A ARTE E A EDUCAÇÃO COMO SERVIÇO NO PRESÍDIO AURI MOURA COSTA, por Carlinhos Perdigão

– Professor, o senhor tem coragem de dar aula num presídio?

Foi com essa pergunta que a simpática secretária da Faculdade Católica de Fortaleza, Dorinha Daniel, minha ex-aluna do curso de Educação Infantil na Faculdade Contemporânea, onde pude trabalhar – e aprender – com a grande educadora Luíza de Teodoro, tocou na questão didática de ensinar a um grupo de 15 estudantes do curso de Licenciatura em Filosofia, prisioneiras no Instituto Auri Moura Costa. Logo disse sim, pois, além de adorar um desafio (naquilo que me interessa!), automaticamente pensei em dois personagens de proa da arte e da educação brasileiras.

Primeiramente Milton Nascimento, que cantou, na composição “Nos bailes da vida”, dele e de Fernando Brant, que o artista tem que ir aonde o povo está. A conexão para mim foi – e ainda é! – imediata: se o artista está próximo do povo, o professor também deve estar! Um segundo personagem remete a todo esse contexto: mestre Paulo Freire, que já afirmou ser a Educação um serviço. E eu creio muito nisso, pois espero servir às pessoas construindo conhecimento com elas, e sendo um parceiro dentro e fora da sala de aula.

Assim, sob coordenação da querida professora Márcia Bastos, e tendo ainda a supervisão do estimado padre Luís Sartorel, um sacerdote que sinaliza um Jesus amoroso, mas também político e humanamente vivo, iniciei os trabalhos didáticos não sem antes perguntar o que eles esperavam de um professor que trabalhava muito com a questão do humor, e que não era exatamente religioso. Mas, ao contrário, questionava uma igreja afastada das pessoas, a qual exercia muitas vezes um trabalho de catequese mais ligado à “perfumaria” – para lembrar o escritor e teólogo Leonardo Boff – do que aos reais problemas pelo qual boa parte do mundo passa, dentre os quais os negros, os pobres, os índios…, as minorias, portanto.

– É isso mesmo que a gente deseja, Carlos. Um professor que explore o português com leveza e com questionamentos sobre a vida, levantando a autoestima daquelas alunas, expondo-lhes uma visão crítica e cidadã sobre o mundo e sobre si mesmas.

A resposta da professora Márcia não deixava dúvidas! Era preciso ação, uma ação responsável, política, solidariamente amiga e, sobretudo, humana, que contribuísse de alguma forma para aquelas pessoas na situação em que se encontravam…

As lembranças que tenho do período que passei no presídio ao lado daquelas queridas moças – sim, eu me tornei amigo de várias delas! – remetem ao prazer de analisar aspectos da língua portuguesa num ambiente ao mesmo tempo estranho e leve. A leveza se concretiza na medida em que sala de aula – ou “sala de arte”, como a denomino, de acordo com minha formação linguística e arte-educadora – é um verdadeiro prazer para este pesquisador.

Tornei-me professor já temporão, e incorporei ao percurso didático aspectos do humorismo. Trata-se de uma estratégia pedagógica! A tentativa é de chamar atenção para os meandros da língua portuguesa, trabalhando seus pressupostos de acordo com a Linguística Textual. E tudo, obviamente, sem perder o foco do que realmente importa, além de apresentar também o rigor científico que qualquer caminho que envolva a ciência solicita.

A estranheza, por sua vez, remete às circunstâncias do trabalho em si. Antes de entrar no presídio propriamente, eu passava por uma vistoria minuciosa. Educadas, as policiais eram solícitas, mas também exigentes: tudo tinha que ser visto, observado, analisado. Já o prédio, pintado numa mistura de roxo e cinza, tinha uma áurea distante, e lá não havia o verde das plantas – a gente sabe como a natureza humaniza os ambientes! O que havia em abundância? Grades. Muitas grades. Muitas mesmo… E, por incrível que pareça, na área destinada ao espaço escolar, coloridas! Tristes cores… Estavam presentes também muitos gatos! Os bichanos iam e vinham, numa liberdade paradoxal e insofismável. A prisão ali, onipotente, não era para eles…

Dentro da sala de aula o clima era respeitoso e bastante envolvente. As alunas correspondiam, na grande maioria das vezes, ao que era solicitado. Buscavam se conectar à leitura, à escrita, àquele professor cabeludo, músico, e que chegou falando sobre a realização de um trabalho que iria exigir atenção e dedicação delas, mas que ao mesmo tempo seria leve, criativo, sensível, possivelmente inteligente e… democrático!

O espanto foi geral! As perguntas delas: como trabalhar as regras do português com leveza? Como abordar a essência da língua com sensibilidade? Como construir conhecimento criativamente ao lado de policiais fardadas e desconfiadas? Como estar num presídio democraticamente? Como? Como? Como? COMO?

Esse talvez tenha sido o principal desafio do meu trabalho ao longo de dois módulos didáticos no presídio em foco no primeiro semestre de 2013. Mas eu não podia perder a confiança em mim mesmo. Assim, em torno de leituras variadas, de produções escritas diversas e do uso humorístico de determinados bordões da língua, o trabalho se efetivou com tranquilidade e muito prazer para o docente e, assim espero, para as discentes também.

Houve um dia em que, passando o filme Ladrões de Bicicleta, clássico italiano de Vitório de Sica, a cadeia estava ruidosa. Havia muito barulho fora da sala. Parecia que uma greve iria advir. Eu fiquei receoso… Mas todas me tranquilizaram, dizendo que cuidariam de mim… E cuidaram! Neste dia, vitaminadas pelo discurso do longa-metragem, houve choros e reflexões diante de um país claramente dizimado por uma guerra, onde imperava o desemprego, e por um governo fascista de direita. Como não se emocionar com tudo isso?

E ao final de cada encontro, ocorria aquele abraço solidário de companheiros de trabalho. O abraço que significava a existência de braços presentes. Ou seja: que ali o percurso didático importava tanto quanto a cidadania, os direitos humanos, o respeito às diferenças. E a amizade! Aliás, no fim da primeira aula, fui solitariamente para o portão e, após despedidas calorosas e com votos de saudade, chorei um choro triste, mudo e engasgado, como se o espaço à minha volta me sufocasse.

Lembro-me bem: lá fora brilhava o sol ainda. Mas não era um brilho de luz. Era um brilho estranho, de um sol que não iluminava, apenas se fazia aparente. Lembro que liguei o carro e calei meus pensamentos… Era preciso silêncio… de pensar sobre o mundo, de pensar sobre elas, de pensar sobre mim… A estrada logo se fez concreta, mas eu mantive os pensamentos – numa tarde friamente quente – tentando encontrar um país, o meu país… em torno da educação, e em torno de tantas portas que se fecham para tantas pessoas… que teimam em crer no amanhã…

Também houve dias em que fiquei totalmente no meio delas, num intercâmbio significativo entre o ser professor, o ser artista e o ser humano… Totalmente à vontade, realizando conexões entre o material lido, analisado e a vida… Sensação de dever cumprido!! De realização profissional!! De plenitude!!

E coroando toda a experiência, no final do ano de 2013 – mais precisamente no período natalino – pude apresentar para as alunas, bem como para professores da Faculdade Católica, para a Gestão e funcionárias do Presídio Auri Moura Costa o projeto “O Nordeste e o Brasil em Luiz Gonzaga”. Isso mesmo! Toquei bateria no presídio ao lado do cancioneiro do Velho Lua!! No evento, fui acompanhado pela equipe composta por Marcelo Justa, Onni Matos, Gil Soares e Daniele Andrade.

Em todo o quadro, a sensação é de ter realizado o que Milton e Paulo Freire delimitaram há décadas! Servir às pessoas com minha arte e com minhas pesquisas enquanto educador. E sou feliz assim!

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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