As sete elites brasileiras

Muitos comentaristas usam o conceito “ELITES” como um grupo uno, tratando os personagens desse grupo como se fossem uma coisa só, um imenso erro de avaliação. Em tempo histórico nunca existiu uma só ELITE mas sim várias e muitas vezes com papéis conflitivos.

Quais sãos os grupos de elite na ante-sala das eleições de 2018?

ELITE TRADICIONAL – A elite de raiz, o Brasil foi uma Monarquia e teve uma aristocracia sólida por todo o Império e Primeira Republica. Descendentes dessa aristocracia tem ainda hoje um denso e subliminar papel social e intelectual na construção de padrões conservadores, e um papel econômico e politico pouco visível porque é uma elite extremamente discreta e pouco percebida. Parte significativa perdeu a fortuna mas manteve o elitismo da educação e de modos sociais. Uma outra parte manteve o poder econômico, como as famílias Setubal e Villela que controlam o Banco Itaú, do grande núcleo dos Aranha de Campinas. Famílias tradicionais de Pernambuco também mantém poder politico e econômico, assim como em Minas Gerais,  onde famílias descendentes do Barão de Cocais conservam grande poder econômico (Mares Guia), os Andrada ainda mantém poder politico assim como outros nomes tradicionais  por todo Estado, antigas engrenagens de presença econômica e politica.

A elite tradicional está especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Goiás, onde os Caiado tem presença politica desde o Império.

A elite tradicional se distingue pela linguagem e postura, muito diferente dos novos ricos.

Eleitoralmente podem ser de esquerda ou direita, nomes dessa elite foram ícones da esquerda como Caio Prado Junior, Plinio de Arruda Sampaio. Esquerdistas de origem aristocrática são comuns em todas as grandes democracias desde o Século XIX, especialmente na Inglaterra.

Franklin Roosevelt era de uma das mais tradicionais e ricas famílias americanas e foi durante seus quatro mandatos taxado de “comunista” pelos Republicanos e no mínimo de “esquerdista”, sua prima e esposa, Eleanor Roosevelt, mais esquerdista do que o marido, era classificada como “perigosa socialista” pelos conservadores da Costa Leste.

A elite tradicional eleitoralmente optaria por um candidato de direita esclarecida, como Ronaldo Caiado e sem essa opção possivelmente a escolha óbvia seria a de Geraldo Alckmin, candidato que tem o perfil do politico conservador previsível e estável que agrada à elite tradicional.

ELITE CAIPIRA – Pelo interior do Brasil uma grande classe de empreendedores agrícolas e industriais enriqueceu e tem grande força econômica e eleitoral, é uma elite culturalmente tosca e politicamente pouco sofisticada mas com grandes recursos financeiros. Se embrica numa elite de novos ricos citadinos ou suburbanos, no conjunto tem o maior poder financeiro dentro de uma economia em recessão e com escassas perspectivas de crescimento.

Fazem parte da economia produtiva e são contra a politica econômica deflacionista de hoje.

Eleitoralmente de centro ou centro direita, gostariam de um candidato a favor do desenvolvimento rápido e gastador em infraestrutura, não gostam do conservadorismo fiscal excessivo  atual, não são moralistas em politica mas gostam de governo dinâmico.

Politicamente votam por vínculos de amizade ou interesse em políticos fisiológicos locais. Numa eleição presidencial a tendência é para um candidato conservador.

ELITE DOS GRANDES ESCRITÓRIOS – Advogados e executivos moderninhos, com curso no exterior, com carreiras ascendentes, antenados e conectados com o exterior, integram os grandes escritórios de advocacia, consultorias de gestão empresarial, de recursos humanos, de marketing, departamentos jurídicos e de compliance de grandes empresas, agencias de publicidade e de relações publicas, de relacionamentos “business”, parte da mídia  de negócios, associações empresariais, executivos de multinacionais anglo-americanas e europeias, professores de escolas caras e modernas de administração de empresas, a grande comunidade de profissionais de saúde que tem como clientela a classe mais abonada, o pessoal do mundo da moda e dos eventos, o espaço fashion.

São grupos bastante coesos, frequentam os mesmos eventos e bares, tem boa bagagem cultural, antenados no sentido de buscar o mais moderno em tudo, previsíveis e óbvios, se vestem de forma inconfundível e usam muitas palavras em inglês, língua franca desse grupo. Um mestrado no exterior é quase obrigatório para estar no grupo, essa etapa já distingue economicamente porque significa uma família de origem abastada.

É um grupo com muito relacionamento social e por essa razão difusor de ideias e percepções politicas e sociais, também tem fortes ligações com a mídia, com o judiciário e a classe média em geral, através de suas famílias, escolas, clubes e redes sociais. É um grupo formador de opinião e difusor de ideias e portanto de grande peso politico e mediático.

Elite de aculturação globalizada, não tem e nem querem ter noção de pátria e sonham em morar no exterior, veem o Brasil com visão negativa, apoiam campanhas moralistas.

Eleitoralmente de centro direita e anseiam pelo “novo” em politica.

Eleitores típicos de candidatos do perfil João Doria, símbolo do “novo” em politica.

ELITE ROMERO BRITO ou ELITE MIAMI  – Empresários novos e ricos, de origem geralmente classe média baixa, ricos de uma geração, normalmente tem amizade com algum politico sem distinção de partido, veem politica como parte do negócio e a analisam de forma como afetam suas empresas apenas. Não tem interesse naquilo que não lhes afeta diretamente, culturalmente grosseiros, usam símbolos de riqueza como casas modernosas, lanchas, aviões, grandes carros importados, relógios e canetas de grife, não tem um livro ou quadro em casa e se tiver será de Romero Brito, o ícone dessa elite inculta e rica, sem alinhamento ideológico.

Fazem parte especialmente do setor de serviços e desconfiam da atual politica econômica que prejudica a econômica produtiva em benefício do mercado financeiro.

Eleitoralmente amorfo e não ideológico, podem votar em qualquer candidato, mas tem simpatia por Jair Bolsonaro pelo fator segurança, uma preocupação desse grupo, consideram o crime como algo a combater simplesmente e somente, sem conexão com outros fatores.

ELITE  BOLETIM FOCUS  – Uma classe à parte, são personagens do mercado financeiro. Origem social misturada, parte vem da elite tradicional, parte da classe média, parte de famílias de imigrantes árabes, judeus ou italianos enriquecidos por empresas que não existem mais. Totalmente globalizados, para eles o Brasil é apenas uma plataforma de investimentos, não tem qualquer raiz, respeito ou admiração pelo País, sonham em morar em Nova York ou Londres bem abastecidos de dólares ganhos no Brasil na especulação financeira.

Candidato óbvio, Henrique Meirelles, uma espécie de líder ideológico desse grupo, um enclave estrangeiro no Brasil, vem o Brasil apenas como um Tesouro emissor de títulos.

ELITE INTELECTUAL– Um grupo de tamanho considerável ligado ao mundo acadêmico, às universidades, às artes, à literatura, parte da mídia, à ciência e pesquisa pura. Tem geralmente viés de esquerda, visão pessimista do Pais e de suas fissuras sociais. Esse grupo ficou órfão com a queda do Governo do PT e está em busca de novos nomes e projetos. Esse grupo é contra o total da politica econômica atual e do modelo de governo em sua integralidade, anseia por grandes reformas politicas e sociais.

O candidato natural poderia ser Lula, alguém apoiado por Lula, Ciro Gomes ou qualquer outro desse campo ideológico que possa aparecer, alguns poderão optar por Marina Silva.

ELITE DAS CORPORAÇÕES – Um força politica nova e extraordinária devido ao empoderamento nascido da “cruzada moralista” e de sua aliança politica com a grande mídia. Para esse grupo que inclui a Policia Federal, a Receita Federal, o MPF, o Poder Judiciário Federal, o Tribunal de Contas da União, a Advocacia Geral da União e a Defensoria Publica, seu poder e salários extraordinários, superiores aos equivalentes americanos e europeus, faz desse grupo uma categoria especial que sendo parte do Estado, tem do Estado uma visão exclusivista, se consideram representantes puros do Estado cujos objetivos julgam interpretar por deterem a supremacia moral, superior à soberania dos eleitos, que julgam contaminada pela corrupção.

Essa “Nova Inquisição” como movimento gerou uma força inédita na organização do Estado. Da mesma forma que os Inquisidores lusos tinham poder politico, que em vários momentos era superior ao do Monarca, com base na superioridade moral, o poder das Corporações pode desafiar o Rei e ameaça-lo diretamente, em um processo histórico de raízes profundas onde aparece a figura do Visitador do Santo Oficio, aquele que vem para corrigir as impurezas e justiçar os impuros, os contestadores de dogmas, os bruxos, os pensadores livres, os Ímpios, punir os pecados para o bem de todos. A figura da punição e da expiação com grande exibição pública está na essência da Inquisição com seus autos-de-fé e nada tem a ver com a justiça anglo saxônica, que faz parte de um contrato social e não da expiação do pecado moral pela  destruição do condenado. Há uma categoria de queima do pecado que não existe nem remotamente no sistema anglo-americano de justiça, modelo funcional ajustado para fazer a sociedade operar dentro de regras mecânicas e previsíveis e nada mais que isso.

No processo inquisitorial o Soberano pode ser o último alvo. Nada melhor para esse poder transcender ao próprio Estado do que um Presidente fraco. Por exclusão um Chefe de Estado de perfil autoritário, dominador e que não aceita poder contrastante que vem de fora seria uma ameaça, o que elimina de suas preferencias, um perfil tipo Ciro ou Bolsonaro, pois está claro para Presidentes fortes que será impossível governar o Brasil com um poder concorrente a ameaça-lo a todo tempo. As “causas” são irrelevantes, relevante é o Poder, as cruzadas podem ser anti-corrupção, anti-nepotismo, anti- incompetência, anti-populismo, a Inquisição variava suas categorias de perseguição, poderia ser a prática do judaísmo, da heresia, da bruxaria, da blasfêmia, da luxúria. É da essência da Inquisição a delação do pecador, o delator nasce com a Inquisição, é sua alavanca processual.

Corrupção sempre haverá sob uma forma ou outra, há corrupção legalizada, como nos EUA onde grande doares de campanha ganham como contrapartida uma Embaixada, haverá corrupção maior e mais cristalina do que essa? Embaixadores americanos em Brasília, como John Danilovitch e Clifford Sobel não eram diplomatas, mas grandes doadores.

A chapa ideal para o Partido das Corporações seria a de Marina Silva com Joaquim Barbosa ou vice-versa. Ou outra chapa do mesmo perfil, não importa a ideologia e sim as personalidades e o que essas representam como apóstolos do movimento dos “politicamente corretos”.

Chega-se inclusive à ironia do absurdo ou Paradoxo de Arrabal, onde para a existência do empoderamento  é preciso que continue a existir a corrupção, se esta for eliminada deixa de existir a razão da cruzada, como os médicos oncologistas dependem da existência do câncer.

A DIVERSIDADE DAS ELITES

Erram os cientistas políticos, ativistas e pensadores que continuam a tratar as ELITES como um elemento único, com expressões tipo CANDIDATO DAS ELITES. Em todos os tempos da História as elites nunca foram uniformes, a regra é o antagonismo de interesses e de crenças.

A clivagem central da Revolução Francesa foram entre três elites, a da nobreza, a do alto clero e a da burguesia, o povo entrou como figurante apenas. Elites representam visões de mundo e conjunção de interesses e tantas haverá quantos forem diversos os paradigmas sociais.

A ELITES são os atores centrais da História e dos processos políticos, desde o registro na História escrita de 100 séculos, na Roma antiga, no Império Romano do Oriente, na Idade Média, na formação do Estado Nacional da Era Moderna, na reconstrução dos escombros da Revolução Francesa pelo Congresso de Viena de 1814, na Paz dos 100 anos que chegou à Primeira Grande Guerra., os conflitos da História foram o conflito das elites.

 

No Brasil elites em conflito estavam presentes na Proclamação da Republica, na Revolução de 30, no Estado Novo, na Republica de 1946, no Regime Militar de 64, na Republica de 1985 e chegamos em nossos dias com as elites divididas como nunca antes, falta-lhes um eixo condutor, o esgarçamento das elites representa a ameaça de fragmentação do Pais.

(Artigo de André Araújo – Advogado formado pelo Mackenzie, dirigente sindical patronal por 16 anos como diretor tesoureiro do Sindicato Nac. da Indústria Eletroeletrônica-SINAEES e da ABINEE-Assoc. Bras. da Ind. Eletroeletrônica, presidente da EMPLASA – estatal do Estado de São Paulo, diretor financeiro da PRODAM – estatal da Prefeitura de S.Paulo, membro do Conselho de Administração da CEMIG-Cia. Energética de Minas Gerais.

Texto originalmente publicado em Jornal GGN).

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