A seda de Madame Bovary, por Heliana Querino

O vendedor de seda se apropria dos apelos ao narcisismo como forma de incentivo ao consumo de Emma Bovary. Enfadada com a rotina sem fogos de artifícios, ela seria como outras futuras mulheres, fascinadas e feito estátuas, em frente a sedutoras vitrines, luxuosos objetos ou irresistíveis comerciais direcionados ao público feminino. Os produtos que chegam até Emma, por meio do “vendedor cordeiro” – traiçoeiro como o capitalismo, vêm de um jeito avassalador, com um ideal de encanto inatingível. É uma ilusão para a frustração de Emma – o fetiche da mercadoria, a sedução dos amantes medíocres.

Sempre atento aos desejos de Emma Bovary, dia após dia, o mágico das mercadorias tinha a fórmula secreta para as fantasias de sua cliente. Emma buscava informações sobre moda, tendências e variados perfis. A publicidade, a moda e a indústria de beleza, já focavam em padrões que elas estabelecem e incentivam o uso de seus produtos e a cada lançamento, uma necessidade e uma promessa de felicidade para uma mulher insatisfeita com o matrimonio, com a família e com o próprio cotidiano.

“Assinou a La Corbeille, revista feminina, e Le Sylphe des
Salons. Devorava, sem perder nada, todas as notícias das
primeiras representações, das corridas e das recepções,
interessando-se pela estreia de uma cantora, pela abertura de
uma loja. Conhecia as modas novas, os endereços dos bons
costureiros, os dias de Bosque ou de ópera. ” (M. Bovary).

Em apenas um dos parágrafos encontram-se muitos penduricalhos que Emma usava para preencher algo em si, ou mesmo para se esconder da realidade onde ela não se encaixava. “Emma usava um roupão todo aberto que deixava ver, entre os rebuços do corpete, uma camisinha plissada, com três botões de ouro. O cinto era um cordão de grandes borlas e as chinelinhas cor de romã tinham um grande laço de fita larga, espalhado sobre o peito do pé”.

Guy Debord, no seu livro A Sociedade do Espetáculo descreve a satisfação que a mercadoria abundante já não pode fornecer pelo uso, acaba sendo procurada no reconhecimento do seu valor enquanto mercadoria… As ondas de entusiasmo por um dado produto, apoiado e relançado por todos os meios de formação, propagam-se, assim, a grande velocidade. Um estilo de roupa surge de um filme; uma revista…

Há quem diga que é possível consumir de forma saudável, pois precisamos consumir para viver, ou quem diga o contrário – o consumo nada tem a ver com satisfação de necessidades, mas sim, com o aumento, embora que abstrato, do dinheiro. No caso de Emma, o consumo levou a família à falência, além de não conferir à personagem a identidade que ela tanto procurava, nem mesmo resolveu o problema da melancolia e até levou ao suicídio de M.Bovary.

Na figura do “vendedor de seda” encontramos as artimanhas do sistema que alimentam sua máquina a partir da criação ininterrupta de necessidades artificias. Era o casamento perfeito com a personalidade da jovem protagonista que “Tinha necessidade de tirar de tudo uma espécie de benefício pessoal e rejeitava como inútil o que quer que não contribuísse para a <satisfação imediata> de um desejo do seu coração…”

Na obra de Flaubert, já se nota que é histórico a mulher ser identificada como um alvo “mais fácil” para o consumo, até porque as diversidades de necessidades artificiais se apresentam para a mulher, muito intensamente: maquiagem, roupas, esmaltes, acessórios, etc, ou seja, a seda de Emma Bovary, o amante ideal, o cavalheiro dos grandes romances…Em Flaubert é apenas uma pontinha, mas que já aponta uma grande crítica a sociedade moderna.

Apesar de fazer parte de uma sociedade patriarcal, está sob a tensão do contrário da moral dessa sociedade, sim, Emma Bovary realiza uma parte das suas fantasias, mas de um jeito caricato. Ela sonha com a vida nos castelos, porém depois do primeiro baile não é mais convidada, sonha com o grande amor e encontra um homem cínico, Rudolph, que foge, e depois encontra outros homens que querem o dinheiro dela. O que Flaubert descreve é um mundo sem paixão, sem honestidade, sem aventura, onde as pessoas vivem de projeções – pode-se dizer: vivem de espetáculos no sentido de Debord, “O espetáculo não canta os homens e as suas armas, mas as mercadorias e as suas paixões”.

O consumo trouxe para Emma uma felicidade imediata. O cordeiro transformou-se em lobo e cobrou a prata com toda sua crueldade. Rudolph, por sua vez, poderia até mesmo ter inspirado o mestre Cartola ou Gonzaga, quando a Emma gemeu em ruínas, descobriu que daquele amor herdou somente o cinismo, e em cada esquina do bosque caía um pouco a sua vida. Não lhe serviram de socorro o tédio de Charles, a Instituição Igreja, nem mesmo os três botões de ouro, que outrora enfeitara a sua camisinha plissada.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

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