Sons de Buenos Aires: uma experiência no tango

Aqui vai uma pequena confissão: 2015 foi um ano bastante intenso pra mim. Como dizem, meio que uma “montanha-russa de emoções”. Entre coisas boas e ruins, passei por experiências diversas que mexeram muito com minha estabilidade emocional. Perdas e ganhos, desilusões e dúvidas, certezas e incógnitas permearam um ano onde pelo menos tive excelentes trilhas sonoras me acompanhando. Mas este ano emblemático reservou uma grata (e merecida) surpresa para o mês de dezembro: minha primeira viagem para fora do país.

Destino? A casa de nossos hermanos: a belíssima Buenos Aires.

Já no primeiro dia na capital argentina, senti a diferença no ar, na integração das pessoas com a cidade. Me apaixonei de cara pela qualidade de vida, pelo intenso verde dos parques, plazas, plazoletas e de ver pessoas na rua – mesmo de madrugada – caminhando sem a menor neura de insegurança que tanto nos assola aqui em Fortaleza. A paixão portenha pelos perros (cachorros) é outro espetáculo: eles simplesmente amam passear com seus cachorros, de todos os tipos e tamanhos, e você se diverte muito olhando – e até brincando – com alguns cães das mais variadas raças. E quanto mais se passavam os poucos cinco dias de minha estadia por lá (entre o fim do Natal e o dia de Ano Novo) mais aprendia sobre nossos hermanos, mais me encantava e passava a não entender o por quê dessa rivalidade e “ranço” entre brasileiros e argentinos. Conheci as belezas do município de Tigre e seu famoso rio, o aconchego quase europeu das vizinhas San Fernando e San Isidro. A imensidão do Rio da Plata e o charme nostálgico do bairro de Puerto Madero contrastado com os arranha-céus de Palermo. Me joguei num verdadeiro caso de amor com o bairro da Recoleta e suas feirinhas, barzinhos e parques de imenso verde de um jeito tão forte que ainda dói de lembrar, tamanha é a saudade de passar a tarde inteira perambulando e tirando fotos ali. Sem contar no belíssimo centro da cidade com a Casa Rosada e, logo ao lado, a estonteante Catedral Metropolitana. Outra coisa muito interessante e bonita de se ver: o patriotismo argentino. Isso é algo que, com certeza, nossos hermanos têm e nós jamais teremos igual. Em minhas andanças pela cidade, em qualquer parque existe pelo menos uma estátua que conta uma parte da história nacional. Nos prédios (por menores e mais humildes que fossem), avistava quase sempre uma bandeira argentina pendurada nas varandas. É, meus compatriotas, a gente pode até ter o Pelé, mas eles ganham da gente (de goleada) também neste quesito.

Visita à Casa Rosada

Visita à Casa Rosada

A Avenida Santa Fé, com seu comércio, livrarias e cafés aconchegantes ficava próxima ao nosso hotel, e foi nela que descobri também a delícia que é o helado (o sorvete argentino). Havia uma lanchonete próxima onde praticamente toda tarde ia tomar um cucharito (uma pequena casquinha de 35 ou 40 pesos) com dois sabores que eles servem sempre de forma generosa num formato que mais lembra um pinheiro – ah, o inacreditável doce de leite argentino! Sinto falta até da falta de arroz (que meu pai tanto reclamava durante toda a viagem) e me acostumei em ter as papas (batatas) como acompanhamento nas refeições. Também não pude deixar de conhecer o Caminito, ponto turístico indispensável que carrega muito da história local. Sem contar as argentinas… Ah, mulheres de se suspirar pela beleza e sensualidade! Me amarrei logo de cara pela guia do aeroporto, Angie, uma loura com umas pernas mais altas que eu… Bem, mas deixa isso pra lá!

 

Passeio no famoso Caminito

Passeio no famoso Caminito

 

Mas não foi só apenas no tour pela cidade e nem nas aventuras gastronômicas (nem nos olhos quase sempre azuis das hermanas) que me deixei perder e apaixonar. Claro que a música tinha que estar presente, e foi numa imersão ao mais tradicional gênero musical argentino que tive uma das minhas experiências sonoras mais intensas. Sim, porque presenciar um espetáculo de tango é algo que você, leitor, deve fazer pelo menos uma vez na vida.

Estava em grupo com minha família e, logo ao chegar à cidade, fechamos pacotes para duas tradicionais casas do gênero. O primeiro, no tradicional Esquina Carlos Gardel. Localizado no bairro de Abasto – uma região central de Buenos Aires -, o Gardel carrega o nome e responsabilidade de representar aquele que é o ícone máximo do estilo. A casa, na verdade, sediava o antigo restaurante Chanta Cuatro, que abriu as portas em 1893 junto com o Mercado de Abasto. Era ali onde Gardel costumava jantar e cantar tango por longas noites com seus amigos, familiares e as mais diversas personagens que frequentavam o beco e o Mercado. Logo em frente, na calçada, há uma estátua do artista lembrando que foi ali naquela esquina, próximo à Rua Anchorena, que ele dava os primeiros passos para imortalizar-se na dança da eternidade. Ao chegarmos na casa, duas simpáticas recepcionistas a caráter (lembrando bem as señoras de antigamente) nos levam até nossa mesa. Bons vinhos servidos e, pela primeira vez, experimento o famoso bife de chorizo. Não vou nem me dar ao trabalho de descrever o quão saboroso, suculento e macio ele era porque se você, que está lendo agora, aprecia uma boa carne, já deve estar começando a babar no teclado.

 

Noite no Esquina Carlos Gardel: amor ao primeiro tango

Chegando ao Esquina Carlos Gardel: amor ao primeiro tango

 

Uma coisa eu já notava no ar daquela noite, mesmo antes de as cortinas se abrirem: tango é pra ser vivido, respirado, testemunhado, “sensorizado”. Senti que um grande leque histórico e cultural rondava aquele lugar como uma névoa nostálgica e acolhedora. A elegância da casa é apaixonante. Assim, ao começar o show, tratei logo de respeitar as regras da casa e não fiz nenhuma foto ou filmagem. Não pertenço a esta geração gananciosa que tudo quer filmar, postar, possuir, dizer que “paguei e tenho direito, porque sim”. Prefiro muito mais um olhar fascinado na memória do que esse materialismo frenético de ter que gravar tudo através de uma estéril tela de celular – diferente de outras pessoas bem próximas a mim.

 

Enfim, o show começa. Uma pequena orquestra fazia o som ao vivo num palanque acima do palco, desenhando com notas as melodias mais que familiares e o compasso do estilo. Os pares de dançarinos começam a entrar, e aqui vem meu encantamento: descubro, enfim, o tango. O legítimo e imortal. A tradição perpetuada na modernidade se faz linda como se acabasse de ali nascer. Aos poucos vou me deixando emocionar a cada dança, a cada casal que executa passos milimetricamente românticos. Não entendo praticamente nada de dança, mas fui sensibilizado por algo ali: o “idioma” das pernas das dançarinas (por falar nisso: que pernas…! que dançarinas…! ué, quem é Angie mesmo?). Os olhares trocados, o sentimento quase palpável presente na sensualidade dos quadris giratórios de homens e mulheres entrelaçados. Bocas tão próximas que chegavam o mais perto possível de um tórrido beijo eram frequentes, e aumentavam mais ainda o transpirar de paixão nas coreografias. Tudo isso seguia em perfeita sintonia com as melodias e mãos dando o suporte teatral da dança. Conforme a noite avançava, pude começar a entender um mínimo daquele ritual, pois cada casal apresentava um “tipo” de tango. Pude identificar um mais sensual, outro mais dramático, o seguinte mais alegre ou cômico, com sorrisos aparecendo pela primeira vez.

Mesmo assim, mãos e pernas falavam um idioma que eu jamais conseguiria decifrar. Há uma poética em cada passo pela qual eu apenas me deixava entorpecer. Como se estivesse lendo versos de uma métrica complexa e igualmente bela, saltando como parágrafos cheios de rimas e doçura na troca de vestuário, as atitudes e expressões me contavam histórias secretas de amor, paixão e sensualidade, desenhando tudo direto ao coração – e às lágrimas. Restava apenas contemplar como o verdadeiro turista que era numa terra estrangeira e apreciar também as devidas homenagens num telão a outros mestres como o inesquecível Astor Piazzolla. A encenação também era muito bem cuidada. Em um determinado momento, um cenário se abre como dos clubes antigos onde cavalheiros cortejam damas. Dançam, flertam com charme e romantismo e até uma safadeza bem implícita. Ao final, sobra apenas um casal que o faxineiro quer literalmente expulsar na vassoura. Tudo para ele mesmo, após a saída de todos os dançarinos, dar um show dançando com duas vassouras e uma saia improvisada. Seguem-se aplausos delirantes e risadas incontroláveis do público!

Interessante é que alguns passos lembram muito a nossa gafieira e dança de salão. Isso porque nossos hermanos certamente também herdam a nossa malandragem, o nosso rebolado e jeito meio sacana de ser. Ainda assim, você pode sentir a entrega, a eletricidade dos casais. Há algo até mesmo de divino, por exemplo, no momento em que uma dançarina surge vestida com pequenas asas de anjo para seu número. Mas o espetáculo atinge o que eu considerei seu ápice de charme quando um casal mais sênior entra e dança com toda a graça e maturidade de um homem e uma mulher experientes. As sutilezas e a segurança afloram com a autoridade de quem provavelmente fez aquilo durante toda a vida. Uma mulher completa, de uma beleza madura e fulgurante é conduzida por um verdadeiro cavalheiro de cabelos brancos nos passos e viradas de um belo tango de raiz.

A noite chegara ao fim. Fascinado, deixei o Esquina Carlos Gardel – e também meu coração lá. De tão empolgado na saída, esqueci até mesmo de tirar foto na famosa estátua. Que pena, fica como desculpa pra voltar na próxima!

 

Terminando meu êxtase total na primeira experiência do Esquina Carlos Gardel, na noite seguinte fomos ao famoso Señor Tango. Já estava bem convencido de que provavelmente nada mais conseguiria superar o que vi no primeiro espetáculo. E acho que estava certo. De cara, você já nota na entrada que se trata realmente de uma atração pra turista. Vários ônibus com excursões – não preciso nem dizer que a maioria era de brasileiros – lotavam a entrada da casa em plena noite de quarta-feira. Com um serviço bastante atencioso das recepcionistas, somos levados até nossa mesa na parte superior da casa. Logo de entrada, vemos fotos do host Fernando Soler junto a grandes personalidades, com destaque para nossa eterna Hebe Camargo. Ele é como uma celebridade no país, capitaneando a casa durante anos e divulgando o tango ao redor do mundo. Ganhou festivais internacionais, gravou discos e fez diversas apresentações em inúmeros países. Sua fama e prestígio são tantos que o próprio prédio do Señor Tango foi considerado “sítio de interesse cultural” para o governo argentino.

É indiscutível que Fernando Soler é um verdadeiro showman. Começa o show com muita pirotecnia, telão de LED mostrando imagens estonteantes e até mesmo homens montados a cavalo entram na abertura do espetáculo encenando algo como o mito da criação argentina. Há inclusive belas homenagens ao Brasil (um vídeo de Roberto Carlos leva a plateia ao delírio), mas infelizmente o que menos vi naquela noite foi tango. São muitas outras atrações e um aparato de superprodução pra encher os olhos dos turistas. O espetáculo gira muito mais em torno do dono da casa falando e cantando por um longo tempo (enfadonho, por sinal) do que dançarinos mostrando o tango de verdade. Mesmo assim (apesar do jantar ter atrasado e com uma carne super grosseira de opção e também das falhas na iluminação do local) o espetáculo tem seu valor: momentos de destaque como a orquestra conduzida pelo maestro de mais de 90 anos e a patriótica homenagem a Evita Perón e à nação argentina ao final do show fazem o ingresso valer a pena.

 

Noite no Señor Tango: muito espetáculo pra pouca dança!

E pra terminar esse saudoso relato, tive certeza mais uma vez: na maior parte do tempo, são as coisas mais simples e “de raiz” que nos encantam mais. A experiência no Esquina Carlos Gardel valeu por qualquer show de pirotecnia e tecnologia que eu pudesse ver em seguida. Jamais esquecerei (e quero voltar pra ver de novo!) da aula de tango que recebi ali (mesmo sem ter aprendido nenhum passo) através das emoções que aquele espetáculo me mostrou, e mesmo sem entender qualquer coisa sobre dança. Como disse, tango é isso: é pra ser vivido e respirado através de cada poro, nota e emoção.

Assim, não tenho muito o que reclamar, afinal, pois meu final de ano foi surpreendente graças a um novo amor na vida: mi Buenos Aires querido – e já estou juntando os trocados pra voltar!

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento, apaixonado incurável por música, literatura, grandes cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: sergiodmcosta@gmail.com

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