SANTA LUZIA, A PROTETORA DOS OLHOS, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“– Na primeira metade do século passado, pelos idos de mil, oitocentos e dezessete, de grande só existia mesmo esta rua do seu hotel. As restantes eram ruazinhas sem importância, que nasciam da principal. (…) – Na cidade, existem muitas casas históricas. Esses sobradões de frente de azulejo guardam reminiscências interessantes.” [Jáder de Carvalho, em SUA MAJESTADE, O JUIZ. Forgrel Editora: Fortaleza, 2011; 2ª ed.; págs. 194 e 211].

A vós,

que vos dispusestes a fazer comigo a caminhada virtual repleta de reminiscências, de relembranças, de vida vivida enfim, desde a pracinha do Putiú até o portão de ferro que resguarda a entrada da igreja dos salesianos, cujas linhas arquitetônicas exprimem, ao meu olhar laico, formas heteróclitas¹, ecléticas² e até futuristas, com rebuscamento que remete ao estilo barroco, ou seja, à manifestação artística que os italianos consagraram como a “pérola de formato irregular”;

que ouvistes atentamente as minhas narrativas pródigas de minudências, de detalhes, de vivências enfim, tanto a dos padres vanguardistas e o texto opinativo em desfavor da “missa jovem” que concorreu para a formal advertência à minha musa daquelas priscas eras e atual eterna parceira, ante a circunstancial atitude de “ovelha negra da turma”; quanto a dos desdobramentos, dos efeitos resultantes do desconhecimento da relação triangular – Dias Gomes que me perdoe! – existente entre a transversa hipotenusa e seus dois catetos angulares, que se equacionam cada qual no seu quadrado;

e que não demonstrastes qualquer estranheza ou acabrunhamento ou indiferença ou desinteresse, comportamento revelador de que sois leitor, na mais apreciável das acepções atribuídas ao termo;

a vós, pois, convido ao prosseguimento dessa jornada, andarilhos que ora somos pelos pretéritos – perfeitos ou imperfeitos – caminhos ainda vívidos na memória, embora tenhamos de enfrentar a outra metade do aclive da avenida Dom Bosco, principal via de acesso ao centro comercial de meu torrão natal, a acolhedora metrópole do maciço que recebe de empréstimo o seu nome.

Neste curto percurso, margeiam o logradouro casas residenciais congeminadas, calçadas de acabamento tosco, meio-fio em pedra longitudinalmente talhada e leito da via em paralelepípedos de iguais forma e tamanho, muito bem assentados. [Oportuno é lembrar que, naquele tempo, as obras públicas tinham, como uma de suas principais características, a longa vida útil… embora já se verificassem discretos desvios de verbas, obviamente; afinal, a milenar corrupção, após desembarque das naus cabralinas, pisou em solo firme aqui, na terra brasilis, onde “em se plantando tudo dᔳ, fincou suas múltiplas e insaciáveis raízes e, como um mal extremamente invasivo, ora grassa por todos os rincões do vasto berço das escabrosas transações.]

Na confluência com a avenida Sete de Setembro, abre-se, sob um céu cor de anil e à nossa esquerda, uma ampla área, que se estende lateralmente até a parte final da Quinze de Novembro, paralela àqueloutra, onde se destaca o Hotel Canuto, tendo, no lado oposto ao que ora estamos, o recém construído prédio-sede da agência do Banco do Brasil, para cuja edificação a administração municipal demoliu o velho Mercado Público, transferindo os seus permissionários para a área central do quarteirão adiante, essencialmente comercial.

Entrecortada por uma estreita e transversal via, aberta para melhor afluência em espaço de intensa movimentação, tanto nos dias de feira quanto em tempo de festas religiosas, a praça conta com iluminação artificial em postes decorativos bem distribuídos à margem de suas calçadas de entorno, externas e internas, e é arborizada com muitos pés de benjamin, ou “ficus benjamina”, cujas copas recebem a arte de um criativo podador que lhes dá formas várias, incluindo a de animais – elefantes e enormes pássaros, por exemplo. Algum tempo depois, a erradicação desse tipo de arborização das vias públicas se faria indispensável por dois motivos: o estrago causado por suas robustas raízes aos meios-fios, às calçadas e aos muros, e a praga do lacerdinha ou azucrinol, um insetinho escuro que enxameou a copa dessas figueiras e tanta ardência causou aos nossos desprotegidos olhos.

A poucos passos de nós, vemos o único posto de combustível da cidade, de bandeira Atlantic e pertencente ao seu Raimundo Viana, não aquele que já vos apresentei em texto anterior, o proprietário da Usina Putiú, mas outro de maior estatura física, cujo apelido “Mouco”, agregado ao nome, do seu xará o distingue. Na esquina à direita, ergue-se imponente o único hospital particular da região: o do doutor Marcelo Holanda, com a frente voltada para a declivosa via de acesso ao bairro Lajes.

Passeemos pela praça, saboreemos o que de mais saudável ela tem a nos oferecer: o vento ameno, o clima agradável, o aprazível sombreado do arvoredo umbroso, o odor que emana de floridos canteiros, o chilreio de pássaros vários, o contato com gente simples, a visão do casario, de um lado e do outro, em que habitam personagens de destaque na crônica local – o comerciante, o médico, o dentista, o agrimensor, o bancário, o vereador, o servidor público. Sentemo-nos em um dos bancos de madeira do coreto que, nas noites de sábado ou de dias festivos, serve de palco às exibições da bandinha mantida pela edilidade, e apreciemos a singeleza arquitetônica da igreja de Santa Luzia, solene em plano mais elevado, com suas largas escadarias de cerca de uma dezena de degraus.

As feiras sabatinas se esparramam pelo seu entorno e pelas laterais da agência bancária. Nas festas religiosas, nesses espaços públicos fervilham pessoas de interesses que variam do sacro ao profano e se instalam os equipamentos de animação: aqui, a roda gigante; ali, a de cadeirinhas ou “ispaia brasa”; acolá, os barquinhos e as rodas de cavalinhos; do outro lado da igreja, as quermesses e seus concorridos leilões. E ainda há o comércio dos mais variados produtos – de bugigangas ou quinquilharias a guloseimas ou petiscos; de folhetos de cordel a refeições em prato feito.

E, por falar em festa religiosa, eu vos proponho, amigo(a) leitor(a), a revisitação ao texto por mim produzido há cerca de duas décadas e postado em 2016 na minha página de facebook, sob o título A PROTETORA DOS OLHOS. Ei-lo:

“Transportei-me, ontem à noite, para os idos das décadas de 70 e 80, na minha querida Baturité. Misturei-me a gente de todo tipo, saída das mais distantes localidades da região – serra e sertão –, numa efervescência que inebriaria qualquer pesquisador do comportamento humano: sociólogo, psicólogo e outros quetais. Dei incontáveis voltas pela praça, disputando espaços e procurando, no meio da multidão, algo que não houvera perdido. Paquerei (É o novo!). Passeei na roda gigante. Embriaguei-me na de cadeirinhas. Encantei-me com o burburinho. Comi bolo Souza Leão e bebi guaraná Taí ou Wilson – ou seria Grapette, “o verdadeiro sabor da uva” e “quem bebe repete”. Senti, de perto, o aroma estonteante de perfumes vendidos em vidrinhos roliços e compridos, comprados por moçoilas mal saídas do casulo – etário e geográfico – e freneticamente aspergidos pelo corpo inteiro, ali mesmo, ao pé da banca. Participei, de um jeito muito moleque, do concorrido leilão, quando galinhas assadas – doadas vivas, sob o rótulo de “santos olhos”, em paga de alguma promessa – eram disputadas num jogo de valor bem conduzido pelo leiloeiro:

“– Quem dá mais?! Dou-lhe uma… dou-lhe duas… dou-lhe três. A prenda vai para o doutor Fulano de Tal, pra que todos nós outros fiquemos apenas com água na boca.

“Ouvi a irradiadora – a rádio do sertão de outrora – divulgando, para ouvidos desatentos e na voz marcante de um locutor de ofício, mensagens de amor, sempre acompanhadas de músicas romanticamente oferecidas:

“– Esta linda página musical vai para alguém de vestido vermelho, num oferecimento especial de alguém que ela sabe muito bem quem é. [Alguém me disse que tu andas novamente / De novo amor, nova paixão, toda contente / Conheço bem tuas promessas / Outras ouvi iguais a essa…4].

“Vivenciei a brincadeira do caritó, lugar imaginário para onde eram mandadas as jovens encalhadas. Curti o momento mágico, em meio a um grupo de mais de uma dezena de adolescentes, que, madrugada avançada, quase manhã, desciam numa algazarra sadia pela avenida Dom Bosco, passavam pela ponte sobre o rio Putiú e, sem mudar o ritmo da aventura, sentiam-se felizes no bairro em que moravam.

“Era a mais que perfeita conjunção do religioso com o lúdico. Da fé cristã com a alegria mundana. Do sacro com o profano. Céu e terra. Espírito e corpo. Tudo demasiadamente humano.

“Era a tradicional festa de Santa Luzia, a protetora dos olhos, cuja data no calendário religioso é 13 de dezembro.

Nada mais que reminiscências.”

¹ Heteróclita: excêntrica; fora do comum; que contraria as regras da arte.

² Eclética: relativa ao ecletismo, tendência artística fundada na exploração e consolidação de estilos.

³ Pero Vaz de Caminha, em carta ao rei Dom Manuel, sobre a prodigalidade da terra recém descoberta.

4 Na voz inconfundível de Altemar Dutra.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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