A AUTO-CENSURA NAS REDAÇÕES, TRATAMENTO PREVENTIVO PARA OS SURTOS DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Assim, vão-se fechando, de par em par, as janelas de uma democracia. Quando a mídia aceita as regras de uma nova ordem em gestação e comete suicidio com as próprias mãos — cortando na carne e dela arrancando a seiva da liberdade de expressão.

A auto-censura é uma forma deplorável de eutanásia, na medida que o jornalista ou os colaboradores da mídia aceitam e se submetem à tesoura dos censores internos. Assim foi posto fogo nos livros da Universidade de Heidelberg, com a cumplicidade de um reitor celebrizado por uma obra filosófica monumental.

Assim foi incendiado o Reichstag, em Berlim. Da mesma forma, a mídia foi estatizada na Alemanha do III Reich. Lenin e Stálin unificaram o pensamento “socialista” em jornais do governo em nome da liberdade. E comungando com esses impulsos patrióticos, um certo candidato, reincidente à presidência, no Brasil, anuncia regulamentação específica para tornar a imprensa mais “livre e democrática”…

Enfim, tomamos a trilha de uma nova democracia.

Entre governos de exceção e excessos cometidos em nome de uma suposta liberdade e de um Estado democrático de direito, perdemos o pouco que nos restava como república e democracia.

A mídia, tal como a conhecemos hoje, ressalvadas as trincheiras de resistência, na mídia ou nas redes sociais, resulta de uma engrenagem permissiva, na qual se misturam os interesses patrimoniais de detentores do capital e um exército de formiguinhas a serviço de ideologias radicais que sequer conhecem as razões que as poderiam explicar.

O cenário que descortinamos não é novo. Só a fragilidade da nossa memória histórica é capaz de permitir que episódios trágicos do passado se repitam — por negligência, má fé ou pelo oportunismo que ronda a política e cria pequenos Frankenstein no poder do Estado. Esses figurantes insólitos, montados pelas peças de diferentes fornecedores, comem as esperanças das pobres criaturas e as expelem sob a forma de esterco ideológico que a muitos enche de prazer e fartam a sua ambição.

 

Fonte da imagem:  https://br.pinterest.com/de-manel-vizoso-censura/

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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