Tear de tecido vivo

Gosto muito de trabalhar com a metáfora do tear. O entrelaçamento paulatino de fios que constrói uma história e que abre espaço para um tecido imaginativo. Nessa perspectiva o que chama a atenção nesse construto não são somente as narrativas que surgem nítidas, sem fissuras ou desgastes.  Muitas vezes os fios de um tecido podem estar sobrepostos, emaranhados, rompidos ou esgarçados. Mas rompimentos e desgastes são também passagens e sobreposições são camadas que cobrem outras histórias. Nesse sentido, os rasgos permitem “ver através” e as camadas ocultas clamam de nós um exercício hermenêutico. Assim como os emaranhados são indicativos de linguagem, mesmo que confusa, mesmo que incompreensível num primeiro momento.

fotografia de Angela Bacon Kidwell

Imagem: fotografia de Angela Bacon Kidwell

Portanto, o olhar atento aos rasgos da história é o mesmo que combate a cisão da narrativa única. Narrativa que defende uma ilusão de completude e assim sepulta a experiência criadora. É condição para criar o reconhecimento da falta, já que os fios de nosso tear interno precisam passar por espaços abertos para construir qualquer caminho. Esse é um dos motivos pelo qual há o alerta vermelho para o alvoroço consumista ou para a idolatria das imagens. Entupir nossos espaços de falta com coisas  ou preencher nossa autobiografia com imagens efêmeras é ato de sabotagem à criatividade, pois é ato de fuga ao reconhecimento (vivido na carne, não somente intelectualizado) da falta que nos constitui.

Isso vale para o tear da vida de alguém, assim como vale para histórias de coletividade, de tecidos que construímos juntos. Numa conferência proferida no Simpósio Internacional de Filosofia, que aconteceu em Fortaleza em 2004, a partir do pensamento de Nietzsche e Deleuze, Charles Feitosa fala da sabedoria dos surfistas e  embasa o argumento da arte como resistência às narrativas únicas, à arte que surge no melhor sentido defendido por Rainer Maria Rilke: como necessidade. E por constituir outros modos de ver e sentir o mundo puxa o argumento de Deleuze: “Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe” (2007, p. 31).

É nessa onda proposta por Deleuze que quero surfar para dialogar com nossos espaços de falta como povo. Sabemos que o tecido afetivo da História, a que foi escrita com h maiúsculo, reforçou a versão ao longo de gerações da identidade brasileira construída pela ideologia do colonizador. Se nossa dinâmica social se deu no entrechoque de culturas, as representações respaldaram um olhar extremamente castrador da diferença. A pintura “A primeira missa no Brasil”, de Victor Meireles, é ilustrativa dessa questão. A cruz erguida surge como símbolo da salvação desse povo nativo, bárbaro e regredido que encontra na educação jesuítica a iluminação impedida de aflorar pelo estado de selvageria ao qual estavam condenados antes do processo colonial.

Imagem: pintura de Victor Meireles, “A primeira missa no Brasil”, 1861.

Imagem: pintura de Victor Meireles, “A primeira missa no Brasil”, 1861.

Portanto, ideologia colonial propagada por palavras, imagens e práticas, constituindo um real tramado pelo jogo das representações que orientam como deve ser percebido o mundo. Uma história sem um “ver através de”, sem descascar as camadas das imagens e dos discursos, tem sustentação em base falaciosa e cindida, pois nega a falta. Considerar como marco inicial do Brasil a chegada de Pedro Álvares Cabral às nossas terras, que nem brasileiras eram, consiste em negar a existência de outras tramas neste tecido vivo, composto por crenças, percepções e afetividades diversas e que aconteciam por aqui muito antes da invasão europeia. Como diz Adriano Pedrosa, na introdução aos textos que integram a coletânea de Histórias Mestiças: “o desafio hoje é conhecer e aprender com as culturas ameríndias, o que talvez implique desaprender ou desfazer preconceitos e epistemologias eurocêntricas” (2014, p. 23).

Uma percepção forte que o trabalho com a história traz é a mudança da relação com o tempo. De fato, no percurso de um caminho atual há sempre a possibilidade de  entrecruzamento com outros tempos. Giorgio Agamben afirma isso quando argumenta acerca do que é ser contemporâneo: “é ser aquele que, dividindo e interpelando o tempo, é capaz de transformá-lo e de relacioná-lo com outros tempos, de nele ler de modo inédito a história” (2014, p.32). Essa noção de várias temporalidades é muito cara à artista Adriana Varejão. Ela diz: “A história não é somente aquela coisa que ficou no passado. A história está acontecendo ontem, mas no meu processo a história está em vivências que acontecem hoje em dia, quando eu abro o jornal e leio algo e eu vejo que eu posso pegar isso e tecer lá com o século XVI ou XVIII. Então as coisas vão e vem (…)”

No movimento dos vários tempos que se misturam nas obras de Adriana Varejão quero destacar os processos de apropriação de histórias. Essa noção de apropriação é interessantíssima, pois por intermédio do processo criativo tecido pela artista é possível compreender como acontece a “viagem” pelas temporalidades. Por isso o título do livro escrito com Lilia Schwarcz tem como subtítulo “a História e as histórias na obra de Adriana Varejão”, porque são muitas narrativas costuradas para se chegar ao final de cada trabalho.  Mostrarei algumas imagens utilizadas nesse processo de costura. Começo pelo trabalho de Varejão chamado “figura de convite”, que integra a série “proposta para uma catequese”:

Figura de convite

Imagem: obra de Adriana Varejão, “Figura de convite”, 1997, óleo sobre tela, 200x200cm.

Por sua vez a imagem abaixo é também chamada “figura de convite” e é uma espécie de figura de cortesia muito utilizada em prédios dos séculos XVII e XVIII. Equivale a uma recepção de boas-vindas:

segunda-opiniao

Agora seguem duas imagens retiradas do livro ilustrado pelo gravurista Theodore de Bry, do século XVI. De Bry chocava o imaginário europeu da época acerca do novo mundo, pois desenhou fartamente cenas de canibalismo em seu livro “América”.

Imagem: Theodore de Bry, “América”, século XVI.

Imagem: Theodore de Bry, “América”, século XVI.

Imagem: “American amazon”, Theodore de Bry, século XVI.

Imagem: “American amazon”, Theodore de Bry, século XVI.

Theodore de Bry caprichava nas cenas de esquartejamento e retirada das tripas de dentro dos corpos. Longe de reconhecer a antropofagia como um ritual carregado de simbolismo, para o imaginário da época mais valia construir uma noção específica dos hábitos dos nativos como assustadores canibais, que precisavam ser contidos em sua fúria.

Vale retornar ao trabalho de Varejão e juntar as referências. Diz a artista: “eu recriei das gravuras do Theodor de Bry. (…) Você absorve os signos europeus, reinterpreta e devolve de outra maneira. Eu faço uma paródia e paródia é uma palavra muito importante no meu trabalho, porque equivale a você reavaliar criticamente uma situação”. Ela faz antropofagia com a história, já que devora uma série de referências e as devolve com outra corporalidade, com outros protagonistas e possibilidades de elaboração.

Atualmente a cidade de Fortaleza acolhe uma exposição de Adriana Varejão intitulada “A pele do tempo” (permanecerá até o final de novembro no Espaço Cultural Airton Queiroz, na Unifor). Com curadoria de Luísa Duarte, a mostra traz o impacto da representação visceral da artista em 32 trabalhos expostos. São muitas as viagens que abrem para o espectador o campo de experiências que é próprio da arte: ver o mundo em outros termos, contar de outra forma, inventar. São muitas as histórias que nos compõem. Somos um povo que se fez no tear de histórias mestiças, mas somos ignorantes sobre a história indígena, sobre a história africana, engolimos uma narrativa europeia estereotipada, não sabemos sobre tantas simbologias, afetos e mitologias que também são nossos. São espaços de falta que precisam ser reconhecidos para ganhar preenchimento. Tear de tecido vivo que chama para “ver através de” e, nesse olhar para o diferente, reconhecer aspectos da própria humanidade esquecida.

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

Histórias Mestiças: antologia de textos. Organização: Lilia Schwarcz, Adriano Pedrosa. Rio de Janeiro: Cobogó; São Paulo, 2014.

LINS, Daniel (org). Nietzsche/Deleuze: arte, resistência. Simpósio Internacional de Filosofia, 2004. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

SCHWARCZ, Lilia Moritz & VAREJÃO Adriana. Pérola imperfeita: A história e as histórias na obra de Adriana Varejão. Rio de Janeiro: Cobogó, 2014.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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1 comentário

  1. Grace Troccoli

    O tear como metáfora do viver , no texto de Ana Valeska, apresenta contornos da nossa existência contemporânea que o olhar apressado do cotidiano não nos permite ver.

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