A ascensão do fascismo e a frente única operária

A ascensão do fascismo e a frente única operária

                                                                                                     Ernest Mandel 

Apresentação

 

   A questão do fascismo e a questão da Frente Única Operária entraram na agenda política brasileira da atualidade. O fascismo foi logo associado ao exercício da atividade governamental de Bolsonaro na presidência da república. Já a Frente Única apareceu durante as manifestações populares contra seu governo na forma de Frente Única de Esquerda. 

   O uso contínuo das duas expressões pela imprensa e pelas redes sociais terminou por banalizar o rigoroso sentido teórico que elas têm na teoria política marxista. Para oferecer uma contribuição ao restabelecimento do correto sentido teórico e político marxista dos dois conceitos, resolvemos reproduzir aqui uma a transcrição de uma aula ministrada por Ernest Mandel em Amsterdan, em 1987. O texto foi originalmente publicado em português no blog do MRI – Marxismo Revolucionário Internacional, em tradução de Pedro Rocha. 

   Tomamos a liberdade de fazer ligeiras alterações estilísticas ao texto da transcrição literal no intuito de apenas procurar reduzir as repetições vocabulares tão comuns na oralidade das aulas e para aproximá-la, na medida do possível, da prosa viva, ágil e elegante encontrada nos livros de Mandel.  

 Para quem ainda não conhece a sua biografia, Ernest Mandel (1923-1995), economista marxista de reputação mundial e dirigente político do Secretariado Unificado da IV Internacional, foi um dos mais importantes pensadores marxistas da segunda metade do século XX. A maior parte de suas obras está publicada em português, tanto no Brasil quanto em Portugal, e pode ser encontrada com facilidade nas melhores livrarias e nos sebos dos dois países. (Auto Filho, editor da coluna).

A capacidade ou incapacidade de explicar o fascismo tem sido um teste-chave para todas as teorias sociais e tendências políticas [1]. Até mesmo nos dias de hoje, setores importantes da ciência acadêmica e de movimentos políticos negam a existência de um modo racional de explicar as manifestações mais extremas e radicais do fascismo, tais como o assassinato em massa de judeus na Segunda Guerra Mundial ou a forma como Hitler e seus capangas agiram em relação à população soviética nos territórios ocupados da URSS depois de 1941. A grande superioridade do marxismo, e especialmente o legado do nosso camarada Leon Trotski, se revela na capacidade, que acredito ser única, de dar uma explicação satisfatória para todas as características-chave do movimento fascista, dos partidos e organizações fascistas, da ideologia fascista e do Estado fascista. 

Precisamos começar por uma negativa. A teoria original da Internacional Comunista sobre o fascismo surgiu logo após o primeiro movimento fascista – de Mussolini, na Itália – tomar o poder. Ela veio de Zinoviev e do líder comunista da esquerda italiana, Bordiga. Foi desenvolvida até a sua lógica final pelo Partido Comunista Alemão (KPD), sob a influência de Stalin, entre os anos de 1929-1932. Naquele momento essa teoria havia se tornado a política de ultraesquerda do assim chamado “Terceiro Período”.

A teoria inicial estava errada. Ela caracterizava o fascismo como uma forma extrema de movimento revolucionário anticomunista. Negava que houvesse qualquer diferença básica entre as diferentes formas de dominação burguesa. Via no fascismo essencialmente um governo terrorista da burguesia e do grande capital dirigido contra os setores radicais da classe trabalhadora. Enfatizava a colaboração entre os partidos e tendências fascistas e não fascistas da burguesia e da pequena burguesia. Tendia a enfatizar a continuidade e colaboração entre até mesmo as lideranças burocráticas moderadas do movimento operário e os fascistas. Ela culminou na famosa fórmula de Stálin segundo a qual “socialdemocratas e fascistas não são antípodas, mas gêmeos” [2] e nas fórmulas concomitantes de “fascistização” rastejante, que foram retomadas pelos maoístas na Europa e em alguns países latino-americanos nos anos 1970 e início dos 1980. Eles usavam o termo “fascista” para descrever o que nós, de forma mais correta, chamamos de tendências em direção a um Estado forte. O constante aumento da repressão estatal, do autoritarismo crescente no interior da democracia burguesa, no interior da democracia parlamentar, eles chamam de fascistização rastejante.

Isso significa a transformação progressiva, a transformação efetiva do Estado burguês em um Estado semifascista, pseudofascista ou quase-fascista. Este é o erro-chave: obscurecer as diferenças básicas, as diferenças qualitativas entre a democracia parlamentar burguesa e o fascismo. Tal avaliação equivocada tem consequências práticas desastrosas, sobre as quais voltaremos. Não é só uma questão de dar definições equivocadas, rótulos falsos; essa definição errada pode levar a um desastre político.

Trotski liderou a oposição contra essa avaliação equivocada. Há exceções respeitáveis que também defenderam posições mais corretas sobre o fascismo dentro do movimento marxista, essencialmente a tendência Brandler-Thalheimer na Alemanha (Thalheimer foi o teórico da Oposição de Direita dentro do KPD alemão, que foi mais ou menos na mesma direção de Trotski, embora não fosse tão consistente). 

Foi Trotski, essencialmente, quem desenvolveu uma abordagem correta do fascismo. Ele entendeu a natureza específica do fascismo, sua diferença qualitativa em relação à democracia parlamentar burguesa como forma de dominação da burguesia. Entendeu o que o fascismo significa historicamente para a classe trabalhadora e para o movimento operário. A análise de Trotski sobre o fascismo é hoje a única parte de sua contribuição ao marxismo (talvez junto com a sua interpretação da revolução russa de 1917) que é amplamente aceita como um desenvolvimento genuíno da teoria marxista, não apenas pela maioria das tendências do movimento operário, incluindo os eurocomunistas, mas também por grande parte da teoria acadêmica. Geralmente, todos dizem “pelo menos em relação à Alemanha Trotski estava certo”. É tão óbvio que é difícil negar.

A força dessa teoria é a sua abrangência. Ela integra praticamente todos os aspectos da realidade social em uma totalidade coerente e consistente. Começa e termina com a ideia-chave de que a crise estrutural do capitalismo havia atingido o seu estágio qualitativamente mais alto. É isso que permite a Trotski explicar um dos maiores mistérios do fascismo: suas tendências bárbaras, seu caráter desumano.

Sua violência alcança sua expressão mais forte não em um país atrasado, no Chile ou na Espanha. É claro que, para o seu próprio povo, Franco foi um algoz pior do que Hitler; Franco matou mais espanhóis do que Hitler matou alemães. No entanto, a brutalidade, o caráter bárbaro e desumano do fascismo alcança sua expressão mais forte naquele que era o mais avançado entre os países civilizados burgueses da Europa. 

 

A Alemanha, às vésperas da chegada de Hitler ao poder, tinha o maior número de cientistas, o maior número de ganhadores do prêmio Nobel, o maior avanço na ciência teórica, o maior movimento operário e a mais progressiva cultura crítica na arte e na literatura. Apesar disso, foi na Alemanha que ocorreu essa erupção inacreditável. Para as testemunhas oculares, foi literalmente inacreditável. Elas simplesmente não conseguiam entender; foram completamente surpreendidas pelo que estava acontecendo. Uma das razões para o destino trágico dos judeus era que eles não conseguiam acreditar naquilo. Diziam: “Os alemães são o povo mais civilizado da Europa, eles não podem fazer essas coisas. Não é possível que os fascistas venham a fazer isso”. 

O fenômeno pode ser explicado pelo fato de que, por uma série de razões históricas, a crise estrutural havia atingido a sua forma mais explosiva. A Alemanha, como o país europeu industrialmente mais avançado, havia perdido a Primeira Guerra Mundial, bastante território e muitos mercados para seus bens industriais. Os vencedores da guerra impuseram-lhe terríveis custos de reparação, particularmente o imperialismo francês e, em menor escala, o imperialismo britânico e estadunidense. O Tratado de Versalhes determinou que a Alemanha pagasse tais dívidas em ouro ou moedas conversíveis. Isso significou que eles não podiam resolver o problema através da inflação, e tiveram de manter um excedente de comércio externo permanente.

Em certa medida, a Alemanha foi colocada na mesma situação em que o Brasil, o México e a Coreia do Sul estão hoje. Ela tinha que manter um permanente excedente de comércio para atrair moeda estrangeira. Paradoxalmente, isso se tornou um bumerangue e voltou na direção daqueles que impuseram as condições. A Alemanha só poderia manter aquele excedente se cortasse suas importações e aumentasse suas exportações. Isso criou enormes tensões no mercado mundial e uma luta explosiva por exportações, o que levaria à Segunda Guerra Mundial.

É claro que, logicamente, não havia como esse conflito ser resolvido sem uma explosão violenta.

Dentro da Alemanha, essa crise estrutural na economia e na indústria se expressou em uma forma política e social, como a crise do reformismo tradicional e da democracia parlamentar. Essas duas coisas se baseiam na capacidade de garantir um certo número de reformas para a classe trabalhadora. Em troca de reformas, as lideranças reformistas do movimento operário aceitam a realidade do modo de produção capitalista e a estrutura do Estado burguês. Elas se integram a essa estrutura, se tornam colaboracionistas de classe, e assim por diante.

Na Alemanha, por conta da tremenda e única força e continuidade do movimento operário, a crise estrutural da sociedade burguesa levou a um acirramento da luta de classes, o que colocou na agenda a conquista do poder pelo proletariado diversas vezes. Durante a revolução de 1918/19, um governo soviético foi convocado em Berlim, e a questão da tomada de poder foi formalmente colocada em pauta. Em 1920, a primeira tentativa da extrema direita, o Putsch de Kapp, foi respondida pela mais bem-sucedida greve geral da história. Tudo foi fechado e a ditadura militar entrou em colapso em poucos dias. Os sindicatos levantaram a questão de um governo dos trabalhadores [governo operário]. Em 1923, provavelmente o momento mais favorável, porque os comunistas eram apoiados pela maioria, ou quase isso, da classe trabalhadora, a questão foi posta novamente. Confrontada pela força extraordinária da classe trabalhadora, a burguesia alemã não teve outra alternativa a não ser fazer concessões.

Como resultado dessas concessões, muitas das coisas que vimos se disseminarem por toda a Europa após a Segunda Guerra Mundial – formas de integrar as lideranças dos movimentos reformistas da classe trabalhadora ao aparelho de Estado no nível municipal, na administração da seguridade social, em formas permanentes de consulta no nível de fábrica que são parcialmente colaboracionistas de classe e parcialmente o compartilhamento do poder (formas parciais de um controle operário incipiente) – foram experimentadas primeiramente na Alemanha. Praticamente todas as grandes cidades alemãs eram administradas por socialdemocratas. Tudo isso significava dinheiro. Um dos principais erros na abordagem de ultraesquerda diante da democracia parlamentar feita por Bordiga e Stálin foi que eles viam o reformismo como um fenômeno puramente ideológico, sem perceber a dimensão do dinheiro pesado envolvido. 

Todas essas concessões têm que ser pagas pela burguesia. Isso significa um aumento, e não redução, da mais-valia; um aumento, e não redução, dos salários reais. Os trabalhadores estavam ganhando alguma coisa. Eis aí a contradição explosiva. A burguesia alemã estava enfraquecida internacionalmente. Para se defender de seus concorrentes internacionais, ela precisava lutar para aumentar drasticamente a exploração da classe trabalhadora, ascender a um novo patamar na extração de mais-valia. Mas a relação de forças política que emergiu da sua derrota na Guerra, e a ascensão da revolução e da luta de classes, tornaram a tarefa impossível. Isso se tornou uma contradição insolúvel e explosiva. Essa contradição é a raiz do fascismo.

Para compreender o fascismo, é necessário entender que os capitalistas têm de mudar qualitativamente a relação de forças política e social no país para acabar com todas essas importantes concessões e, então, aumentar qualitativamente a taxa de exploração da classe trabalhadora. As mudanças precisam ser tão grandes que se tornem incompatíveis com a existência de um movimento operário vivo e militante, capaz de se defender. A crise orgânica e estrutural do capitalismo se traduz em uma crise da democracia parlamentar burguesa, uma crise do reformismo e uma crise das formas tradicionais de dominação da burguesia.

Sendo central para os desdobramentos, no entanto, há a crise da pequena burguesia. Essa é uma questão bastante difícil, cuja análise também é uma das grandes contribuições de Trotski para a teoria marxista. De todos os elementos da teoria marxista, esse é o menos assimilado e compreendido. A abordagem histórica do problema do comportamento político da pequena burguesia é dada por uma fórmula clássica de Lenin: a pequena burguesia, situada entre os capitalistas e a classe trabalhadora, oscila. Em última análise, ela cairá sob a liderança da classe trabalhadora ou da burguesia.

A oscilação é acompanhada pela diferenciação. O exemplo clássico disso é a Revolução Russa. O maior partido do país, os socialistas-revolucionários [SRs], um típico partido pequeno-burguês, era dividido entre uma ala esquerda, que apoiou os bolcheviques e a conquista do poder pelos sovietes, e a ala direita, que, a princípio passou completamente para a contrarrevolução liderada por Chernov, e depois se dividiu novamente.

Se olharmos para um país capitalista avançado como a Alemanha, onde a pequena burguesia não era composta apenas de camponeses, mas de camadas urbanas, nós nos defrontamos com um problema de análise econômica. Vemos um enorme ponto de virada, talvez o mais abrupto na história do século XX. A pequena burguesia alemã prosperou bastante durante a ascensão do imperialismo alemão e durante a Guerra. Daria até para dizer que, salvo por uma camada muito pequena de capitalistas monopolistas, a pequena burguesia foi a camada que mais lucrou economicamente com a ascensão do imperialismo alemão. 

Seus membros se tornaram altos funcionários públicos em um aparelho de Estado que se expandia, oficiais do exército de médio escalão, técnicos, comerciantes etc. Eles votaram nos partidos burgueses tradicionais até a primeira parte da República de Weimar (exceto no sul, onde votaram no partido de centro, católico). Isso era bastante consolidado. Tão consolidado que, de fato, ainda hoje, uma teoria dominante de sociologia acadêmica explica a estabilidade da sociedade burguesa pela existência de grandes camadas de classe média, com pessoas bem de vida e conservadoras.

Mas a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, essas classes médias se empobreceram. Na velocidade da luz perderam todas as suas poupanças, destruídas por uma inflação descontrolada. Tiveram que vender suas propriedades, joias e artigos de luxo apenas para se manterem vivas. Muitos de seus trabalhos foram cortados; o aparelho de Estado foi invadido por socialdemocratas e, em algumas regiões da Alemanha, por comunistas. O exército foi reduzido drasticamente e milhares de oficiais perderam o emprego. Foi isto que formou alguns dos primeiros membros das gangues fascistas. Os Freikorps viriam a fornecer o verdadeiro núcleo da SS [schutzstaffel, “tropas de proteção”] e da AS [sturmabteilung, “tropas de assalto”]. Os Freikorps foram responsáveis pelo assassinato de Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e muitos outros líderes de esquerda do movimento operário alemão em 1918 e 1919. A base material dos Freikorps era bastante clara. Milhares de oficiais do exército haviam sido dispensados e ficaram sem renda de um dia para o outro. Isso ocorreu em toda a sociedade alemã.

Tudo isso deu origem ao fenômeno que Trotski chamou de “a pequena burguesia enfurecida”. Ela se enfureceu não por razões psicológicas, mas por razões materiais. Seria preciso ser cego para não ter enxergado isso. A grande superioridade do marxismo é que ele pode enxergar e dizer coisas que são muito evidentes. Se centenas de milhares de pessoas perdem o emprego e meios de subsistência, passam da prosperidade a uma grande miséria, é óbvio que se enfurecem. Seria inacreditável esperar que ficassem do mesmo jeito que estavam antes. Há, então, essa crise material da pequena burguesia, que vem acompanhada de uma crise psicológica e política.

Trotski também explica muito bem a crise psicológica em seu artigo O que é o nacional-socialismo? [3]: “Eles não entendem o que está acontecendo com eles”. Eles sempre tinham sido cidadãos que seguiam as leis; sempre tinham obedecido à autoridade. Tinham se comportado do jeito que haviam sido educados para se comportar. Apesar disso, foram lançados repentinamente na pobreza e miséria extremas. Então pensaram ter sido vítimas de uma injustiça extrema, que o mundo e a sociedade eram injustos – e buscaram uma explicação. Desenvolveram uma reação irracional ao que eles consideravam uma mudança irracional em seu status. Em outras palavras, eles procuraram uma conspiração. Eles se convenceram de que a sua situação só poderia ser explicada por uma conspiração entre os vermelhos e o grande capital. O terceiro fator específico aos nazistas foi que os judeus se tornaram um elo entre os comunistas e os banqueiros. No entanto, a explicação da “conspiração” é óbvia. A pequena burguesia estava de fato no meio da luta de classes explosiva entre o capital e o trabalho. 

Marx observou em O Capital que a luta de classes dentro da sociedade burguesa é um elemento que acelera a centralização do capital. É mais fácil para as empresas grandes do que para as pequenas pagar salários maiores. É mais fácil para as empresas grandes do que para as pequenas pagar a seguridade social. Então, uma vez que o movimento operário impõe salários mais altos, jornada de trabalho menor e seguridade social (especialmente através da legislação para todos), as empresas pequenas sofrem mais que as grandes. Então, as empresas pequenas desaparecem, vão à bancarrota – e culpam os sindicatos por sua situação, tanto quanto culpam o grande capital.

Um exemplo clássico disso é o caso da grande empresa de departamentos que geralmente vende a preços mais baixos que as empresas pequenas, e assim as destrói. A primeira reação dos trabalhadores é ficar feliz, porque preços mais baixos aumentam o salário real. É por isso que os pequenos empresários vêem o seu destino selado por uma conspiração entre os sindicatos e as empresas de departamentos. Claro que muitas lojas de departamentos, na Alemanha da década de 1930, eram de judeus – e pode-se perceber as consequências disso. Então, a pequena burguesia fica realmente presa entre a classe trabalhadora e os grandes negócios, não apenas por razões econômicas, mas também por razões sociais mais profundas.

O processo de lutas radicalizadas na direção da revolução é um processo de conquista do poder pela classe trabalhadora. Em um país imperialista, essa dinâmica é completamente diferente da dinâmica em países semicoloniais e semi-industrializados. Nestes, a ditadura do proletariado tem algo a oferecer à maior parte da pequena burguesia (terra para os camponeses, revolução agrária), o que representa um grande passo adiante. Esta é a base material para uma aliança.

Em países de capitalismo avançado, porém, a situação não é nada parecida. Não dá para pedir à classe trabalhadora vitoriosa que aumente a margem de lucro dos pequenos negociantes ou o lucro dos fazendeiros capitalistas, porque isso só é possível às custas da própria classe trabalhadora. É uma situação é completamente diferente. Não digo que a classe trabalhadora não possa dar nada à pequena burguesia, mas isso não será como num país atrasado. Nessas circunstâncias, o medo da pequena burguesia é, diz Trotski, o medo de cair nas fileiras do proletariado. Esse medo é bastante substancial e real. Assim como o medo de ser destruída pelo grande capital.

Para além da base material real da teoria da conspiração, também há uma base histórica. A pequena burguesia sente que seu papel histórico real está chegando ao fim – o que é verdade. É uma insanidade completa acreditar que a tarefa da ditadura do proletariado em um país industrializado avançado seja salvar a pequena burguesia como classe social. Não é tarefa dos socialistas salvar os intermediários parasitas. Toda essa situação complexa explica o porquê da existência da crise da pequena burguesia. Ela se expressa em desespero, e desse desespero nasce um novo tipo de movimento pequeno-burguês. A mudança é radical, violenta e abrupta demais para os pequenos burgueses a aceitarem passivamente. Eles reagem contra ela de modo violento. Isso explica o nascimento de um movimento de massas pequeno-burguês de desesperados que querem parar a marcha da história de qualquer jeito – inclusive  pelo suicídio coletivo.

Ideologicamente, tal fato é muito interessante, porque há um paralelo com o que ocorre atualmente em países como os EUA, a Grã-Bretanha e, em parte, a França: uma tentativa desesperada de parar a marcha da história, por quaisquer meios, inclusive os mais irracionais e loucos. Ela se expressa por um tremendo aumento de ideologias que expressam aquela natureza irracional. Ideologias anticiência, antihumanistas, antiprogresso, místicas e pseudoreligiosas florescem vigorosamente. Isso está acontecendo agora, diante de nossos olhos, em vários países, e é um sinal muito perigoso. Não é fascismo, mas é a indicação de um clima em que tendências fascistas podem florescer. O desespero da pequena burguesia, e a sua organização em um novo tipo de movimento de massas, é mais ou menos inevitável, independentemente do que faça a classe trabalhadora ou suas lideranças. Mas o que não é inevitável é a extensão, o escopo, a dimensão, o impacto social e, principalmente, o sucesso desse novo tipo de movimento de massas.

Acredito que seja ilusório acreditar que, se a classe trabalhadora tiver a política correta, não haverá fascistas. Seria subestimar as raízes objetivas e a profundidade da crise estrutural objetiva da sociedade burguesa. O que é possível dizer é que a atitude correta do movimento da classe trabalhadora contra os fascistas pode reduzir o fenômeno e evitar que ele se torne uma ameaça real à sobrevivência da revolução. Isso significa entender o perigo mortal do fascismo para a classe trabalhadora. Essa foi a verdadeira qualidade do apelo de Trotski ao movimento operário alemão e internacional a partir de 1930. Foi um aviso digno de Cassandra; e, lido hoje, é uma profecia inacreditável. Desde 1930, Trotski dizia que o fascismo era uma máquina mortífera que mataria milhões de pessoas, que atropelaria os trabalhadores como uma divisão armada se não a parássemos a tempo. Ele entendeu o perigo.

É aí que entram os erros desastrosos da ultraesquerda e dos socialdemocratas. Os dois subestimaram o perigo completamente. Acharam que era mais do mesmo. Disseram que o fascismo já estava lá. Bem, se o fascismo já estava lá em 1930, quando basicamente nada havia mudado, não era algo assim tão terrível. As pessoas podiam dizer “bem, nós podemos viver com isso; é só mais um pouco de perturbação com um pouco mais de repressão estatal”.

A mudança qualitativa que ocorreu com a conquista do poder pelos fascistas não foi compreendida por essas outras tendências. Se você entendeu o perigo, também entendeu a necessidade de uma reação ampla e radical contra ele. É aí que entra a luta pela Frente Única dos trabalhadores. Ela tem várias dimensões. 

Primeiramente, Trotski insistia que o movimento fascista era psicológica e politicamente fraco. A dupla fraqueza estava em cada um de seus membros. Trotski se referia a eles como “poeira humana”. Individualmente, os fascistas eram covardes, e isso se observa ao longo de toda a história, porque eles representam uma formação socialmente fraca e decadente. Por isso, uma resposta resoluta a eles os paralisa. Eles se sentem fortes apenas quando são dez contra um. São como todos valentões. Se dez para um se convertem em dez contra cem, eles fogem. Trotski insistia no fato de que é preciso revidar contra os fascistas desde o início. A resposta tinha que ser muito forte. Se os fascistas dispersam nossas reuniões, nós vamos lá e dispersamos as deles, e fazemos isso de modo que eles não ousem atacar novamente.

É aí que entra a estupidez dos socialdemocratas. Eles dizem: “Nós somos contra a violência, não importa de onde venha”. Isso é hipocrisia pura, e nem mesmo é verdade, porque os social-democratas aceitam a violência do Estado. Além disso, é algo terrivelmente estúpido. Se você se opõe a gangsters de forma não violenta, apenas os ajuda. Cada vez que eles ganham, se empolgam com a vitória e seguem em frente. Cada vez que são derrotados, batem em retirada. Isso fica claro na carreira de Hitler e dos fascistas em geral, e reflete o caráter específico de um certo tipo de pequena burguesia. Para que a luta contra o fascismo seja bem-sucedida, é essencial uma forte autodefesa das organizações de trabalhadores. A defesa de reuniões, manifestações e imprensa da classe trabalhadora contra o terrorismo fascista, revidando com o dobro ou o triplo da força a cada ataque, é o segredo para colocá-los na defensiva, fazê-los perder a esperança e bater em retirada.

Para isso, a Frente Única é necessária. Se cada pequena ou separada organização da classe trabalhadora tentar improvisar uma autodefesa, isso será muito mais fraco do que se todas se defenderem juntas. Se as organizações da classe trabalhadora estiverem divididas desde o início, é muito mais difícil uma defesa comum.

Existem problemas. Por um lado, as táticas defensivas e colaboracionistas de classe dos socialdemocratas, com seus apelos ao aparelho de Estado burguês para defendê-los do fascismo, paralisam a reação das massas. Por outro, a resposta de uma minoria de grupos de ultraesquerda também pode ter efeitos paralisantes, criando a impressão de que pequenas organizações armadas podem substituir a ação de massas e que não é necessário organizar as massas. É um beco sem saída combater a violência minoritária da direita com violência minoritária de esquerda. Não vai ao ponto, que é organizar a ampla massa das organizações dos trabalhadores para esmagar os fascistas, não para dar um golpe em resposta a outro, embora seja claro que algumas iniciativas da vanguarda podem, às vezes, desempenhar um papel importante. 

A questão de responder à violência fascista com um contra-ataque maciço é apenas um dos aspectos da tática de Frente Única dos trabalhadores. Basicamente, o problema é mais profundo e muito mais político. O nosso ponto de partida foi a profunda crise estrutural do capitalismo, que se expressa na grande crise da democracia parlamentar burguesa. Isso é sentido pela grande maioria da sociedade. Assim, grandes setores da população, da classe trabalhadora e da pequena burguesia, esperam uma solução radical. Eles exigem uma mudança radical.


Radical, não mais do mesmo. Não imobilidade, nem continuidade. É o oposto: mudança radical. Apenas olhe para os números do desemprego. Hoje, temos entre 10% e 15% de desempregados. Eram entre 35% e 40% na época. Quando há uma crise tão profunda na sociedade capitalista tradicional e nos seus métodos tradicionais de dominação, a Frente Única dos trabalhadores não faz sentido apenas do ponto de vista defensivo, mas também do ponto de vista ofensivo. Ela representa uma alternativa histórica.

A classe trabalhadora é muito mais forte em número do que a burguesia; no fim das contas, em um país industrializado, ela representa a maioria da população, à qual vários e vários membros da pequena burguesia estão atrelados (pequenos lojistas estão atrelados aos clientes; as camadas médias do aparelho estatal estão atreladas às camadas mais baixas). Há uma rede social em que parte da pequena burguesia pode pender para o lado dos trabalhadores – se os trabalhadores mostrarem uma alternativa à sua crise, se colocarem-se como candidatos ao poder, se apresentarem-se como verdadeiros questionadores da ordem podre, dispostos a confrontá-la.

Então, a transição entre o lado puramente defensivo da Frente Única e o lado ofensivo pode vir muito rapidamente, como Trotski entendeu claramente. A análise dele, como demonstraremos, foi integralmente confirmada.

A classe trabalhadora tem imenso poder econômico potencial, com a possibilidade de controlar a grande indústria e a infraestrutura básica da sociedade. Isso funciona como um atrativo para grandes parcelas da pequena burguesia. Então, quando dizemos que a pequena burguesia oscila e se divide, com uma grande ala que vai em direção aos capitalistas e outra em direção aos trabalhadores, não devemos entender isso de maneira estática, imaginando que essas qualidades estão fixadas de uma vez por todas. É necessário entender a palavra “oscilar” em um sentido histórico profundo: a classe inteira oscila, e grande parte pode se mover da extrema direita para a esquerda, dependendo de como ela vê as coisas que estão por vir.

Trotski usou outra fórmula. Individualmente, a pequena burguesia é feita de covardes, de poeira humana. Mas isso também significa que todos eles querem pegar carona e ser vitoriosos. Quando acham que a esquerda vai ganhar, eles vão para a esquerda; quando vêem uma esquerda paralisada ou derrotada, vão para a extrema direita. Então é importante ser visto como quem toma a iniciativa e como quem está ganhando. Isso joga um papel fundamental nas mudanças das forças de classe no período que antecede a possibilidade de vitória das forças fascistas. 

A questão da resposta da classe trabalhadora, da iniciativa da classe trabalhadora, é vital. Muito da análise de Trotski era apenas isso, uma análise sem a profundidade de informação a que temos acesso hoje em dia. Mas agora temos as atas das reuniões do Alto Comando do exército alemão, o Reichswehr, nos dias imediatamente antes e depois de 30 de janeiro de 1933, o dia em que Hitler se tornou chanceler. É inacreditável quanto essas pessoas estavam obcecadas com a questão da greve geral. Só discutiam isso. E elas fizeram exatamente a mesma análise que Trotski.

Perguntavam-se o que Hitler poderia fazer contra uma greve geral feita por 15 milhões de trabalhadores. A SA e a SS seriam varridas das ruas. Eles tinham a experiência do Putsch de Kapp. Eles diziam querer testar como a classe trabalhadora reagiria – e testaram. O teste decisivo para eles ocorreu quando os fascistas fizeram uma grande provocação e mobilizaram a SA e a SS em Berlim. O risco foi grande: Hitler era um verdadeiro desesperado.

Berlim era uma cidade vermelha. Os comunistas tinham 40% do voto popular. Comunistas e socialistas juntos tinham quase 70%. Hitler mobilizou os fascistas para uma manifestação do lado de fora da casa Karl Liebknecht, a sede do Partido Comunista. O Reichswehr disse pela manhã: “Essas pessoas são loucas, estão começando uma guerra civil. Seremos todos mortos”. Mas os fascistas fizeram a manifestação – e não aconteceu nada. Nada. Os comunistas se mobilizaram para proteger o prédio e gritar contra os fascistas, mas deixaram-no se manifestar por horas. No dia seguinte o Reichswehr afirmou que, se era assim, Hitler poderia assumir o poder. “Não haverá reação. Os comunistas vão apenas fugir e cair na clandestinidade”. E foi exatamente isso o que aconteceu. Se naquele dia as pessoas tivessem começado a atirar nos fascistas, da sede comunista – e não teriam morrido mais do que cem pessoas naquele dia em Berlim –, não teria havido conquista do poder pelos nazistas. O Reichswehr teria dito: “é uma guerra civil. Ainda é muito cedo para isso. Precisamos enfraquecer os comunistas antes de assumir o risco”.

Mas se nada acontece, então se dá o que foi descrito em uma fórmula fantástica, como uma “guerra civil unilateral”, uma guerra civil em que apenas um dos dois campos está armado, apenas um campo atira e apenas um campo age, enquanto o outro fica completamente paralisado, desmoralizado e dividido. Nesse caso, a vitória do primeiro campo é indiscutível. Em contrapartida, toda vez que encontram uma resistência resoluta, os fascistas batem em retirada, pois sabem o resultado. A relação objetiva de forças é imensamente favorável aos trabalhadores. E este é o outro lado da história, de fazer chorar.

Contrariando um mito mentiroso que devemos rejeitar categoricamente, é absolutamente falso que a reação normal dos trabalhadores alemães, por serem “disciplinados”, “reformistas” ou uma “aristocracia operária”, seria aceitar “a lei e a ordem” e a chegada do fascismo ao poder. Isso não é verdade, de modo algum. A reação espontânea dos trabalhadores alemães foi resistir ao fascismo por todos os meios possíveis, inclusive violentos. As muitas centenas de iniciativas que foram tomadas localmente, nas fábricas e nas vizinhanças demonstram isso. Temos provas contundentes disso agora. Tenho vários exemplos e bastante convicção a esse respeito, porque esse foi um dos pontos de virada na história, no qual a responsabilidade da desorientação socialdemocrata e stalinista foi tão terrível. O que eles fizeram naquele momento custou 80 milhões de vidas à humanidade[o autor se refere ao número de mortes na Segunda Guerra Imperialista Mundial, de 1939-1945]. Não foi culpa dos trabalhadores; não foi culpa da nossa classe. E não foi por causa de nada inerentemente errado com o movimento operário alemão. A culpa é dessas lideranças, e exclusivamente delas.

Depois que Hitler chegou ao poder, quando o terror já havia começado e milhares de líderes do Partido Comunista [KPD, siga em alemão], dos sindicatos e do Partido Socialdemocrata [SPD,sigla em alemão], assim como membros de organizações de extrema esquerda, já haviam sido colocados em campos de concentração, ocorreram em várias cidades alemãs as maiores manifestações de massa de todos os tempos, maiores do que as que aconteceram durante a revolução de 1918-19. Na cidade de Lubeck, um líder local moderado do SDP foi preso e enviado a um campo de concentração. Em uma cidade com uma população total de 400 mil pessoas, 250 mil foram às ruas para reivindicar a soltura imediata daquele líder. Esse tipo de movimento jamais havia sido visto – e nem foi visto depois.

Também temos as atas da liderança do SPD nos dias após Hitler ter se tornado Chanceler. Diariamente, delegações de todo o país iam à sede do SPD convocar greve geral e convocar uma Frente Única com o Partido Comunista, dizendo que ainda havia tempo para fazer alguma coisa e eles não deveriam permanecer passivos enquanto os fascistas começavam a matar seus camaradas. A resposta foi terrível, a lógica clássica da colaboração de classes reformista. Os líderes do SPD argumentavam: “temos que salvar a organização a qualquer custo, a qualquer preço. A organização é o que há de mais importante. Hitler respeitará a legalidade dela. Não podemos arriscar derramar o sangue dos trabalhadores alemães”. A consequência disso foram os 80 milhões de mortos[da Segunda Guerra Mundial]. Que cegueira terrível e inacreditável – não entender a natureza do fascismo. Claro que eles nem mesmo salvaram a sua própria organização. Os líderes sindicais também tinham ilusões terríveis; capitularam completamente aos fascistas, aceitando o novo governo, aceitando a solidariedade e unidade nacional, rejeitando qualquer noção de marxismo, de luta de classes ou de socialismo. Três semanas depois foram banidos.

A linha de ultraesquerda do KPD, inspirada por Stálin, ajudou objetivamente os fascistas a liquidarem o movimento operário alemão. Essa linha de ultraesquerda tinha um conteúdo duplo. Por um lado, completa subestimação da mudança qualitativa que a destruição da democracia parlamentar traria para o movimento operário; completa subestimação do que o fascismo realmente significava. E, nesse sentido, foi exatamente na mesma direção que a socialdemocracia. O KPD pensou que não haveria uma mudança real, pois o fascismo já estava lá. Eles chamaram sucessivos governos na Alemanha de “fascistas” – para eles, Brüning era fascista, von Papen era fascista, e von Schleichen também. Então, no fim das contas, Hitler não faria diferença alguma. Claro que isso foi uma completa estupidez. Significou que o KPD foi pego totalmente de surpresa. Eles não haviam se preparado devidamente para a clandestinidade, e jogaram seus militantes em lutas minoritárias contra os fascistas. Quase todos os seus líderes foram presos; eles não prepararam nem mesmo sua própria segurança.

Mas o outro lado da linha política foi que, como resultado da identificação entre estado forte e fascismo, eles viram a socialdemocracia, que ainda administrava parte do estado, controlando municípios e a polícia municipal, e tinha parte do controle estatal, como o principal inimigo. Sua linha estratégica foi que seria necessário primeiro quebrar a socialdemocracia antes de conseguir derrotar os fascistas. Na realidade, é o exato oposto: primeiro, é preciso se unir aos socialdemocratas para vencer os fascistas, para depois derrotar o SPD. Foi o que aconteceu na Revolução Russa, quando os bolcheviques e Kerensky[o primeiro-ministro do governo provisório] venceram o general Kornilov [que tentou um golpe militar], antes dos bolcheviques derrotarem Kerensky. Se Kornilov tivesse vencido, a revolução de outubro nunca teria acontecido. 

Essa abordagem do KPD foi errada, e, além disso, teve implicações psicológicas. Uma hostilidade profunda se instalou entre comunistas e socialdemocratas. O KPD era forte entre parte dos desempregados e dos jovens, enquanto a maioria dos trabalhadores organizados ainda apoiava os socialdemocratas. O KPD daquela época é o único exemplo na história de um partido de ultraesquerda que atingiu entre 18% e 20% do voto popular. É uma grande tragédia. A lógica insana do KPD dividiu e desintegrou o movimento operário, indo de encontro ao instinto profundo dos trabalhadores de se unirem contra os fascistas. Se o KPD tivesse sido capaz de se identificar com essa resposta instintiva, a história poderia ter sido totalmente diferente. Mas o KPD defendeu a concepção da frente única pela base – buscando a colaboração nos níveis locais e nas fábricas, mas sem qualquer acordo no nível das lideranças. Isso era utópico e não realista, ao supor que os trabalhadores do SPD estavam preparados para agir contra seu próprio partido e efetivamente se direcionarem ao Partido Comunista. O que ocorreu foi que grande parte deles continuou leal ao partido, muito por conta da própria linha do KPD. Para construir uma Frente Única, era necessário fazer tanto propostas para a liderança como para as bases: a Frente Única de cima e de baixo. A recusa do KPD em lutar por tal tática foi causa da destruição do movimento da classe operária alemã. 

Então, a função do fascismo é destruir completamente o movimento operário organizado, para atomizar a classe trabalhadora, trocando a venda coletiva da força de trabalho pela venda individual da força de trabalho de cada trabalhador, voltando à situação anterior à ascensão do movimento sindical. Esse era um pré-requisito para forçar um aumento radical na taxa de mais-valia. Durante o governo nazista, a taxa de mais-valia aumentou 300%. Pagando os mesmos salários, os patrões conseguiram, em 1938, um lucro três vezes maior do que tiveram em 1928. Algo inigualável na história do capitalismo. Ao mesmo tempo, o desemprego diminuiu. Imagine o que poderia ter acontecido em um mercado de trabalho livre, com sindicatos livres, no mesmo período. Isso só pode ser explicado pela total destruição do movimento operário pelos fascistas.

Não é verdade – como os estalinistas, maoístas e outros gostariam que acreditássemos – que os fascistas destroem apenas a ala radical do movimento operário, a extrema esquerda. Na verdade, eles destroem o movimento operário por completo, incluindo aí os elementos mais moderados e reformistas, os sindicatos católicos e qualquer forma de organização da classe trabalhadora. A arma primordial nazista era a desmoralização, que, combinada com o terror, dissipou um poderoso movimento operário, construído ao longo de cem anos de atividade e eficiência ímpar. A combinação da traição da ala direita – socialdemocratas colaboracionistas de classe –, de um lado, e dos líderes do Partido Comunista que seguiram a linha de ultraesquerda de Stalin, do outro, levou a uma derrotada devastadora.

Extrair as lições daquela derrota e defender a contribuição teórica de Trotski é algo vital para os marxistas, se quisermos evitar a repetição dos mesmos erros catastróficos.

(Publicado primeiramente em: John Lister (ed.). Ending the Nightmare. Socialists against Racism and Fascism,, Londres, 1995).

Notas

[1] Este texto é uma transcrição resumida de um discurso dado à escola de formação da Quarta Internacional, no Instituto Internacional de Pesquisa e Educação (IIRE) de Amsterdã, em 1987, originalmente com o título “Learn the lessons of Germany”.

[2] Citação do artigo Concerning the International Situation, de Stálin, de 1924. Online em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1924/09/20.htm

[3] Leon Trotsky, What Is National Socialism? (junho de 1933), online em: https://www.marxists.org/archive/trotsky/germany/1933/330610.htm

Auto Filho

AUTO FILHO é professor de Filosofia e Economia Política da Universidade Estadual do Ceará. Foi editor literário do jornal Gazeta de Notícias e Crítico de Arte do jornal Unitário.

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