Scorpions em Fortaleza (8/10/16): o forte “golpe” da nostalgia que congrega

Existem oportunidades que, literalmente, caem do céu. E quando a força da música chama e conspira a favor, então, não há dúvidas: vai dar certo! 

Foi o meu caso no último dia 7 de setembro – feriado de nossa tão politicamente combalida pátria amada. Às vésperas de mais um espetáculo musical na minha cidade, cá estava eu sem ingresso, com pouco dinheiro e menos esperança ainda ou qualquer grito de independência que me salvasse. Foi quando surgiu uma oportunidade que cabia totalmente no meu bolso e na minha alegria: um ingresso de pista premium por menos da metade do preço (!!!) para o show do dia seguinte. Naquele momento, tive a certeza de que este difícil 2016 não podia, pelo lado musical, me deixar mais feliz: depois dos gigantes britânicos do Iron Maiden, era a hora de conferir os titãs alemães do Scorpions. Apertem os cintos para uma viagem à toda velocidade pelo melhor do hard rock setentista.

A lotação na Arena do Centro de Formação Olímpica (foto: Mateus Dantas/O POVO)

A lotação na Arena do Centro de Formação Olímpica (foto: Mateus Dantas/O POVO)

No momento em que escrevo este artigo (sim, perdão: com mais de mês de atraso), ainda lembro em vívida memória o quanto aquela noite pós-feriado foi afortunada. Apertei os cintos e fiquei bem confortável indo de Uber (primeira vez utilizando o serviço) após o trabalho até o local do show: a Arena do Centro de Formação Olímpica. Dali em diante, a percepção foi geral de que o local escolhido foi um acerto, pois o som estava ótimo, o local bem servido de bares e banheiros e tudo nos conformes. Armado com minha camiseta do Whitesnake – outra grande banda contemporânea dos alemães que amo de paixão – cheguei ao CFO e logo encontrei amigos de longa data. Um rápido lanche, algumas cervejas e bons papos e já estávamos entrando para a arena. Na fila, um pensamento que me fez refletir dali pra frente: um amigo comentou “tomara que não tenha nada ridículo como algum coro de protesto de ‘Fora/Volta Dilma’, ‘Fora Temer’ ou alguma babaquice do tipo”.

Confraternizando com os amigos esse "moment of glory"! (foto: arquivo pessoal)

Confraternizando com os amigos esse “moment of glory”! (foto: arquivo pessoal)

Porém, lá na frente, o que se viu foi algo bem distante disso. O ambiente era de união, congregante, acalentador, acolhedor. Jovens, velhos, homens, mulheres, todos em um só coro com a música atemporal desses experientes roqueiros que viram mudanças importantes no mundo na política acontecerem ao longo de seus impressionantes 50 anos de carreira. A pontualidade foi impressionante. E o começo do show também: sem firulas e sem pedir licença (apenas com uma breve sirene projetada no palco para enlouquecer a plateia), as cortinas caem e os escorpiões selvagens já chegam descendo a mão com o hit Going Out With a Bang, do mais recente trabalho Return to Forever  (2015).  Em sequência, Make It Real do aclamado álbum Animal Magnetism (1980). Logo nas primeiras músicas, uma gigantesca projeção da bandeira brasileira surgiu no palco, turbinando a moral e a empolgação – e talvez até o verdadeiro orgulho de ser brasileiro – de todos no local.

 

“-Brazil!” (foto: arquivo pessoal)

Aproveitando, sem descanso, chegam The Zoo e seu groove e riff inconfundíveis pra puxar a plateia ao delírio, enquanto o vocalista Klaus Meine dá um show de longevidade e simpatia – nem mesmo parece ter sofrido há alguns anos de terríveis problemas com suas cordas vocais, que na verdade o fizeram voltar à ativa com maior força ainda.

Klaus Meine, a voz perene do Scorpions (foto: Mateus Dantas/O POVO)

Klaus Meine: aos 68 anos, a voz perene do Scorpions (foto: Mateus Dantas/O POVO)

Após uma breve saudação à plateia, com um divertidíssimo “hello, Fôurthálêzaa!”, é a hora das cordas brilharem: os guitarristas Rudolf Schenker e Mathias Jabbs puxam a instrumental Coast to Coast.  A banda toda vem à beira da plataforma que se projetava para fora do palco – uma sacada genial da produção do show, que os deixou bem à vontade e mais perto do público! Inclusive Klaus, que não descansa nem no instrumental e toca guitarra base na canção.  Em sequência, um medley composto de mais clássicos engatados: Top of the Bill / Steamrock Fever / Speedy’s Coming / Catch Your Train . Logo depois, mandam a cativante We Built This House, música de trabalho do álbum mais recente e que já caiu no gosto dos fãs.

A banda reunida no instrumental Coast to Coast (foto: arquivo pessoal)

A banda reunida no instrumental Coast to Coast (foto: arquivo pessoal)

Rudolf Schenker (guitarra) e Pawel Maciwoda (baixo) detonando no palco (foto: Mateus Dantas/O POVO)

Rudolf Schenker (guitarra) e Pawel Maciwoda (baixo) detonando no palco (foto: Mateus Dantas/O POVO)

Em sequência vem Delicate Dance e, logo após, um momento muito especial: Mathias, Rudolf e Klaus vêm para a plataforma munidos de violões e mandam uma belíssima trinca acústica com Always Somewhere, Eye Of The Storm e a sensacional Send Me An Angel (cantada com toda a alma por este que vos escreve e todas as vozes presentes na arena!). E por falar em alma, foi isso que sobrou e transbordou logo em seguida com aquela canção que representa muito de um momento político crucial na história moderna: é claro que estou falando da épica Wind Of Change e sua otimista e bela letra sobre a queda do Muro de Berlim.

Difícil não conter as lágrimas nesta última sobretudo pelo assunto mais recorrente do ano ser a crise política em nosso país. O sentimento de mudança que a canção ainda carrega emociona a todos – seja para chorar o governo derrotado ou saudar o novo. Um “golpe” é inevitável: aquela pancada direta no coração e ainda na consciência que faz refletir – mesmo que por um instante, num concerto de rock – que todos estamos juntos nesse barco, não importa de qual lado, e que somos todos filhos de um belo e riquíssimo país.

A noite continua, e agora em ritmo acelerado, passando por petardos como Rock N’ Roll Band, Dynamite e um enérgico cover de Overkill do Motörhead – uma  honrada homenagem a seu vocalista, Lemmy Kilmister, morto no início deste ano.  E já que tivemos o momento das cordas, era chegada a hora da percussão: o baterista Mikey Dee manda um poderoso solo em seus tambores e pratos enquanto projeta-se no telão as capas de todos os discos da banda. Sensacional! Falando em telão, este – junto com a organização impecável e o som da casa – foi um espetáculo à parte: a qualidade das projeções transformava o “cenário” do palco a cada canção, imergindo a plateia em uma experiência completa de luz, som e emoção.

O virtuoso Mathias Jabbs na guitarra (foto: Mateus Dantas/O POVO)

O virtuoso Mathias Jabbs na guitarra (foto: Mateus Dantas/O POVO)

O show vai chegando ao final e a banda encerra o setlist em grande estilo com Blackout, a sensacional No One Like You Big City Nights. Ao estrondoso som de gritos e aplausos dedicados, os alemães agradecem e se retiram do palco pela primeira vez. Sim, pela primeira, pois é claro que ainda rolaria o bis! Após alguns instantes, eles retornaram pra encerrar com os indispensáveis clássicos Still Loving You Rock You Like A Hurricane.  E foi bem assim, “como um furacão”, que os Scorpions se despediram (para sempre? quem sabe?) da nossa capital, agora bem mais orgulhosa e feliz de ter recebido mais uma grande banda. Foram quase 20 músicas que passearam por praticamente toda a discografia do quinteto. O setlist apresentado só não me deixou particularmente satisfeito por completo por não terem tocado nenhuma canção de um dos álbuns que mais gosto: o recomendadíssimo Humanity – Hour I  (2007). Mas valeu cada momento, sem dúvidas!

Ah, e sabe aquele receio do meu amigo que comentei lá no começo de que rolasse qualquer manifestação ou confusão por opinião política? Pois bem… Tive a certeza de que o sentimento de conflito/tensão – tão presente nos dias de hoje entre nós, brasileiros – ganhou um novo significado naquela noite. Em tempos onde só se fala de “golpe”, receber uma “pancada” sonora de veteranos como os alemães do Scorpions é um banho revigorante de esperança, de novos tempos, de um vento das mudanças.

Portanto, uma certeza eu tive: após ter a sorte de encontrar ingresso barato e de última hora, após ter encontrado e confraternizado com tantos bons amigos, este foi, sem dúvida, um concerto que me fez lembrar que o maior golpe é não ter origem nem dignidade. O maior golpe, na verdade, é viver sem acesso a cultura, à música – essa arte/energia tão fascinante, tão imensa e congregadora. O maior golpe é achar que a bandeira da nossa nação é menor do que a de qualquer partido político.

 

Serviço:

Scorpions – 50th Anniversary World Tour
Fortaleza (Arena do Centro de Formação Olímpica), 8 de setembro de 2016
Público: 14.000 (aproximado)
Realização: Arte Produções

 

Setlist:

1 – Going Out with a Bang
2 – Make It Real
3 – The Zoo
4 – Coast to Coast
5 – Top of the Bill / Steamrock Fever / Speedy’s Coming / Catch Your Train
6 – We Built This House
7 – Delicate Dance
8 – Always Somewhere / Eye Of The Storm / Send Me An Angel
9 – Wind Of Change
10 – Rock N’ Roll Band
11 – Dynamite
12 – Overkill (Motörhead cover)
13 – Drum solo (Mikey Dee)
14 – Blackout
15 – No One Like You
16 – Big City Nights

BIS:

17 – Still Loving You
18 – Rock You Like A Hurricane

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento, apaixonado incurável por música, literatura, grandes cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: sergiodmcosta@gmail.com

Mais do autor - Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *