Sem partido? por Gilvan Mendes

O projeto de lei Escola sem partido voltou com tudo. Deixado de lado nos últimos meses por conta da reação crítica de educadores e militantes políticos, o projeto voltou com força total e foi destaque na Assembleia Legislativa do Ceará semana passada,com o apoio da deputada Estadual Doutora Silvana(PMDB). Visando combater uma suposta doutrinação política de esquerda em sala de aula, o projeto reivindica uma escola ”neutra” onde os professores se concentrem em passar o seu conteúdo, sem se posicionar politicamente na frente dos alunos. Os defensores da medida dizem que posições religiosas também devem ser evitadas, além de defenderem que os jovens estudantes não possuem senso crítico para discordar do professor, concordando com tudo que é dito em sala de aula.

É claro que o espaço da escola não deve ser palco para o professor disseminar suas convicções sem se preocupar com a aprendizagem do aluno, mas sim estreitar o contato do jovem estudante com o ensino formal e fazer com que este reflita sobre questões que o leve a adotar um posicionamento sobre as questões sociais. Pluralidade de ideias é importante, mas não vai ser alcançada com uma lei que regule o que o educador pode falar. O que o projeto Escola sem partido quer é um afastamento da realidade em favor de uma suposta neutralidade. Se um docente sofreu violência no regime militar ou teve parentes judeus que morreram no Holocausto, não pode simplesmente esquecer sua trajetória de vida e realizar uma exposição ”neutra” sobre a ditadura militar e aAlemanha nazista, sem antes perder sua humanidade. O filósofo Karl Popper afirma em uma de suas obras que o cientista ”objetivo” ou ”isento de valores” é dificilmente o cientista ideal, a ciência é feita também por valores não científicos. A mesma lógica se aplica ao professor.  

A polarização ideológica que o Brasil vive nesse momento é o que alimenta o Escola sem partido. Combater e deslegitimar a chamada esquerda é o grande objetivo de muitos grupos organizados que endossam o projeto. Para isso é preciso que a maioria da população brasileira acredite na narrativa de que os alunos são domesticados como ovelhas por professores maquiavélicos. Nos dias de hoje todos são criticados com  veemência nas redes sociais e em outros espaços da internet, se um profissional da educação apresentar um discurso vinculado à esquerda para um estudante, ele rapidamente rebate com um ”meme” ou uma resposta qualquer de um formador de opinião da web. A era da ovelha já passou. A internet e as novas tecnologias proporcionaram isso. Infelizmente, em alguns casos, isso significa apoio ao deputado Jair Bolsonaro e suas ideias autoritárias

Se analisarmos com cuidado, a proposta pedagógica que o Escola sem partido defende não é neutra. Tenta impor uma educação sem teor critico, eliminando a essência do ensino de disciplinas como sociologia e filosofia. Não é por nada que o projeto é apoiado por, sem generalizações, certos grupos evangélicos com intenção claramente política. Sem partido, ou só o meu partido?

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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