A INOCÊNCIA EM TEMPOS INFERNAIS – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

 

“Como se de repente abrolhassem pedrouços ásperos no leito de um regato tranquilo e claro.” (Antônio Sales, em Aves de arribação).

 

E o garoto de rosto angelical, olhos azuis de turmalina parahyba, cabelos de fios de ouro em cachos, em sua inocência devidamente “chipada” de cinco anos recentemente completados, quis saber:

– Voinha, onde fica o céu de Deus?

Ele já descobrira, no curso de suas muitas vivências pueris, alguns outros céus – o da boca, alcançado com a ponta da língua; o da amarelinha, atingido após saltos sequenciais e alternados em um e dois pés [em alguns casos, havia – e disto ele também já sabia – o inferno: uma faixa, entre a última casa e o pórtico do espaço cingido pela abóbada celestial, retangular, estreita, tisnada – se todo o traçado no chão fosse feito a carvão –  e perigosa porquanto se alguém nela pisasse receberia, de imediato, o castigo de reiniciar o jogo]; e, obviamente, o das nuvens, ora encantadoras: quando formam graciosos desenhos em movimento; ora amedrontadoras: quando, enegrecidas, explodem em relâmpagos, trovões e chuva; o do Sol, senhor absoluto, imponente; o da Lua, senhora apaixonante, inspiradora, romântica; o das estrelas tremeluzentes, para as quais jamais apontava seu dedinho indicador com medo de verrugas.

Sim, ele já sabia disso tudo. Mas precisava entender a frase de rogo, de súplica, de obsecração [palavra – figura de estilo em Retórica – que não fazia parte do seu vocabulário ainda em formação, muito menos do da sua “voinha” já em processo de extinção, mas aqui usada por ter muito azucrinado o autor destas mal traçadas linhas, que não se lembra de onde a recolheu, talvez do cearense Antônio Sales, em sua prosa quase-poesia Aves de Arribação; talvez do italiano Umberto Eco, em Baudolino ou A misteriosa chama da rainha Loana; ou – quem sabe – do alemão Thomas Mann, em A montanha mágica], ouvida – a frase (catafórica, sequenciada) e não a palavra (anafórica, retomada) – de muitas bocas fervorosas, suplicantes ou perplexas, incluindo a própria: “Meu Deus do céu!”.

A velha e bondosa matriarca, septuagenária, bonachona e espontânea, pretendeu ser a mais didática possível:

– Meu lindo, Deus é o ser supremo do universo e está acima de todos e de tudo. Tudo mesmo! Embora possa estar em todos os lugares ao mesmo tempo, faz do céu a sua morada. Assim, o céu de Deus está no mais alto de tudo, lá onde os nossos olhos não conseguem alcançar, além da nossa pobre imaginação. – E, apontando para a abóbada celestial, este céu que vemos a olho nu, acrescentou: – O céu de Deus está lá em cima, muito pra lá daquele que você vê com seus tão azuis olhinhos.

– Voinha, e o inferno… onde fica?

A criança, em fase de descobertas, sempre tem uma perguntinha a mais a fazer. Nessas horas, recomenda-se ao adulto ter paciência, exercer o cândido e afetuoso amor e desvelar, em atitudes firmes, a plena consciência de ser educador.

A velha e bondosa senhora, servidora pública federal aposentada, com mais de três décadas de dedicação integral ao cumprimento das cláusulas contratuais que a vinculavam ao Serviço Público, perseguida desde Collor, o que dizia “ter aquilo roxo” e a rotulou de “marajá” (no caso, “marani”); e FHC, que a incluía no rol dos “vagabundos” (“detentores de muitos penduricalhos remuneratórios”, costumava caçoar); e Lula, que não se dispôs a rever a usurpação continuada dos seus direitos legitimamente conquistados, (“apesar de sua origem proletária”, costumava resmungar); e Dilma, que a enquadrou entre os “sangue azul” (“que lembra sanguessuga”, costumava ironizar); todos eles a responsabilizando pela quebra do Erário em face de privilégios que os cofres públicos (tetas fartas e graciosas a que acorriam – e ainda acorrem! – engravatados inescrupulosos e apaniguados também) já não tinham mais como bancar; ela, a “voinha” do menino de rosto angelical, não conteve a angústia que ora invadia a sua alma ante a tungada – mais que o dobro! faca pontiaguda em ameaça constante! – no plano de saúde e a perspectiva de substancial elevação de sua contribuição (doação obrigatória!) à previdência oficial, fez-se sincera na resposta de desabafo:

– Meu lindo, por tudo o que vem acontecendo há alguns bons anos, eu tenho certeza de que o inferno está aqui, bem pertinho de nós… E, lançando um olhar panorâmico para o planalto – este que se elevava bem à frente deles, mas certamente com o pensamento voltado para aquele onde os inquilinos do poder alinhavavam o tecido roto que a envolverá em futuro próximo –, arrematou: – Ei-lo. O inferno é o nosso rico e amado Brasil.

– Voinha, e pra gente ir… se mudar pro céu de Deus o que é preciso?

– Ah! Tem que morrer. Isso. Tem que morrer, meu lindo.

– Sabe duma coisa, Voinha, eu não quero mais ir pro céu de Deus, não. Nem quero que a senhora vá. Eu quero é ficar aqui mesmo… no inferno do Brasil… bem juntinho de você. Para sempre.

EM TEMPOS INFERNAIS, QUE TODA INOCÊNCIA SEJA COMPREENDIDA!

 

“Aprende-se ainda criança a metafísica do infinito e o cálculo infinitesimal, só não se sabe ainda o que se está intuindo.” (Umberto Eco, em A misteriosa chama da rainha Loana).

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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