Thor – Ragnarok: E o eficiente descompromisso do filme de gênero

Pelos olhos do diretor Taika Waititi, fomos apresentados nas últimas semanas a um dos melhores filmes de adaptação de histórias em quadrinhos do ano: Thor: Ragnarok (2017). Em seu quarto longa-metragem, o realizador neozelandês criou a melhor representação das estórias do Deus do Trovão nos cinemas, até o momento. Longe de todo o hype, ou empolgação, que assalte enquanto fã desse gênero cinematográfico, afirmo isso com base nos fatos que só a experiência fílmica pode nos atestar.

 

Em sua terceira aventura solo, Thor (Chris Hemsworth), acaba aprisionado no distante planeta Sakaar e se vê em uma disputa letal contra Hulk (Mark Ruffalo). Ao mesmo tempo, ele precisa lutar para sobreviver e retornar para Asgard a fim de impedir que a poderosa Hela traga o Ragnarok, o que viria a  destruir aquela civilização.

 

Inicialmente, o terceiro longa da franquia iniciada ainda em 2011 com Thor (Kenneth Branagh), é um trabalho que não precisa ser levado à sério. A própria construção do filme e a caracterização de suas personagens nos dizem isso ao longo dos seus 132 minutos de duração. Mas isso é um problema? De jeito nenhum. primeiramente precisamos lembrar que o tom da comédia nos filmes anteriores sobre este herói já havia sido, sem sucesso, explorado.

 

Em Ragnarok, o elemento cômico passa, acertadamente, a ter contornos mais orgânicos. Primeiro por ser uma obra assinada por um realizador que tem construído toda sua filmografia em cima de longas do gênero da comédia. Basta lembrarmos dos excelentes Boy (2010), O que Fazemos nas Sombras (2014) e Hunt for the Wilderpeople (2016).

O realizador Taika Waititi passa instruções para Hemsworth no set de Thor: Ragnarok.

Segundo, pelo fato de Taika entender, desde o princípio, que seu cinema é uma arte feita para não ser levada à sério. E assim como as aventuras de super-heróis nas HQs, elas nos convidam a uma viagem por um universo onde o prazer da apreciação fílmica emerge do descompromisso que temos diante do que vemos. Isso, obviamente, nada tem a ver com um fazer audiovisual displicente e sem apuro técnico.

 

Falar isso é dizer que, diferentemente dos dois últimos longas do Deus do Trovão, aqui, essa modulação dos convergentes tons do cinema de gênero é colocado em confluência com uma obra repleta de referências à mitologia desse super-herói nos quadrinhos. E isso é algo que infelizmente não notamos, por exemplo, nos dois primeiros longas da trilogia. Ou seja, mesmo apostando em um tom mais leve para o filme, Waititi conseguiu apresentar um Thor mais autêntico e apológico a partir de uma construção referencial muito mais bem pontuada.

Mesmo apostando em um tom mais leve para o filme, Waititi conseguiu apresentar um Thor mais autêntico e apológico a partir de uma sólida construção referencial.

Temos índices mais claros, como a apresentação de alguns personagens importantes do universo deste herói com um pouco mais de aproveitamento das suas figuras, como é o caso da vilã Hela (Cate Blanchett) e do apocalíptico Surtur (Clancy Brown). Isso, apesar da limitada exposição da trama envolvendo o embate e interação entre a equipe de Thor (Hulk, Valquíria, interpreta por Tessa Thompson e Loki, vivido por Tom Hiddeleston) e Hela.

 

E também temos índices mais sutis, mas igualmente relevantes para a significação do todo na obra. Como o fato de o guarda-chuva que Thor usa em determinado momento do filme, ser uma referência aberta às estórias do herói escritas por Walter Simonson na década de 1980, entre as edições dos quadrinhos #337 ao #382. Aqui, o Deus do Trovão evocava seus poderes batendo o guarda-chuva no chão, assim como o vemos fazendo em determinado momento deste novo filme.

 

Além das HQs, Waititi, conseguiu elaborar uma dinâmica bem vinda por meio da intertextualidade deste longa com os outros trabalhos do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). Ou seja, há várias passagens que nos remontam a filmes como Os Vingadores (2012), Vingadores: Era de Ultron (2015) e Dr. Estranho (2016). Há, logo, um exercício em tentar aproximar Thor da série cinematográfica da Marvel. Coisa que não ocorreu com os filmes anteriores à Ragnarok. E isso deveu-se, sobretudo, pelo isolamento auto imposto por Branagh e Alan Taylor, que subaproveitaram tramas e personagens em Thor (2011) e Thor: O Mundo Sombrio (2013).

 

Dado isso, Waititi elimina tudo o que é excesso à obra, e concentra à narrativa apenas elementos que a dotem de sentido com base no que a experiência do filme se propõe: ser um longa de super-heróis onde a aventura se contrabalanceie com um tom de leve descompromisso. Saem a figura da mocinha em perigo e que somente se presta a par romântico, ou mesmo os cientistas que nada entendem de ciência e sequer funcionam como alívio cômico por serem altamente mal desenvolvidos, como eram Eric Selvig (Stellan Skarsgard) e Darcy Lewis (Kat Dennings).

Thor: Ragnarok é, portanto, um filme descompromissado, leve, colorido e referencial. Ele funciona por todas esses elementos estarem bem amarrados à obra enquanto sentido e forma. Não devendo, por isso, ser levado tão à sério. Melhor seria o entendermos a partir de um ciclo de filmes da Fase 3 da Marvel em seu Universo Cinematográfico.

 

Com filmes propostas narrativas menos tensas e com variantes tonais cômicas, como Doutor Estranho (2016), Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017) e Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017). Ele fecha um arco temático dessa proposta, que começará a ganhar contornos mais densos em Pantera Negra (2018) e Vingadores: Guerra Infinita – Parte I (2018).

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Thor: Ragnarok

Tempo de Duração: 130 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2017

Gênero: Ação, Aventura, Comédia

Direção: Taika Waititi

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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