Um diálogo entre Albert Eckhout, Adriana Varejão, figos e outras frutas. Por Ana Valeska Maia Magalhães

Os primeiros parágrafos do romance As meninas, de Lygia Fagundes Telles, são de um magnetismo irresistível. Lygia é uma autora que sabe manejar os segredos da boa escrita. Portanto, dentre outras habilidades, sabe como começar um texto. Ela nos fala de uma cidade úmida, que exala aroma de pêssegos. De repente, um olhar é capturado e, intrusivo, mergulha nos atos alheios: o apalpar de uma fruta, o percurso dos dedos pela superfície macia, as narinas dilatadas pelo perfume, a língua pressionando o alimento para enfim dar o bote e mordê-lo, fazendo espirrar o sumo. A narrativa relaciona-se metaforicamente com a atividade sexual: cheiro, olhar, preliminares e gozo final.

Nas várias sensações desencadeadas por palavras e imagens há um campo de produção que brotou a partir dos processos coloniais, nos encontros e entrechoques de culturas do Velho e do Novo mundo. Em contraste com a frieza marmórea dos padrões clássicos de representação, ou ainda das imagens baseadas numa iconografia religiosa recatada, as imagens produzidas a partir das narrativas de impacto diante da cultura do Novo Mundo dão jorro ao exótico. É digno de nota o descaso da coroa portuguesa na documentação das riquezas naturais durante todo o século XVI – o primeiro século da colonização no Brasil. De fato, houve produção de imagens neste período, porém baseado nos relatos de aventureiros que passaram por estas terras, como foi o caso do alemão Hans Staden – que testemunhou rituais antropofágicos, ou dos franceses André Thevet e Jean de Léry.

Portanto, a elaboração de imagens relacionadas ao mistério das terras recém-encontradas era fomentada pelos textos dos aventureiros viajantes. No século XVI a estranha e longínqua terra de um Novo Mundo batizada Brasil (que assumiu outros nomes no período – Terra dos Papagaios, América Portuguesa, Ilha de Vera Cruz), abria espaço para diversas narrativas e construções imagéticas. As práticas das tribos nativas foram associadas em alguns relatos como canibalescas, diabólicas, vis, lascivas, configurando um atentado aos preceitos cristãos. Outros relatos descreviam os gentios como selvagens que andavam nus, usavam arcos e flechas, mas que davam boas vindas aos visitantes (SCHWARCZ, 2014).

Desta época são emblemáticas as gravuras de Theodor De Bry, que ilustrou, inclusive, os relatos de Hans Staden. Estas imagens alimentavam o imaginário europeu acerca do novo mundo. Exibem corpos mutilados, cujos pedaços eram devorados por nativos insaciáveis. Theodor de Bry caprichava nas cenas de esquartejamento e retirada das vísceras de dentro dos corpos. Longe de reconhecer a antropofagia como um ritual carregado de simbolismo, para o imaginário da época mais valia construir uma noção específica dos hábitos dos nativos como assustadores canibais, que precisavam ser contidos em sua fúria.

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Imagem: Theodore de Bry, “América”, século XVI.

Portanto, a expectativa do encontro com o exótico provavelmente alimentava as fantasias dos artistas designados a percorrerem essas terras. Quando o jovem Albert Eckhout desembarcou no Brasil colonial, no início do ano de 1637, encontrou uma mistura de cheiros, aromas, texturas e sabores. Eckout integrava a comitiva liderada pelo conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen, responsável por comandar a expansão da ocupação holandesa no Brasil durante a primeira metade do século XVII. Nassau nutria sonhos ambiciosos e sua empreitada era motivada pelo espelho que ele buscaria reproduzir na colônia recém-tomada, baseado nas cidades alemãs e holandesas. Era o sonho de construir o Brasil Holandês. Com boas doses de narcisismo funda a cidade Maurícia, e constrói elaborados jardins públicos e palácios. Nenhuma dessas construções sobreviveu aos confrontos coloniais que se sucederam, porém permanecem registros em imagens e descrições, bem como uma espécie de nostalgia quando se fala de uma “era de ouro” na cidade de Recife.

São os holandeses os primeiros artistas profissionais a realizarem trabalhos tendo como tema a colônia brasileira. O caráter era, também, científico e, além de Albert Eckhout, notabilizaram-se como participantes da expedição o pintor Frans Post, o naturalista Georg Marcgraf e o médico Willem Piso. O projeto consistia na execução de ilustrações e descrições escritas da flora, da fauna e dos tipos humanos encontrados. Desta forma, os artistas da corte de Nassau criaram centenas de desenhos e estudos. Coube à Eckout, durante sua permanência na colônia, os retratos e naturezas-mortas. Um exemplo raro é o estudo de um menino tapuya realizado em carvão – raro, pois muitos estudos se perderam e provavelmente este é o único exemplar existente no Brasil.

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Imagem: estudo de menino indígena ajoelhado, 1640
carvão sobre papel, 22 x 14 cm. Coleção Airton Queiroz.

Além dos vários estudos são notáveis as nove pinturas, sendo uma de grupo e oito retratos, que foram elaborados pelo artista em tamanho natural e representam índios, africanos e mestiços. Além da permanência do impacto exótico e atraente da violência que devorava corpos humanos – como é o caso da Índia Tapuya de Eckhout, que nos olha calmamente enquanto segura uma mão humana cortada com longas unhas cinzentas, bem como um pé que surge no cesto acomodado nas costas, houve também o recurso do apelo à sensualidade, verificável na pintura da mulher mestiça que se oferece ao olhar do outro, entre flores e frutas. A Mameluca foi cuidadosamente montada para atender à visão estereotipada sobre as mestiças, colocadas numa condição objetal. O ego fálico do colonizador europeu propagador de uma moral machista encontrou na exibição das formas femininas atraentes e desejáveis mais uma fonte de apropriação e exploração.

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Imagem: Albert Eckout. Índia Tapuya. 1641. óleo sobre tela, 272x165cm. .

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Imagem: Albert Eckhout. Mameluca. 1641. óleo sobre tela, 271×170 cm.

Igualmente, nas naturezas-mortas de Eckhout, as frutas e hortaliças tropicais se oferecem ao olhar. São exibidas em conjunto, inteiras ou abertas. O céu carregado de nuvens propicia um contraste que ressalta a sensualidade do alimento. Lançam-se além da borda onde (não) repousam. Os alimentos cresciam nos jardins da cidade Maurícia, especialmente na residência de Nassau – o palácio de Friburgo em Recife. Coqueiros, laranjeiras, limoeiros, figueiras, mamoeiros, cajueiros e as representações de seus frutos estavam designados para dar exuberância natural e artística ao lar do líder da expedição holandesa.

Albert Eckhout - Natureza Morta

Imagem: Albert Eckhout, Natureza-morta com abacaxi, melancia e outras frutas. Óleo sobre tela, 93 x 90cm.

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Imagem: Albert Eckhout. Natureza-morta com melões e outras frutas. Óleo sobre tela, 91 x 91 cm.

Séculos após as pinturas de Eckhout a antropofágica arte de Adriana Varejão aguça o apetite do olhar do espectador. Ela faz o jogo do esconde-revela, abrindo margem para a inventividade da fantasia do outro. As representações das frutas e mexilhões em seus grandes pratos, inspiradas no antecedente das estranhas produções dos ceramistas Bordalo Pinheiro e Bernard Palissy, são postas aqui em diálogo com a pesquisa que a artista realizou sobre as sereias e as mulheres mergulhadoras em águas profundas.

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Imagem: Adriana Varejão. Sereias bêbadas. 2009. Coleção Airton Queiroz.

Os figos abertos – diferente de como Bordalo os apresentava, sempre fechados – nos pratos de Varejão estão abertos, oferecidos à captura do olhar, intensificando a relação de erotização. No entanto, não se pode subestimar o jogo proposto. Longe de ser literal, a obra da artista faz paródia com sentidos e impressões, incluindo narrativas ocultas no verso dos pratos que exigem um manejo de corpo do espectador para encontrar essa face oculta. Dentre tantas outras esta é uma das forças da arte: um dar-se conta de que existem muitos diálogos possíveis além dos que estão postos no comum da passagem dos dias, e inclusive, nas tantas simbologias contidas uma simples fruta mordida.

Referências

BRIENEM, Rebecca Parker. Albert Eckhout: Visões do Paraíso Selvagem. Obra completa. Capivara, 2010.

TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SCHWARCZ, Lilia Moritz & VAREJÃO Adriana. Pérola imperfeita: A história e as histórias na obra de Adriana Varejão. Rio de Janeiro: Cobogó, 2014.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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