Um compositor fantasma condenado à solidão, por HELIANA QUERINO

Peço licença ao Porto da Pedra, e nenhum porto solidão, tive que pegar emprestado loucuras do imaginário de um enredo canção.

Nem Raul, Nijinski ou Dom Quixote, era só um pequeno rapazote com linhagem principesca numa época quase impossível de se viver sozinho. As coisas mais simples custavam tempo e sacrifícios: para matar a sede, buscar água do poço; cortar lenha para fazer fogueira; caçar e cozinhar os alimentos; lavar roupa no rio ou remendar as calças esgarçadas… Fazer sozinho estas tarefas ocupava toda uma jornada e não sobrava tempo para dedicar a outro ofício, a tenda de memórias ou um caderno de canções.

Era necessário viver junto e partilhar as tarefas, ajudar uns aos outros. Raramente alguém podia viver fora de uma família, ou de uma estrutura como o convento. Quase sempre, todos dormiam no mesmo quarto, na mesma cama. Solidão não era problema, mas a impossibilidade de se isolar, de ficar sozinho, de não estar toda hora, cara a cara com os parentes. Coisa incômoda para um menino de mente aguçada e mais apegada à reclusão.

Ora, somente eremitas ou anacoretas, por motivos religiosos, desejavam ficar fora do mundo e viviam sozinhos por opção. Era uma escolha cruel, uma vida muito dura, ao limite da sobrevivência. Não por acaso, até a grande maioria dos religiosos preferiam viver num mosteiro, em comunidade.

E se alguns filósofos, Cícero, Petrarca e Montaigne escreveram elogios à solidão, foi no sentido de se ausentar do mundo para concentrar nos estudos e na contemplação. Pois, na realidade, eles não viveram sozinhos e não sofreram de solidão.

Mas o rapazote com linhagem principesca não queria ser padre, nem mesmo filósofo, queria ser um compositor fantasma para se esconder até mesmo da multidão dos redemoinhos que brigavam dentro da mente.

Numa mistura de insânia e lucidez, como personagem em confronto, ele já questionava: solidão como conceito negativo parece até uma invenção do romanticismo. E um futuro compositor fantasma lá quer saber dessas lorotas, ele mesmo respondia… Parecia desde sempre desejar a solidão.

Pois é, aos entendedores de mil e oitocentos,  tornava-se mais fácil, teoricamente, viver sozinho. Mas tudo mudou, essencialmente a relação entre os indivíduos e a sociedade. Antes, o cidadão se sentia parte de uma ou mais comunidades: a família e o clã, o bairro, a aldeia, a cidade, a corporação. Uma oposição direta entre o indivíduo abstrato, imaginado fora de todas as relações como “pessoa pura”, era quase inconcebível.

Passaram-se décadas e o compositor cresceu; saiu do campo, foi para cidade… cheio de sonhos. As feições eram daquelas que, mesmo ao completar duzentos anos, ainda assim, permaneciam a face de um menino.

Lá, ele viu a sociedade moderna e industrial criar, pela primeira vez, um indivíduo que se sentia separado da sociedade, da coletividade.

Atinado, observou que os poetas e artistas românticos estavam entre os precursores daquele comportamento. Situação que ligeiro se transformou num fenômeno de massa. Viu nascer a figura do “artista maldito”, que segue somente a sua vocação, apesar da incompreensão dos seus contemporâneos, da pobreza, da solidão.

O compositor fantasma entendeu que o artista maldito não quer ou não pode construir uma família, e vez por outra é rejeitado pela mesma. Tipicamente, ele mora num sótão de uma cidade grande, não come o bastante, sofre o frio no inverno e as vezes delira. Acha que ninguém o compreende, nem mesmo  seus colegas de boemia – não é surpreendente, porque cada um acredita ser um gênio e não quer reconhecer os outros como gênios. Mas ao mesmo tempo o “poeta romântico” é orgulhoso da solitude, porque ela confirma a unicidade e superioridade de um compositor fantasma condenado à solidão.

Se no século vinte e um ainda existir um desses, eu espero, com prazer legítimo, encontrar um moço assim, com empatia e sem doença de comício. Quem sabe, um olhar demorado, guerra e paz, seminu ou vestido com um violão cantar somente para mim. Dono de si, ciente de sua grandeza,  atingir, cada um na sua solidão, um outro nível de vínculo, que nos permita virar bicho e em seguida, livres dormir sem nenhum equívoco, não com o romantismo musical de Beethoven, mas ao som da “Canção de Ninar” de Johannes Brahms.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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12 comentários

  1. Osvaldo

    Osvaldo

    Esse “lullaby” do Brahms é uma delícia de ouvir. Junto com Pour Elise, de Bethoven, é campeão das caixinhas de música.