A AMAZÔNIA E OS VISITADORES

(À imagem e semelhança de “Pantaleão e as Visitadoras”, de Vargas Llosa)

Um indigenista brasileiro e um jornalista britânico enfiaram-se amazônia adentro em busca de novidades. E o que os dois faziam por lá?

Turistas em busca de aventuras não eram. Viagem a passeio pela imensidão do “parque público” amazônico, não pareceu que fosse. Entraram como forçam as portas do rio Amazonas madeireiros, traficantes, missionários e aventureiros audaciosos, movidos pela cupidez ou pela curiosidade.

As florestas equatoriais são vetustas, a flora, exuberante, a fauna, variada. Esse paraíso perdido fez-se “habitat” de muitos, até mesmo de povos indígenas que por lá vivem e sobrevivem, sob os caprichos da natureza e das intervenções dos missionários ecologistas.

A Amazônia é do tamanho da Europa. Cabem nessa gleba cobiçada muitas Franças, Escandinávias inteiras, a Alemanha e outras terras fronteiriças, com todas a sua atribulada geografia e ameaçadoras teorias geopolíticas…

Por lá, nesgas estratégicas de territórios provocaram inamistosidade ancestral, fortaleceram as teorias do espaço vital, e desencadearam conflitos guerreiros entre impérios que já não existem e outros em vias de afirmação.

Cortada pelas florestas, rios, igarapés, planícies e montanhas, sequer Pantaleão e as suas visitadoras (romance pícaro de Vargas Llosa) fariam morada permanente por lá.

Muitos perderam-se entre ambições vencidas pela grandiosidade da naturesa ou pela perversidade dos homens (quem sabe, das mulheres, também), dominados pela cobiça e pelo espírito de aventura, em busca da fortuna e do apresamento de riquezas como se aquelas fossem terras de ninguém.

Politicamente apropriada pelas ONGs, confinadas pelos sinais da revelação missionária, amparada pelos apelos de fé de pastores a cata de almas recalcitrantes a salvar e pelos descobridores e desbravadores a serviço de muitas bandeiras, a terra das amazonas míticas transformou-se no túmulo heroico ou no castigo clemente dos descobridores e exploradores das riquezas — e dos visitantes a serviço da rapinagem, da pirataria e dos corsários de cabotagem de longo curso.

As nossas fronteiras são mal-guardadas, a natureza, inclemente, o extrativismo oportunista a campear, amparado pela indiferença de uns e a cumplicidade de outros — e pelo prestígio de autoridades omissas.

Leis mal arranjadas, aplicadas a serviço de interesses compartilhados entre visitadores e agentes públicos e privados locais, expropriaram a Amazônia, a ponto de um presidente francês reclamar a sua posse como direito que a “civilização” autoriza e defende.

O espírito que sela, hoje, a união europeia é o mesmo que autorizava, no passado, a escravidão e a incorporação de terras lingínquas ao império colonial europeu.

O mundo já foi dividido por bula papal, conquistado pela força das armas, muito raramente, entretanto, ordenado em decorrência de prélios diplomáticos legitimadores de reclamações civilizadas.

Cheias e alagamentos engolem terras e cobrem extensões territoriais sem fim e isolam vilarejos, comunidades indígenas e palafitas de populações miseráveis.

O governo, como nas favelas do Rio de Janeiro, é, na Amazônia, o retrato desbotado da ausência do Estado na defesa do território que lhe incumbe defender e nos cuidados para a sibrevivência de populações indigentes.

Era assim há séculos: a Amazônia permaneceu entregue a forasteiros e estrangeiros, missionários, madeireiros e madeireiras. Continuou, durante os governos militares, os três períodos de governos populares-progressistas e continuará assim, apesar dos cuidados das ONGS e do PSOL — e dos juízes togados da terceira instância.

O Estado brasileiro precisa criar meios que impeçam a penetração de aventureiros em terras despovoadas, na Amazônia. Não é obrigação sua garantir a segurança aos que se aventuram pelo “parque público” amazônico, sem registro ou autorização, indigenistas aliciados pelo ativismo empenhado na construção de uma narrativa que ponha sob suspeita, aos olhos do mundo, os desacertos de um país dominado pela discriminação, pelo ódio e pelo capitalismo neo-liberal, etc. e tal…

A vigilância do Estado sobre a Amazônia é, antes de tudo, compromisso essencial com a preservação do patrimônio dos brasileiros e a defesa e afirmação da nossa soberania sobre o território comum no qual vivemos.

 

Imagem da internet

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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