40 MINUTOS DE AGRADECIMENTOS

Sete dias atrás, quarta-feira 10/03, o Brasil e o Mundo tiveram a oportunidade de assistir ao discurso histórico de retorno à cena pública do mais importante líder da socialdemocracia mundial no século XXI. Na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo – SP, Presidente Lula falou pela primeira vez após a decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), anulando as condenações proferidas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, devolvendo-lhe os direitos políticos retirados ilegalmente.

Inaugurou o discurso relatando o seu nascimento político ao tornar-se presidente sindical dos metalúrgicos em 1975, liderando já em 1978 as grandes greves do ABC por melhores condições salariais daquelas categorias de trabalhadores. Colocou em destaque o movimento mais importante de sua vida: a tomada de consciência de que não bastava a luta sindical ou social; para buscar resolver os problemas nacionais era preciso adentrar a luta política para construir uma consciência política no país. E arrematou reconhecendo ser a liderança que é devido à evolução da consciência da classe trabalhadora no processo da luta sindical e política desenvolvida a partir dos anos 1970. Portanto, Lula tem pleno reconhecimento de ser resultado de uma construção histórica coletiva envolvendo movimentos sociais, sindicatos e Partido dos Trabalhadores.

De fato, sob sua liderança, surgiram as primeiras greves do ABCD, num contexto de arrocho salarial e de elevada dívida externa brasileira, impostos pela ditadura militar de então, que criaram o ambiente mobilizador das forças progressistas pela retomada da democracia no Brasil. Além da criação do Partido dos Trabalhadores (PT), esse movimento histórico deu vida à Central Única dos Trabalhadores (CUT), uma central nacional, territorial e setorial, que chegou a agregar a mais importante confederação dos sindicatos rurais, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Agrícolas (Contag).

Em seguida, Lula passou por 40 minutos a listar e a agradecer às entidades e pessoas que lhe foram solidárias durante o período de massacre jurídico-midiático a que foi submetido, entre as quais: Alberto Fernandez, presidente da Argentina que o visitou nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba; Papa Francisco, que enviou um emissário para entregar em mão uma carta do pontífice; o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica; Bernie Sanders, senador dos EUA; Anne Hidalgo, prefeita de Paris (França); o ex-presidente da Espanha, José Luís Zapatero; o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales; a líder zen budista, Monja Coen; os artistas brasileiros Martinho da Vila e Chico Buarque de Holanda; o intelectual estadunidense Noam Chomsky; o intelectual brasileiro Raduan Nassar; o ministro alemão Martin Schulz; Roberto Gualtieri, líder do Podemos espanhol; o ex-primeiroministro italiano Massimo D’Alema; o MST na pessoa do líder João Paulo; os integrantes do Grupo de Puebla, fórum político e acadêmico de líderes de esquerda do mundo, cujo objetivo é articular ideias e modelos produtivos para desenvolvimento de políticas de Estado progressistas.

Um agradecimento foi dirigido de forma especial às milhares de pessoas que, durante os 580 dias de prisão injusta e ilegal, ficaram ao seu lado na Vigília Lula Livre, em Curitiba. Diariamente, de forma ininterrupta, de domingo a domingo, pela manhã, tarde e noite, em um só coro, retumbavam: “Bom dia, presidente Lula”, “Boa tarde, presidente Lula”, “Boa noite, presidente Lula”. Fazendo com que ele acordasse, almoçasse e dormisse com mulheres e homens do Brasil inteiro bradando o seu nome. Um movimento desse não se improvisa, tem raízes.

Uma das razões dessas raízes, segundo o próprio Lula, é que a América Latina, em 500 anos da invasão dos europeus em nossas terras, nunca havia trabalhado com políticas de inclusão social. Desde sempre a visão da classe dominante é de que o papel do trabalhador é apenas de trabalhar. Inclusão para essa elite dirigente era apenas para os 35% da sociedade brasileira com direito de ir a teatros, cinemas, vernissages, restaurantes, viagens ao exterior, e de ter acesso a boas escolas, bons hospitais, boas moradias, fartos lucros.

Hoje, em tempos absurdos pela ausência de uma liderança nacional capaz de conduzir de forma firme, serena e agregadora o combate à pandemia, é muito importante registrar que uma das inovações da política de saúde quando Lula era Presidente da República, no âmbito do Ministério da Saúde, foi a de estabelecer a organização de um programa nacional de atenção às urgências, com a implantação de novos componentes, como os SERVIÇOS DE ATENDIMENTO MÓVEL DE URGÊNCIA (SAMU) e as UNIDADES DE PRONTO ATENDIMENTO (UPA). Para a comunidade científica, a decisão de iniciar a implantação da política de saúde pela fase pré-hospitalar foi muito acertada já que as experiências internacionais demonstram o impacto positivo desse atendimento. UPA e SAMU fazem parte do conjunto dos serviços de urgência 24 horas da Rede de Atenção de Urgências.

UPA é o principal componente fixo de urgência pré-hospitalar. São unidades intermediárias entre a atenção primária e as emergências hospitalares. Compõem a estrutura de atendimento de uma UPA o serviço policlínico, pronto-atendimento, pronto-socorro especializado, pronto-socorro geral. Antes das UPA, havia apenas uma rede pré-hospitalar fixa não regulada pelo Estado que cumpria seu papel sem avaliação sistemática. Na maioria das vezes, essas unidades não eram expressivas em termos estruturais, não classificavam risco e produziam consultas pouco resolutivas. Pela primeira vez um componente do Sistema Único de Saúde (SUS) foi proposto com grande exigência nos critérios estruturais. Esse foi um diferencial expressivo, em relação ao parque de prontos-socorros já existente antes da UPA. Evoluiu do modelo de pronto-socorro que não tinha resolutividade, espaço físico, equipe qualificada, material, medicamento.

Comparativamente, quando analisamos a atuação e o discurso de Bolsonaro, não vamos encontrar palavras nem elaborações estratégicas como UPA, SAMU, SUS, SAÚDE DA FAMÍLIA. Quando ele afirma: “Vamos enfrentar o vírus!”, não explicita quem são os sujeitos da frase. Vamos quem? Como? Com que protocolos científicos? A partir de que estratégias? Do uso da cloroquina? Com o incentivo a aglomerações? Mandando a população enfiar as máscaras no rabo, como falou recentemente Eduardo Bolsonaro?

Segundo o vice-presidente Mourão, “o presidente Bolsonaro é o responsável por tudo o que acontece na saúde ou deixe de acontecer”. Ontem (16) atingimos um número recorde diário de mortos: 2.842 pessoas perderam suas vidas em um único dia. Registre-se, portanto, a declaração de Mourão sobre a responsabilidade do Capitão para o total de 282 mil mortos por Covid-19 no Brasil até o presente momento. Quando tudo for devidamente apurado iremos poder constatar se o youtuber Felipe Neto, com seus 41 milhões de seguidores, estará certo ou não em sua denúncia, chamando publicamente Bolsonaro de genocida”. Recentemente Neto destacou em seu canal de mídia o fato de toda a família Bolsonaro estar sendo investigada por prática de corrupção com dinheiro público. Até hoje ninguém sabe de fato as razões de Queiroz, assessor de Zero Um, haver depositado algumas dezenas de milhares de reais na conta da primeira-dama.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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