Uma Mulher Fantástica: E o cinema como uma janela aberta ao mundo

O cinema pode ser uma janela, ou um portal, potencialmente aberto para o mundo. Essa é uma das suas inúmeras naturezas. E também um dos motivos que o tornam uma arte tão imprescindível na história do ontem, do hoje e do nosso amanhã. Falando-se do presente, é com uma alegria imensa que vemos trabalhos que transcendem a si mesmos em sua interação com a contemporaneidade e todas as complexidades que lhe atravessam. Dessas experiências é que surgem obras como o admirável “Uma Mulher Fantástica” (2017).

O longa conta a estória de Marina, uma mulher transgênero que tem de lidar com a difícil situação decorrente da morte súbita do seu namorado.

Dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, o longa conta a estória de Marina Vidal (Daniela Vega), uma mulher transgênero que trabalha como garçonete durante o dia e cantora de boate à noite. Sua vida sofre um duro golpe quando ela tem de lidar com a morte súbita do seu namorado, Orlando (Francisco Reyes).

Direto, o longa tem na sua protagonista seu maior sustentáculo. Todo o desenvolvimento da narrativa e seus desdobramentos encontram em Marina seu ponto máximo de convergência. Por isso que o filme pode ser visto como uma estória de heroína. Mas não necessariamente pela imposição e força que emerja da nossa protagonista. Ela é muito forte, sim. Mas Sebastián decide dar forma a esse traço de uma maneira mais sutil, subliminar, até.

Considerando seu tom, o longa tem a natureza dos seus fatos apresentada de modo bem naturalista. Mas ao mesmo tempo, há pequenas inserções que quebram esse naturalismo dotando-o de novas camadas interpretativas. Em tese, é como se, a partir daquilo o que Marina vive ou sente em determinado momento, nós também enquanto espectadores pudéssemos sentir o mesmo. Como se olhássemos para o mundo e víssemos o que ela vê pelos seus próprios olhos.

Em uma uma determinada sequencia, ela dança livremente em uma boate até ser alçada ao alto como se flutuasse feito uma pena. Tudo está na cabeça dela, certo? Vai saber. O jogo é conseguirmos montar nosso juízo a partir daquilo o que vemos. E essa é a mágica e o poder do cinema, entendem?! Ele vai e volta entre aquilo o que é seu sentido e forma fílmicas.

Em determinados momentos do filme, temos a sensação de estarmos vendo o que Marina vê através dos seus próprios olhos.

Há a dureza do cotidiano desenhado pela perda de alguém a quem se ama e da irredutibilidade de uma sociedade que não compreende a profundidade dessa mulher à frente de seu próprio tempo. Mas também há o lirismo e acalanto encontrados nas pessoas a quem ela pode incondicionalmente contar, um amigo, um parente. Das pessoas que não hesitarão em acolhê-la nos momentos de precisão.

Sóbrio, portanto, o filme opera nessas escalas para ser algo maior. Não um mero baluarte utilizado como dispositivo para endossar um discurso panfletário. Sua sutileza em se perceber como uma obra fílmica, acima de tudo, é outra aresta que confere ao longa uma aura tão particular. Falar disso é entender que o processo artístico é um ato político em si, mas que não está desvinculado da sua natureza lírica do mesmo modo.

Quando vemos Marina caminhando por uma avenida contra uma inesperada ventania que tenta “detê-la” de toda forma, testemunhamos a assinatura dos criadores da obra nos mostrando (por meio de imagens e da ação) o quanto essa mulher é ininterruptamente resistente, determinada. A metáfora entra em cena de maneira exata ao mesmo tempo em que novamente o filme nos diz: vocês estão diante de uma obra cinematográfica. Mas há trabalhos, entretanto, que indubitavelmente ultrapassam o círculo da representação e agem diretamente no mundo tornando-se gestos com força de ação.

O filme trabalha elementos metafóricos e de ordem naturalista em fluido desenvolvimento da sua narrativa.

E esse é o caso de Uma Mulher Fantástica. Desde sua concepção inicial, o filme foi construído e teve como base um centro temático muito bem delineado no seu entorno. E com base nisso, toda uma campanha foi desenvolvida nesse sentido. Ou seja, de uma criação audiovisual que é iminentemente um exercício estético-político do ponto de vista das suas pertinentes discussões sociais e políticas. E como ponto de inflexão junto à nossa sociedade.

O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro foi mais uma mostra do quanto o longa tem de potencialidade reconhecida no cenário das práticas artísticas. É uma obra para ser lembrada e revisitada desse tempo que se faz no agora em diante. É o cinema como escrita do que ainda estar por vir.

Ou seja, como uma lente de reflexão dos pontos que não podemos negligenciar em um contexto onde a realidade de determinados grupos, tal qual das mulheres transgêneros, por exemplo, necessitam de canais abertos para um diálogo honesto com a contemporaneidade. Enfim, é o cinema como uma janela aberta ao mundo.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Una Mujer Fantástica

Tempo de Duração: 114 minutos

Ano de Lançamento (Chile/Alemanha): 2017

Gênero:   Drama

Direção: Sebastián Lelio


Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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