A arte da natureza e a natureza da arte, por PEDRO HENRIQUE

Contou-me, um dia, um certo Ponte Alta…

Na mesma época da queda do muro de Berlim, da configuração do Capitalismo na sua fase neoliberal como sistema hegemônico em todo o planeta – não que o seu contrário soviético se constituísse como uma negação, antes era uma outra forma do mesmo –, dois primos, sem emprego, destino ou qualquer responsabilidade para com esse mesmo mundo; um, cuja alcunha era Tonho e tinha sido boiadeiro lá pelos cafundós de Goiás, e o outro, de nome Agostinho e abandonara recentemente o curso de Filosofia da UnB, estavam numa mesa de bar em Taguatinga, cidade satélite de Brasília, quando leram no jornal o anúncio de uma Feira Internacional de Arte Moderna e Contemporânea a ser realizada na capital do país.

Para Agostinho, era uma oportunidade de seguir adiante com sua sina anti-heróica – influência de Macunaíma, ou quem sabe da nostálgica malandragem carioca –; para Tonho, que num primeiro momento não entendeu bem as intenções do primo, uma boa aventura na cidade grande; e para ambos um meio de driblar o tal desemprego no mundo globalizado, que ainda assim nos impõe o velho lema: “quem não trabalha, não come”. Depois de duas talagadas de pinga do engenho, resolveram colocar o plano em ação.

Era uma quinta-feira junina, a tal feira aconteceria no fim de semana e, para a sorte dos dois, algo como o implacável destino nas tragédias gregas, as inscrições de artistas locais com obras experimentais em escultura haviam sido prorrogadas até a sexta-feira; Tonho e Agostinho rumaram então para o cerrado em busca de algo inspirador, algo ao mesmo tempo tão enigmático quanto o sorriso de Monalisa, tão gritantemente simples e certeiro da moderna humana condição como O homem que caminha, tão áspero e revelador de que “o tempo é tudo, o homem não é nada” como Saturno devorando um filho, tão elegante e belo quanto os seios daquela galega natural de Ferrol!…

Em meio às conversas e digressões, ao céu aberto e o sol de rachar o quengo, já era quase fim de tarde quando enfim lhes surge à vista um feito do choque entre natureza e homem, um toco de madeira que ora lhes parecia um jacaré prestes a lhes devorar, ora uma prostituta da belle époque francesa seminua a lhes fitar, e então Agostinho, que já havia estudado o problema da arte como mais uma cisão num mundo de cisões, num insight crítico disse ao primo: “Tá aí a arte abandonada no cerrado!”. E Tonho respondeu após uma guspida: “Falta só limpar, envernizar, dar uma talhada aqui, outra ali; nosso Tio Juca tem uma marcenaria, ele pode dar um trato no toco”. Foi o que fizeram.

Enquanto Juca dava “um trato no toco” madrugada adentro, Agostinho teve outra ideia, a do nome da obra – afinal, toda obra de arte digna desse nome merece ser intitulada à altura –, e então a compartilhou: “Art natura et natura art – é esse o nome de nossa magnum opus!”. Tonho assustado perguntou: “E isso quer dizer o que mesmo?”. Agostinho sem titubear respondeu: “A arte da natureza e a natureza da arte, meu caro, uma singela provocação aos artistas e à arte!”. Juca advertiu: ”Uma obra tão importante, com um nome tão complicado, não pode ter sido feita por qualquer um”. “Já pensei nisso, meu tio”, respondeu Agostinho, “o autor de tamanha proeza do espírito humano é Charles von Chacun, pseudônimo de um tímido candango”.

Na sexta logo de manhãzinha os dois foram inscrever a tal obra, e como tudo fora bem arquitetado, não houve problema algum.

Enfim o sábado, a abertura da grande feira, um momento de encontro das subjetividades e obras separadas, oportunidade para revelação de novos talentos e para negócios, numa espécie de culto ao escaravelho que se tornou a estética – afinal, que arte de relevância na totalidade social foi produzida após o fracasso das vanguardas? –, num ecletismo que ia desde a ausência de obra, importando apenas o conceito, ao design, da integração negativa da periferia e da cultura a versos fincados nos escombros da vida. Agostinho, por sua vez, nunca esquecia o velho e bom desvio “a grandeza da arte só começa a aparecer no ocaso da vida”, e se perguntava: “Onde está a grandeza? – O mundo da arte e do capitalismo acabou, no entanto, continua-se…”. E Tonho jamais consideraria tais obras do espírito mais belas e verdadeiras do que a natureza. O fato é que em meio a tamanha miséria o toco dos dois começou a causar rebuliço: “esplêndido”, dizia um, “um verdadeiro reencontro entre natureza e cultura”, tentava fundamentar um outro,  “enigmática e bela, como tudo que é sublime”, e assim por diante.

No Domingo, a comissão julgadora premiou a obra “Art natura et natura art”, de Charles von Chacun, como a mais expressiva em sua categoria, enxergando nela até um potencial de vanguarda, e logo um americano radicado na França tentou arrematá-la oferecendo na casa dos duzentos mil dólares, em espécie, o preço pelo toco dos dois primos. Tonho e Agostinho não titubearam, recorreram aos curadores para mediar a negociação, receberam o dinheiro, e quando ninguém estava mais percebendo sua presença, resolveram que percebessem sua ausência: deram no pé. O americano, por sua vez, tratou de pedir a um rapaz da comissão organizadora que levasse a obra, ou melhor, o toco, até seu carro. No meio do caminho (tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho tinha uma pedra), o rapaz topa e o balança fortemente, ato suficientemente capaz de revoltar alguns cupins ainda resistentes, foi então que eles entraram em sua roupa e num momento de desespero o toco caiu no chão e se partiu em dois. Por dentro, não passava de madeira velha, e por fora, havia perdido sua aura de arte.

O fato foi um escândalo noticiado aos quatro ventos durante alguns dias, mas não tardou a cair no esquecimento – há sempre uma nova informação a apagar a anterior. Enquanto isso, Agostinho, juntamente com Tonho, se embrenharam no nordeste brasileiro dispostso a dar vida, nas festas juninas que se avizinhavam, a alguns versos que haviam escrito em conjunto – uma espécie de tradução literária do quadro Alegria de viver, de Henri Matisse, mas com maior radicalidade: “(…) É hora de dançar São João, mas não em festa ao santo/ E de que será a fogueira? Do dinheiro dos bancos, empresas, comércios, de todos!/ Uma fogueira em homenagem à morte do Deus dinheiro,/ na qual a divindade é que é sacrificada!/ Amar-nos-emos a noite inteira/ (homens, mulheres, indecisos, avessos)/ Dançaremos até o sol raiar/ e até ele deitar de novo!/ e que nasça novamente!/ e novamente ad infinitum…/ – Que cada manhã seja mais bela que todas as anteriores manhãs!/ Terá milho, tapioca, mucunzá/ Bolo de batata, pé-de-moleque, aluá/ Cachaça, cerveja, vinho, suco de taperebá/ Terá biscoito, pipoca, algodão doce… beijo de graça!/ E o que mais a natureza der e a imaginação inventar/ Terá ciranda, contação de história, sarau de poesia/ Terá rede pra deitar/ O chão pra quem preferir/ Não haverá motivos para roubar, nem a vida e nem os bens (…)”.

A verdade é que não tardaria o tempo a impor suas exigências contrárias, mas esta pode ser considerada como uma das únicas, por assim dizer, expressões do anti-nadaísmo na contemporaneidade: subjectum stercum n’acqua delendum esse!

Tem mais não.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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