SOU EU, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Em todos os dias de feira, ou seja, de segunda a sexta, desempenho, com alegria e devotamento, uma das funções mais gratificantes para quem, ao aposentar-se muito jovem – 57 anos por fazer –, após uma profícua jornada de quarenta anos, acreditava poder adentrar numa nova e tranquila etapa da vida, em que “vagabundear” seria o principal verbo a conjugar. Preparei-me para isso. Psicologicamente até.

Ainda ensaiei o retorno à sala de aula, até para pôr em prática a minha formação acadêmica – Letras (língua portuguesa) –, logrando aprovação em concurso público para professor da rede estadual, mas não assumindo o cargo, em face de motivos pessoais imprevisíveis, incontornáveis, irremovíveis. As circunstâncias me frustraram. A consciência do dever cumprido salvou-me.

O curso do rio temporal, às vezes de reconfortantes calmaria e quietude, às vezes de perturbativos desassossego e agitação, concorreu para que me amoldasse à fase do “já que”. De repente, senti-me como um misto de “office-boy” e “agente de serviços gerais”, o “senhor faz-tudo”. Percebi, no cotidiano, como manter – na acepção mais ampla do verbete – uma família dá trabalho; como manter uma casa em pleno funcionamento faz suar. Cheguei a sentir-me onipresente, em não raras vezes. E como isso faz bem. Rejuvenesce. E, acreditem, diletantes leitores, viver consiste numa aventura prazerosa, apesar dos pesares.

Hoje, ainda me viro nos mais de sessenta. Nada mudou. Mas o que mais enaltece o meu perfil de “arrimo da família” é a função que mais me aproxima dos meus netos, eles que são a certeza da minha posteridade, da minha imortalidade. Recorro a Pessoa: “Quando eu despir a veste que me liga a este mundo” [pág. 36], com os quatro deixarei, através das minhas filhas, um pouco da minha herança mais humana – inviolável, irredutível, inigualável: a alma.

Pois bem. Sou “vô-torista”, com prazer. Sou o motorista particular deles, ou, como diz a minha neta mais velha, no alto dos seus quatorze aninhos, “O meu uber preferido”. Cumpro, à risca, com profissionalismo, o que significa assiduidade, pontualidade e proficiência, a minha agenda com eles. Às seis da manhã, invariavelmente, estou de pé; quando faltam quinze ou dez para as sete, inicio a primeira viagem com os dois que moram comigo (e, obviamente com a avó, minha eterna parceira); às sete, recolho na casa dos pais os outros dois; às sete e dez, às vezes um pouco antes disso, deixo-os à porta do colégio. Às doze e trinta, faço o percurso ao contrário; às quinze e trinta, aula de reforço; às dezoito, conduzo os atletas ao ginásio coberto do colégio – às segundas e quartas, futsal para os dois meninos; às terças e quintas, vôlei para as duas meninas. Por volta das vinte, encerra-se a jornada diária. Em todos os dias preparo o quebra-jejum deles, à base de laranja pra uma e de banana pro outro. Às vezes, faço curativos ou proteções com ataduras, aplico medicamentos, penteio cabelos, ajudo a calçar os tênis, prego botões e chego até a engomar a farda deles. Há dias em que surgem algumas viagens extraordinárias, conforme os eventos extracurriculares. E lá vou eu, lépido e fagueiro. E, mais uma vez, Pessoa me adverte: “Não se joga xadrez na realidade cotidiana”. [pág. 59].

Nas noites em que estou no ginásio, isolo-me o mais que posso de toda a algazarra juvenil, e preencho o tempo com rabiscos de textos que pretendo publicar e, no mais das vezes, com leituras. Ontem, por exemplo, comecei a reler OBRAS EM PROSA¹, do imortal gênio lusitano Fernando [Antônio Nogueira] Pessoa, o dos heterônimos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, os principais. Enquanto lia, um casal de adolescentes – ela, vestida com a farda do colégio e mochila às costas; ele, com o traje de jogador de basquete – veio sentar-se aos meus pés, ou seja, no lance da arquibancada de madeira abaixo do que eu me encontrava. Não me pareceu um caso de namoro… arremedou-se uma paquera. Permaneci com Pessoa: “Mesmo nos pântanos do meu espírito há lótus que florescem”. [pág. 51]. Até que ouvi o jovem vangloriar-se:

– Em matemática, só passou eu.

De imediato, senti que o meu espírito empreendia uma vertiginosa viagem para um passado distante, há mais de quatro décadas. Agora sou professor cenecista, de língua portuguesa, no Centro Educacional Joaquim Nogueira, na querida Baturité, ali, à margem do declive que faz a rua 15 de Novembro ao confluir com a praça Waldemar Falcão. Leciono em turmas do primeiro grau – oitava e nona séries – e no ensino profissionalizante em nível de segundo grau – Técnico em Contabilidade – no turno da noite. No momento, estamos no intervalo das aulas, popularmente conhecido como recreio. Eu e o diretor (doutor Ilídio Silveira, notável cirurgião-dentista, com o seu tradicional paletó preto sobre camisa branca) assistimos a disputadíssimas partidas de tênis de mesa ou pingue-pongue. Como só há uma mesa, renhido se torna o acesso à raquete. E a expressão que, entre um jogo e outro, mais se ouve dói no ouvido: “É eu!”. As vozes se imbricam, se sobrepõem, se encavalam: “É eu!”.

Em meio àquela balbúrdia, àquela algazarra, atraem-me a atenção o olhar oblíquo e o sorriso sarcástico do diretor, a que se segue uma indagação cujo estofo de aparente insciência recobre um não-sei-o-quê de sagacidade, de perspicácia:

– E aí, professor, eles estão usando corretamente o português?

– Não! – Respondo, de pronto. – Vou tentar corrigir isso nas próximas aulas.

Encaminhamo-nos até a sala dos professores. O diretor comenta o fato. Uma colega, titular das disciplinas Geografia e História, se não me falha a sexagenária memória, discorda veementemente:

– Gente, os meninos estão certos. Eu costumo dizer, por exemplo, “Foi eu que fiz isso” ou “Foi eu quem disse isso”. Se me perguntarem “Quem é o próximo?”, eu respondo: “É eu!”.

E o diretor estimulou o debate:

– E agora, professor? O senhor concorda com isso?

– Não, obviamente. Desculpe-me, mas a colega comete um grave engano. A concordância do verbo, no caso, dá-se necessariamente com o sujeito simples, presente na frase. Assim, “Fui eu” e “Sou eu”. – Tentei ser o mais didático possível, sem ferir suscetibilidades.

A colega contra-argumentou:

– Mas, professor, não há uma regra que manda usar o verbo na terceira pessoa do singular quando o sujeito está posposto ao verbo?

– Sim, professora. Há, sim, a regra que permite – não manda – a quebra da concordância no caso de sujeito composto – repito com ênfase, “composto”, ou seja, com dois ou mais núcleos – que se posponha ao verbo, usado então na terceira pessoa do singular em vez de na terceira do plural, como manda a regra geral – O verbo concorda com seu sujeito em número e pessoa. Como é possível perceber, não se trata sequer de caso análogo. Logo, “sou eu quem diz isso”.

– As regras do português são mais complicadas que as nossas, as mulheres saudáveis… – Arrematou a mestra, distribuindo um largo sorriso entre as companheiras da sala.

Sirvo-me de um cafezinho em xícara de louça branca. Adoço-o com duas colherinhas de açúcar mascavo. Antes de saboreá-lo, a fumacinha aromática aguçando as minhas glândulas gustativas, aproveito o silêncio reinante no ambiente e faço um comentário de acréscimo:

– Amigos, amigas, acho que essa regra é mais episcopal que gramatical… pelo único exemplo em que os gramáticos assentam sua ocorrência prática²: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão”, expressão bíblica inscrita em Mateus. – E acrescento: – Duvido que Jesus Cristo tenha dito isso dessa forma… em aramaico.

Quando retornei ao ginásio, em corpo e espírito, o casal de jovens já não mais se encontrava ali. Então revisitei Pessoa: “Sou um fragmento de mim conservado num museu abandonado”. [pág. 49].

Notas do autor:

¹ Fernando Pessoa, em OBRAS EM PROSA; Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1986.

² Isso há mais de quarenta anos. Mais proximamente, eis como dois consagrados gramáticos tratam o assunto: a) Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa, à pág. 554 – “Se o sujeito for composto, o verbo irá, normalmente, para o plural, qualquer que seja a sua posição em relação ao verbo”; b) Domingos Paschoal Cegalla, em sua Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, às págs. 450 e 451 – “Sendo o sujeito composto e posposto ao verbo, este poderá concordar no plural ou com o substantivo mais próximo”. Após exemplificar com frases de Viriato Correia, Camilo Castelo Branco, Lígia Fagundes Teles, Rubem Braga e Érico Veríssimo, Cegalla arremata: “Aconselhamos, nesse caso, usar o verbo no plural”.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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