UMA SEXTA-FEIRA DE MORTE, por Alexandre Aragão de Albuquerque

A sexta-feira anterior à celebração da Páscoa é denominada de Sexta-Feira da Paixão, momento ápice de Jesus de Nazaré, líder fundador do cristianismo, no qual veio a sofrer seus últimos momentos do processo político-jurídico instaurado contra si, sendo submetido à tortura e condenado à pena de morte na cruz, dosimetria dispensada somente aos grandes criminosos de então.

Já no antigo testamento, mais precisamente no segundo livro de Isaías, encontra-se, em perspectiva profética, uma alusão a Jesus, nos trechos dedicados ao Servo de Iaweh. Os exegetas denominam de Deutero-Isaías os cantos do profeta no exílio da Babilônia. São escritos no fim da profecia anunciadora da libertação, um novo começo para aquele povo vencido.

Neste exílio, os israelitas tornam-se expectadores de fatos grandiosos como a queda do gigantesco império assírio nas mãos dos persas. Em 539 a.C., Ciro entra em Babilônia e é neste contexto que o Deutero-Isaías vê as mudanças históricas acontecerem. E em sua interpretação profética dos fatos, escreve: “É assim que Deus fala a todos os que se sentem fracos e estão a ponto de se deixarem transviar; assim fala também a todos os que se mantêm aferrados a um espírito conservador na observância da tradição, sem permitir esperar algo de novo da parte de Deus”.

Cerca de 500 anos mais tarde, os israelitas irão deparar com um fenômeno humano, nascido em Belém de Judá, numa manjedoura. Pobre como os pobres de então, fez do ofício de carpinteiro seu modo de sustento da família, ofício que aprendeu do seu pai José. Na fase adulta, decide sair em caravanas pelas periferias de Jerusalém, a anunciar uma novidade: Deus é Amor, ama a todos sem distinção. Deus é Papai, verdade que implica uma relação de fraternidade entre os humanos de todas as latitudes. Cada ser humano possui a dignidade de filho de Deus; aliás, afirma Jesus, Deus considera feito a si todo bem e todo mal praticado contra qualquer humano. É aqui que reside a fonte da qual nasce precisamente a imperiosa necessidade de se elencar e garantir os direitos humanos.

Andarilho por Cafarnaum, Betsaida, Samaria, Galileia, Jesus praticava o bem de forma igualitária, dando preferência àqueles mais sofredores e oprimidos pelo poder político e social de então. Não frequentava os palácios dos reis nem os espaços destinados à burocracia nativa que dava sustentação ao poder romano. Em suas caravanas junto ao povo, ia conquistando sempre mais discípulos para a sua causa inovadora, o que chamou atenção do poder constituído: era preciso cessar com a ação daquele subversivo da ordem instituída.

Assim, realizaram várias reuniões entre os chefes de sinagogas e do poder romano, definiram a estratégia de sua captura, levando-o ao Governador Pilatos, que na ocasião de seu julgamento disse não ver motivo de condenação alguma naquele réu, preferindo omitir-se da sentença, lavando suas mãos. Coube então à turba, manipulada pelo ódio dos chefes políticos-religiosos israelitas, pronunciar a sentença de libertação de Barrabás com condenação de Jesus de Nazaré, num processo totalmente injusto e viciado, sem apresentação de provas cabais que justificassem a morte de cruz.

Eis que chegamos ao Brasil na Sexta-feira da Paixão. Ano de 2018 da Era Cristã. Os fatos recentes demonstram o quanto a história se repete seja como drama ou como farsa. Neste mês de março tivemos a covarde execução de Marielle Franco, líder comunitária e política do Rio de Janeiro, defensora dos direitos humanos. Seguindo à sua execução, cinco jovens, entre 15 e 20 anos de idade, também foram executados no município de Maricá-RJ, tendo suas vidas ceifadas por membros de milícia local. Os jovens eram integrantes da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Maricá.

Além disso, a trama iniciada em Abril de 2016, continuou seu roteiro golpista de ataque sistemático ao ex-presidente Lula. No dia 14 de março passado, conforme atestam os jornais impressos, após reunião com os advogados do ex-Presidente, a ministra Carmen Lúcia não garantiu que pautaria sessão plenária do Supremo para analisar o Habeas Corpus em defesa de garantias constitucionais de Lula, ameaçado de ser preso no dia 26 sem o devido processo ser concluído, transitado em julgado como estabelece nossa Constituição Federal. Sob pressão, somente no dia 21 ela anunciou que pautaria na sessão do dia 22 a ação.

Simultaneamente, também na mesma semana anterior ao veredicto final do TRF-4 sobre os embargos de declaração impetrados pela defesa do presidente Lula, a plataforma Netflix, com uma fortíssima campanha publicitária nacional, lançou em rede mundial a série O Mecanismo, do diretor José Padilha, cujo enredo gira em torno da Operação Lava Jato. Segundo o cientista político Dr. Luís Felipe Miguel, da Universidade de Brasília, “o seriado de Padilha visa exatamente prejudicar as condições de disputar a narrativa da Lava-Jato, dominante na mídia corporativa, (1) ao atribuir ao personagem Lula as falas reais do senador Romero Jucá; (2) ao reposicionar na linha do tempo o escândalo do Banestado, ocorrido no governo FHC, para o ano de 2003; (3) ao fazer do jurista Márcio Thomaz Bastos advogado do doleiro; (4) ao atribuir à presidente Dilma Rousseff uma amizade com o diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, que ela na verdade confrontou e demitiu. O objetivo é criar mais uma barreira ao enfrentamento discursivo na classe média”. Além disso, O Mecanismo revela involuntariamente um segredo: a matéria-prima que foi mobilizada pelos atores do golpe, por meio de bombas midiáticas semióticas, para produzir o caos sistêmico, conceito enunciado por Andrew Korybko em sua obra Hybrid Wars. Ou seja, o envenenamento do psiquismo nacional pelo mecanismo regressivo do ressentimento até tornar-se ódio pelo outro.

E fechando a trilogia desta articulação, no dia 26 de março, dia em que os golpistas esperavam finalmente a prisão de Lula, a TV Cultura, rede estatal paulista, sob o comando do PSDB, entrevistava ao vivo o juiz Sérgio Moro em rede nacional. Acontece que a concessão de liminar na quinta-feira 22 pelo STF melou o que seria uma verdadeira bomba semiótica perfeita dentro do quadro de guerra híbrida a que estamos submetidos, mas que poucos brasileiros conseguem atentar. No plano traçado, tudo deveria ter-se encerrado com a gloriosa vitória do juiz dando voz de prisão ao ex-presidente. Que decepção!

Do outro lado da história, Lula com o PT, juntamente com diversas forças democráticas, nesse período, estavam em caravana, junto ao povo da região sul do Brasil. Representar significa justamente isto: estar ao lado de alguém para poder captar-lhe sentimentos, pensamentos, anseios e necessidades com o objetivo de formular uma pauta política capaz de ser implementada. E é isto que Lula fez e vem fazendo ao longo de sua vida como ator político de máxima expressão. Homens, mulheres, jovens, crianças lotavam os comícios em praças públicas sulistas. Até que alguns intolerantes descontentes da crescente popularidade dessas caravanas, a exemplo dos chefes das sinagogas do tempo de Jesus, foram às ruas, com ovos e relhos para cavalos, a açoitar aquelas populações brasileiras. No passado este tipo de atitude foi desenvolvida pelos fascistas italianos, “Camisas Negras”, que açoitavam mulheres, crianças, espancavam grevistas e intelectuais, membros de ligas camponesas e de qualquer outro grupo que pensassem diferente deles. A semelhança entre MBL, VEM PRA RUA e outros grupos como os que atacaram mulheres que estavam participando da caravana política no sul do Brasil é assustadora. Assustador é também o apoio e o incentivo a esta violência expresso publicamente por uma senadora gaúcha do Partido Progressista – PP, ou a manifestação do governador de São Paulo ao não condenar o atentado a balas disparadas contra os ônibus integrantes da caravana.

Sexta-Feira da Paixão no Brasil. Um grito lançado no ar, uma morte anunciada. Oxalá tenhamos ouvidos para ouvir e braços para agir em defesa de nossa democracia ameaçada pelas articulações farisaicas do tempo presente.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *