Vando Vulgo Vedita: E o cinema como uma partilha entrelaçada

Em uma manhã ensolarada na periferia de Fortaleza, cerca de 12 jovens saem do interior de um carro popular. Eles aparentam estar em maior número, na verdade. São maleáveis e parecem caber ou se ajustar em e, todo lugar. São únicos porque, na singularidade constitutiva de cada um, eles se formam quase em um só. São todos juntos e apenas um. A reflexão em torno dos traços evocativos desse personagem que vaga por uma metrópole como Fortaleza, é que dá corpo ao brilhante Vando Vulgo Vedita* (2017).

Dirigido por Andreia Pires e Leonardo Mouramateus, o curta apresenta Vando (vulgo Vedita) cujo paradeiro não é visto por um bom tempo nas ruas da Barra do Ceará. Entre aquilo o que é memória, o que se faz matéria no presente e o que de fato ocorrera em um passado remoto, vamos descamando a obra ao mesmo tempo em que por ela também vamos sendo tragados. Esse “embarque”, no entanto, é feito de um modo muito orgânico. Ou seja, cada trecho ou excerto que compõe o filme como um todo assume premissas muito acertadamente definidas.

Primeiro, o curta parte de um lugar não estabelecido, em termos da sua estrutura narrativa. Ou dos dispositivos utilizados para tanto. Em sua primeira sequência, temos a impressão de que aquela estória parte não necessariamente do princípio, mas da sua metade, por exemplo. E já nos aproximando da sua conclusão, entendemos que a sua estrutura faz todo o sentido quando entendemos “Vando” como um trabalho iminentemente contemporâneo. Mas vamos retornar a esse ponto logo, logo. Antes vale umas considerações sobre o status da contemporaneidade desse cinema.

Aqui, temos o filme que se desafia a cada novo 1/3 de minuto em sua duração. E que não é pensado de um modo rígido em termos da sua construção narratológica. Porque nesse caso, não interessa se a ordem ou discurso dessas personagens se imbricam indubitavelmente. O desenvolvimento das situações do curta independem disso. Sua fluidez rítmica se relaciona muito mais em como a sua montagem é posta em termos dos códigos imagéticos ou discursivos contidos nas cenas.

Nós temos pelo menos 3 tempos no filme que são apresentados também por meio de três espaços divididos entre o que é casa (pela manhã), o que é praia (à tarde) e o que é rua (à noite). E disso, Mouramateus e Pires tecem o fio da estória a partir de uma dinâmica de entrelaçamentos dramatúrgicos. No primeiro segmento, por exemplo, há sempre um perpassar de falas e corpos que em sua maior parte é entrecortado igualmente por uma construção sonora que invade cada nova cena.

No filme, o campo e o extracampo em som e imagem são paulatinamente estudados e construídos.

Se há pessoas em um diálogo na cozinha, no mesmo local vemos uma terceira personagem realizando outra tarefa cujos ruídos e sonoridades invadem organicamente a construção cênica armada anteriormente. Pensar esses sons que irrompem a noção de campo dentro do filme é interessante não apenas para olharmos a obra pelo seu aspecto naturalista, mas também para percebermos esse som que não é dividido, mas sim partilhado, uma vez que ele está “em comum”. Assim como o curta se apropria da ideia da partilhas desses corpos em cena, como se todos fossem no fim (e na verdade eles o são) um grande corpo metamórfico.

E é na praia que esses sujeitos nos são desvelados como um uno. Portanto, indivisíveis dentro da singularidade de cada um alí traçado. Colocado isso, é quando a noite chega que saímos da estética de uma câmera perambulante, fortalecida novamente por uma montagem que tornam os planos do filme quase imperceptíveis no seu estado natural de progressão. Na noite, os parceiros viram captores, mas não gratuitamente. É a política pautada por meio da imagem. E em vez de um longo monólogo ou debate sobre, o filme nos mostra a cara do lado opressor do cotidiano que há poucas horas era aberto e sem regras.

São esses detalhes essenciais para a construção do filme em seu sentido e forma fílmicas que o tornam tão singular. Vando Vulgo Vedita é um encontro feliz de uma direção em coautoria. É um trabalho que nos leva a uma importante reflexão de que a boa estória independe do impacto de uma mensagem que muitas vezes é apresentada de forma imposta ao longo da narrativa. Ele nos mostra que, nesses casos, é na caminhada que reside a relevância do fazer cinematográfico. E certamente é por isso que esses personagens estão, ao longo dos 20 e poucos minutos de projeção, estão em um constante deslocamento. Porque o que importa é o que o cinema mostra no meio do caminho e não no seu fim, necessariamente.

* Vando Vulgo Vedita terá uma exibição neste sábado (24) às 19h30 no Cinema do Dragão. O curta será exibido junto do longa “Mãe só há uma” (2017) de Anna Muylaert, dentro da Mostra Bárbaras.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Vando Vulgo Vedita

Tempo de Duração: 21 minutos

Ano de Lançamento (BRASIL): 2017

Gênero: Drama, Comédia

Direção: Andréia Pires, Leonardo Mouramateus

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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