Por que Alain Delon escolheu a eutanásia?
Por que teria escolhido esta saída inusitada, transversal, das glórias da vida ? Como escapar de fininho, à anglaise de todo o imenso sucesso de que desfrutou em vida ? Não teria sido por rancor ou o pelo vazio das imposições da estética e da cobiça despertada pela beleza feminina que o cercava? Quem sabe pelo peso prolongado do sucesso, do deslumbre e do vazio da solidão e do esquecimento que maltrata as pessoas bem sucedidas?
Não sou dos que fogem da prestação final das contas, do acerto de pendências acumuladas. Não busco saída ou segurança no escape bem arranhado da fuga.
As que tentam escapar destes “finalmente”, estas dilaceradas criaturas não são criminosas, nem atentam contra os poderes divinos de Deus. São reféns do medo e da desesperança, do improvável das suas vidas e das suas incertezas.
Mesmo as provisões de fé trazidas no bornal da viagem iniciada, mostram-se insuficientes para essa tumultuada travessia. Quem não as tem, folga no peso da bagagem, mas não está mais à vontade para desfazer-se dos incômodos da caminhada…
A eutanásia não é um comportamento criminoso; é a saída sorrateira de fuga, a antecipação do “néant”. É uma especie de fragilidade guarnecida paradoxalmente por enorme coragem física…
Setores conservadores do clero catolico e de outras confissoes cristãs e islâmicas, a propósito, têm o aborto e o suicídio como desrespeito à vida e as leis em alguns países configuram a sua prática como crime. Não me proponho envolver-me com estes contrapontos. Faltam-me o poder do léxico das ciências teológicas e das suas reservas para abordagem lógica para desenvolver esses exercícios e o indispensável reforço lógico.
O fundamentalismo religioso do cristianismo proibia aos hereges, suicidas e judeus, e criaturas carentes dos Sacramentos da fé, o assentamento confortável nos cemitérios. Mas não aos pecadores comuns, os que se diziam arrependidos dos seus atos inconfessáveis, espertamente confessados…
Para estes o dinheiro tinha o dom de afastar as restrições teologais e discriminatórias… Adquiriam-se as indulgências como pedágio autorizado para a travessia incerta dos incômodos da dúvida.
Ocorre-me a reação do velho pároco de Mossoró, nas ânsias da morte em atraso. O bispo a confortá-lo, a acenar com as alegrias anunciadas da volta ao Paraíso, a felicidade que teria o moribundo de cair nos braços do Criador. Ao velho ministro de Deus não ocorrera apressar a partida, ao encontro da Providência. Por ele ia-se demorando por aqui enquanto não se esgotasse a paciência do Criador.
No aguardo da espera para tornar ao regaço de Deus, ponderva ao encorsjamentos de fé do bispo:
“— É, senhor bispo, sonho com este encontro abrnçoado, mas Mossoró é tão bonzinho…”
Imagem ilustrativa produzida com uso de inteligência artificial