Toy Story 3: E a animação como cinema total, por Daniel Araújo

O cinema de animação, assim como todo gênero da história da cinematografia, tem uma série de códigos específicos e particulares. Um desses pontos é certamente a capacidade de nos apresentar histórias e personagens que dialogam horizontalmente com crianças, jovens e adultos. E mais do que obras orientadas ao público infantil, essa vertente cinematográfica pode se ancorar em trabalhos com alta carga dramático-cômica. Assim foi que se deu o excepcional Toy Story 3 (2010).

Dirigido por Lee Unkrich, o longa narra a terceira parte das aventuras de Woody e seus leais companheiros. No filme, Andy se prepara pra ir à faculdade e com isso o restante dos seus brinquedos decidem que é hora de deixar o antigo lar em busca de um novo local para viver. Acolhidos na creche Sunnyside, eles veem uma chance de  retomar seus cotidianos junto à novas crianças, mas nem tudo é o que parece nesse novo lar.

Um dos pontos que mais se destaca em Toy Story 3, a exemplo do que vemos nas duas outras partes da trilogia, é o modo como a equipe do filme consegue manter um ritmo de alta fluidez entre cada capítulo que formam a obra na sua totalidade. E como todo bom trabalho audiovisual, o longa de animação se pauta prioritariamente na ação e em sua natureza continuada. Essa é a veia formal que o dota de uma estrutura tão coesa.

O longa se pauta prioritariamente na ação e em sua natureza continuada. Essa é a veia formal que o dota de uma estrutura altamente coesa.

Ou seja, com um roteiro muito bem amarrado, temos sempre uma ação que leva a narrativa para frente sem grandes brechas ou momentos desnecessários. Estruturalmente falando, Unkrich monta a estória em uma linha que vai do primeiro ato onde Andy se prepara para fazer sua mudança rumo à faculdade, a ida dos brinquedos para Sunnyside e a tentativa de saída deste local.

O filme é objetivo e se encaixa proporcionalmente no tempo de sua metragem. Esses 110 minutos são balanceados, portanto, em instantes de tons mais descontraídos, assim como toda animação se faz perceber, mas também são complementados com passagens de variações tonais dramáticas muito bem construídas. E perceber isso é falar particularmente do fato de que a equipe de um projeto como esse tem diante sua obra.

Em Toy Story 3, há uma investigação ao longo do filme que se dirige muito mais para a construção de uma atmosfera em torno de temáticas e sentimentos como a lealdade e a tomada de compromissos ante nossas responsabilidades. Isso porque o ponto que atravessa toda a obra é a transição. Tanto de Andy, rumo à fase adulta, quanto dos brinquedos, que terão de se adaptar a uma nova vida longe de seu, então, dono.  E o trato dessa veia ligada aos sentimentos é ditada por alguns gatilhos muito bem apresentados na obra.

No filme, há uma investigação que se dirige à construção de uma atmosfera em torno de temáticas e sentimentos como a lealdade e a tomada de compromissos ante nossas responsabilidades.

Um desses gatilhos é a sutileza na exposição da situações desenvolvidas na animação. Falar disso é entender o quanto as falas de cada uma das personagens na estória são concisas em termos de construção narrativa. Nenhuma fala parece desnecessária e se adequam para cada cena desvelada. E essa posição é levada à sua máxima potência quando vemos uma sequência como a do incinerador.

Andy e os demais brinquedos estão indo para a morte certa, presos numa fornalha de detritos e pouco resta a se fazer dada a delicada situação. É nesse ponto que o longa se revela tão brilhante por perceber algo que é fundamental na discussão acerca de como o cinema pode guiar suas audiências, sejam ela composta por pequeninos em suas primeiras experiências cinematográficas, ou adultos com uma cultura visual já estabelecida.

A sutileza é quem nos conduz enquanto espectadores diante de uma construção fílmica onde personagens criados digitalmente respondem a um roteiro que os colocam em silêncio diante do fim. Sem desespero, alardes ou covardia, eles aceitam o destino por meio dos olhos e percepção daqueles que realizaram a obra enquanto projeto audiovisual.

Há o trabalho técnico que remonta ao bom uso da trilha sonora composta por Randy Newman, cuja carga dramática  se encaixa e complementa perfeitamente na ação.  Falamos de um música que nos guia para dentro de toda a tensão que esses personagens estão ali encarando.

É a coragem que se metaforiza ali, e falamos de algo sutil porque pede a atenção de quem assiste, e nesse sentido é muito positivo pensar as crianças numa experiência de ver um filme que requer delas esse estar contemplativo e de interpretação diante de um cinema que sugere ao invés de tentar explicar e explicitar.

 

Na sequência acima, o longa trabalha a expressividade de cada personagem de modo a construir uma das cenas mais fortes e dramáticas já trabalhadas em uma animação.

Esse é um dado que também nos serve para rechaçarmos todo discurso que busca enquadrar e limitar a própria potencialidade da animação como gênero. Falando do incompreensível argumento de que o cinema de animação “não seria cinema”. Se pensa, nos fazer pensar e se constrói por meio de uma linguagem, que prioritariamente é cinematográfica, então vemos e nos pomos diante do mais puro e potente cinema, sim.

Tal caminho é o caminho que não apenas Toy Story traçou nos últimos 22 anos, mas toda uma gama de filmes seja da Disney ou de outras companhias, como o sensacional Studio Ghibli no Japão. Porque juntos, todos esses memoráveis personagens e seus diretores nos transmitiram as mais sinceras emoções e entendimento do cinema em toda sua técnica e conceitos do que muitos conjuntos de obras por ai distribuídas. Sem dúvida alguma.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Toy Story 3

Tempo de Duração: 103 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2010

Gênero: Animação, Aventura, Comédia

Direção: Lee Unkrich

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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