Territórios demarcados pela marginalidade

“Quando esses «espaços penalizados» (Pétonnet 1982) são, ou ameaçam tornar-se, componentes permanentes da paisagem urbana, os discursos de descrédito amplificam-se e aglomeram-se à sua volta, tanto «vindos de baixo», nas interações banais da vida cotidiana, como «vindos de cima», nos domínios jornalístico, político e burocrático (ou até, científico). Uma mácula localizada sobrepõe-se então aos estigmas já operantes, tradicionalmente ligados à pobreza e à pertença étnica ou ao estatuto de imigrante pós-colonial, aos quais ela não se reduz embora lhes estejam estreitamente ligados.”

“[…] a infâmia territorial apresenta propriedades parentes das que advêm dos estigmas corporais, morais e tribais, e coloca dilemas de gestão da informação, da identidade e das relações sociais totalmente similares, apesar de ostentar também propriedades distintivas. Dos três grandes tipos de estigmas catalogados por Goffman (1963: 4-5), as «disformidades do corpo», os «defeitos de carácter» e as marcas de «raça, nação e religião», é com o terceiro que o estigma territorial se aparenta, visto que «pode ser transmitido por via da linhagem e [que ele] contamina de igual modo todos os membros da família». Mas, contrariamente a estas últimas, pode ser facilmente dissimulado e atenuado (ou até, anulado) pela mobilidade geográfica.”

“Os efeitos da estigmatização territorial também se fazem sentir ao nível das políticas públicas. A partir do momento em que um lugar é publicamente etiquetado como uma zona de «não-direito» ou uma «cité fora da lei» e fora da norma, é fácil para as autoridades justificar medidas especiais, derrogatórias face ao direito e aos costumes, que podem ter como efeito – quando não por objetivo – desestabilizar e marginalizar mais ainda os seus habitantes, submetê-los aos ditames do mercado de trabalho desregulado, torná-los invisíveis ou escorraçá-los de um espaço cobiçado.”

“Que esses lugares estejam ou não deteriorados, sejam ou não perigosos e a sua população seja ou não essencialmente composta de pobres, minorias e estrangeiros, tem pouca importância, no fim de contas: a crença preconceituosa de que assim são basta para engendrar consequências socialmente nocivas.”

(Trechos do artigo A estigmatização territorial na idade da marginalidade avançada de Loïc Wacquant)

Thinally Ribeiro

Thinally Ribeiro

Graduanda em Serviço Social na UECE.

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