A alternativa Moro

Em Brasília no dia 10 de novembro de 2021 o ex-ministro do Governo Bolsonaro e ex-juiz da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba Sergio Moro se filiou ao Podemos movimentando o xadrez eleitoral para 2022. No discurso do ato de filiação abordou temas como corrupção, economia, meio ambiente e segurança pública.

Sinalizando que tentará encabeçar a alternativa ”Nem Lula nem Bolsonaro”afirmou;”É um projeto para termos um governo de leis que age em benefício de todos e não apenas de alguns.Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha. Chega de querer levar vantagem em tudo e enganar a população”. O tom parece ter agradado os grandes jornais como O Globo, Estadão e Folha de SP que noticiaram com destaque o ato e o discurso do ex-ministro. A revista Veja foi além e praticamente iniciou a campanha eleitoral do mártir da Lava-jato ao elaborar um capa com os dizeres #vemMoro2022[1].A expectativa deste entusiastas é que rapidamente o ex-juiz consiga se firmar como um nome forte para o próximo pleito presidencial, subindo nas pesquisas.De onde vem e a quem interessa a necessidade de uma candidatura de Moro?

Ao invés de se engalfinhar em busca de uma terceira via dentro do sistema partidário atual, endossando nomes como Eduardo Leite(PSDB), Luiz Henrique Mandetta(DEM) ou João Doria(PSDB), uma parcela da centro-direita parlamentar e das elites financeiras do país e os mandatários da mídia tradicional projetam no famigerado ex-juiz seus anseios programáticos. De forma genérica esta defesa vem na forma da explicação da necessidade de uma alternativa a Lula(PT) e Bolsonaro(Sem partido). Nesta direção, tendo em vista que Ciro Gomes(PDT), aquele fora da ”polarização” que possui uma candidatura com mais concretude, tem propostas econômicas de centro-esquerda e historicamente costuma ser pouco amigável com os outros postulantes a terceira via(e com praticamente todos os outros postulantes a qualquer cargo eletivo), seu nome não é apontado como salvador da pátria. Doria, Leite e Mandetta não demonstram que terão forças para chegar ao percentual de dois dígitos de intenções de votos até 2022,causando abalos na candidatura do primeiro e do segundo colocado nas pesquisas. Com isso os que temem uma reeleição do atual presidente e, principalmente, um retorno de Lula e do PT, procuram desesperadamente uma figura que possa preencher o vácuo da chamada terceira via.Surge daí a alternativa Moro.

Moro simboliza pra essa turma um sujeito popular, não político, liberal na economia e implacável com a corrupção do Estado e de agentes públicos, além de indolente com a roubalheira dos corruptores do mercado financeiro. O ex-juiz como símbolo, representa o projeto de país ideal para que o defende como herói. Mais problemático do que isso é que esses setores sociais conseguem ludibriar boa parte da população brasileira, nas periferias, na classe média, nas universidades e grupos de WhatsApp, por meio de seus conglomerados de mídia e de suas ações de propaganda nas redes sociais, convencendo que o projeto de seu interesse se confunde com uma agenda popular e benéfica para a maioria da população, ganha força assim a tese caolha de que a corrupção é o grande e supremo problema social de um país que voltou para o mapa da fome,sofre com o desemprego, desigualdade social, inflação e violência generalizada nas cidades.Uma grande farsa que leva a um raciocínio tão risível quanto mentiroso e perigoso que postula que já que a roubalheira do Estado é a única chaga nacional, tornando o que é estatal em privado tudo magicamente estaria resolvido e a nação poderia voltar a dormir tranquila em berço esplêndido que seus problemas estariam resolvidos.

Nesse sentido, Moro é menos um quadro político do que a personificação do ideário político atual dos donos do poder da sociedade brasileira. O homem idolatrado, virtuoso e representante da vontade geral não existe; ele é uma ideia. É a personificação do guia de soluções perfeitos para o endinheirados e bem-nascidos que já não conseguem emplacar seus candidatos tradicionais e que apoiaram Bolsonaro e assustaram-se quando perceberam que a criatura não respeita seu criador preferindo perseguir seus objetivos concretos(livrar os filhos da prisão e enfraquecer a democracia brasileira em prol da sua trupe) do que fazer jogo de cenas fingindo que ”as instituições estão funcionando”.

Resta-nos acompanhar o desenrolar desta trama.

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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