Siga o dinheiro e faça a pergunta: a quem interessa? por Capablanca

Os números da economia brasileira não podiam sequer ser chamados de ruins ao final do ano de 2014 (o emprego era quase pleno, o défict fiscal primário era menos de 30 bilhões, não havia recessão, as contas externas estavam em ordem, a dívida interna seguia sua rotina, a inflação estava em alta, mas dentro da meta). Entretanto, a imprensa e a oposição, com apoio nos jornalistas e economistas de mercado, gritavam e anunciavam o fim do mundo, a queda no abismo. Não há nada de errado em a imprensa e a oposição cobrarem duro dos governos, é até saudável, em princípio, pois pode ajudar a governar. Mas o exagero chamava atenção, porque continuou e aumentou a gritaria e o pavor artificial depois da eleição. Agora se sabe: era a construção do caos, necessário, indispensável mesmo, para a manobra de tomada do poder, o golpe. Era preciso o caos econômico para dar base à jogada política de tomada do poder.

“É a economia, idiota!”, disse o marketeiro que ganhou uma eleição nos Estados Unidos. Bush pai debatia e priorizava questões externas e estratégicas, enquanto Clinton batia nas questões da economia, nas questões de dinheiro. Clinton venceu.

No caso brasileiro, era preciso dar ao povão a ideia de que era preciso trocar de governo – mesmo que imediatamente depois de uma eleição normal, livre, democrática. Era trocar o governo ou cair no buraco. Funcionou. Claro, a economia é uma ciência social, a reação das pessoas e dos grandes grupos a define. Se por dois anos seguidos ou mais você ouve todo dia que está um caos, que está piorando e que o problema é causado pela pessoa que está na presidência, não tem como a coisa não piorar. O empresário para de investir, o banqueiro para de emprestar, o comerciante para de estocar, o consumidor diminui suas compras…e o ciclo vicioso se alimenta de si mesmo.

Para quem faz política mesmo, com o coração e com a alma, tomar o poder é objetivo permanente. Mas, e os empresários? Por que aderiram ao discurso catastrofista? Por que aceitaram destruir seus próprios mercados? Por que concordaram em agir para colocar freios na demanda? Por que aceitaram solapar qualquer nível de confiança?

Como não sou empresário, não tenho a resposta. Mas, em todo caso, é razoável pensar que há empresários de todo tipo, de todo tamanho, de setores diversos e de níveis de inteligência diferentes. E também diferenciados na capacidade de entender o jogo político, onde muitos deles (empresários) são apenas massa de manobra (como são, eventualmente, também, os trabalhadores).

Soma, subtrai, multiplica e divide, temos hoje o resultado: a demanda é tão baixa que estamos quase chegando à deflação, o desemprego é tão alto que ninguém, ninguém mesmo, prevê recuperação aos níveis de 2014, o crescimento econômico só acontece na agricultura, o déficit fiscal primário multiplicou-se por cinco.

Por que? Ou melhor para chegar aonde? Para fazer o quê?

Aí voltamos aos americanos. Eles têm uma frase famosa desde o filme Todos os Homens do Presidente, dos anos 1970, que contava o escândalo de Watergate, que derrubou o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon: “Siga o dinheiro” – “follow the money”.

Se a gente seguir no Brasil o dinheiro grosso e graúdo, vamos encontrar a destruição das grandes empresas de engenharia e construção civil, a desmontagem quase completa da indústria naval, a venda a preço vil das enormes reservas de petróleo, a mudança acionária da Vale, a encaminhada perda de controle da Embraer, a anunciada privatização da Eletrobrás, a desmobilização e venda de ativos estratégicos da Petrobrás, o enfraquecimento acelerado dos serviços públicos de saúde e educação, o esvaziamento da universidade pública. Até na esfera privada, há destruição, vejam-se os casos das empresas de alimentos, como JBS e BRFS, para ficar em dois.

À falta de uma melhor explicação, estes são fatos que explicam e justificam tanta mobilização e tanto empenho, sem falar na imposição de tão pesados sacrifícios aos trabalhadores e à grande maioria dos empresários (parece que a coisa só está boa para muito poucos, em uns poucos setores e só para os grandões).

Se você ‘segue o dinheiro’, acaba descobrindo a quem interessa o que está acontecendo. É aí que a coisa fica ainda mais velha, e a frase é em Latim: ‘Cui Bono?’ (a quem interessa?).

Aos trabalhadores e empresários brasileiros é que não é.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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