CARA E COROA: AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Pensei de aqui complementar meu último artigo publicado no Segunda Opinião, intitulado UM NOVO JOGO COMEÇA?, pincelando rapidamente sobre a manipulação orquestrada pela mídia hegemônica ao insuflar a figura de Jair Bolsonaro, um personagem que tem se revelado patético, à medida em que participa dos debates ao vivo na televisão, e se autoproclama seguidor de Jesus Cristo.

Bolsonaro nada mais é do que um fantoche tático, útil para os fins estratégicos golpistas, ao encenar de forma espalhafatosa o roteiro anti-Lula e anti-PT, por meio de discursos e performances de ódio usados como bombas semióticas para insuflar diariamente o animus da opinião pública mediana, com o objetivo de atacar toda e qualquer proposta que venha a se contrapor à ideologia neoliberal e conservadora brasileira, em evidência novamente a partir do Golpe de 2016.

Para entendermos um pouco mais o que expresso acima, proponho voltarmos rapidamente ao período FHC (1995-2002), continuação e aprofundamento do governo Collor de Melo, por meio de um obscuro e forte processo de desregulamentação e privatização das empresas estatais brasileiras, política que ficou popularmente conhecida como a Privataria Tucana. Um breve exemplo. Cálculos de Aloysio Biondi, prestigiado jornalista econômico, já falecido, com base nos dados do BNDES, apontam que o Estado brasileiro, no governo tucano, ao privatizar empresas estatais, renunciou a receitas, subsidiou compras, pagou por indenizações trabalhistas, deu créditos do BNDES, investiu para “sanear” as empresas num montante subavaliado de R$87 BILHÕES, valor, em preços correntes de 1998, correspondente a 15% do PIB brasileiro. Imaginem! (Ver Aloysio Biondi. O Brasil privatizado).

O segundo destaque é consequência desse processo de desregulamentação e privatização implantada pelo governo FHC. E aqui recorro ao pensador Perry Anderson ao assinalar que o neoliberalismo é uma ampla vitória ideológica conservadora que acarreta um verdadeiro desastre para populações inteiras. A cultura e a política neoliberais, ao criarem um permanente estado de instabilidade e incertezas para pessoas e grupos nos mais diversos aspectos da vida humana, são geradoras de uma nova sociabilidade. Impõem aos sujeitos uma desesperada fuga para a vida privada cuja mais forte consequência é o medo do outro, acarretando uma ânsia de segurança cujo resultado é a formação de consensos de repressão e de isolamento em condomínios privados. O sistema neoliberal é a fonte da qual nasce nos corações e mentes das gentes a percepção de que o Outro é uma ameaça. Não é à toa que os diversos programas políticos prometem a segurança como o item mais importante da cesta de consumo dos cidadãos. (Ver Perry Anderson. Balanço do neoliberalismo).

É nesse cenário que surgem os Bolsonaros da vida. Um cenário de ofensiva neoliberal incentivador da privatização da vida, que torna os valores do mercado a sua base cultural, pelo “amplo” consenso em torno da estabilidade da moeda, alimentado artificialmente pelos meios de comunicação dos donos do poder, para quem o pecado capital reside em toda e qualquer proposta que comprometa o pagamento dos juros de uma dívida pública que nunca foi devidamente auditada como ordena a Constituição brasileira, em detrimento das necessidades vitais do povo brasileiro.

A privatização da vida é nada mais nada menos do que a eliminação da política, da ágora ateniense na qual os debates públicos eram fundamentais para soluções dos problemas públicos. Portanto, partidos políticos populares como o PT, organizações da sociedade civil como a CUT ou o MST, que defendem o retorno e o aprofundamento do debate público para a solução dos problemas históricos e recentes das populações brasileiras, são percebidos pelos neoliberais como a encarnação do mal: precisam ser combatidos com as mais diversas armas. Nesse cenário, a figura patética de Bolsonaro faz parte da tática de combate neoliberal. Até quando? Não se sabe ao certo.

E, finalmente, uma pergunta fica no ar: o que significa ser hoje um seguidor de Jesus Cristo neste ambiente de violência neoliberal? Significa ser outros Bolsonaros?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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