SABER VER, SABER AGIR, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Para conhecer algo é preciso saber ver. É da condição humana o ato de ver tendo a consciência de que está vendo. O processo da visão do mundo pelos humanos consiste em organizar sempre mais perfeitamente as linhas do real à sua volta para poderem evidenciar a significação geral dos acontecimentos e atuarem a partir dela. Assim, o ato de ver não é apenas racional, mas reflexivo também.

Ver implica um conhecimento. Conhecer é ao mesmo tempo um co-nascimento, pois no reconhecimento do mundo ele próprio renasce para nós que nele e com ele vamos renascendo. Descobrimo-nos podendo estruturar o real a partir do nosso saber-e-fazer.

Acontece que um fenômeno enquanto mera aparência pode produzir uma ilusão, uma ocultação do real. A aparência é o modo como o real tende a ser percebido. Portanto, não basta perceber o real em sua exterioridade, é preciso senti-lo e analisa-lo também em sua dimensão interior e relacional para desvelar o fenômeno de sua mera aparência.

Em artigos passados tivemos a oportunidade de apresentar algumas análises que fundamentam a necessidade e o direito, enquanto cidadãos e cidadãs soberanos de um Estado de Democrático, de acesso a uma mídia democrática e participativa que nos possibilite uma visão sempre mais diversificada e ampliada dos fatos e de seus atores, para termos as condições do desvelamento da aparência e podermos atingir o real. Entretanto, da forma como o poder midiático no Brasil está concentrado nas mãos de pouquíssimos grupos empresariais – oligarquia familiar – somos impedidos de ver os fatos como eles acontecem para apenas termos acesso às interpretações parciais que esses meios de comunicação hegemônicos no país editam segundo os seus próprios interesses. Essa interpretação parcial e interesseira dos fatos produz uma distorção em nossa visão acarretando ações desastrosas consoantes a esta visão distorcida. Desde 2013 estamos podendo constatar o poder de distorção da realidade e formatação de pensamento-comportamento social que a mídia brasileira é capaz de produzir.

Estudos sobre comunicação demonstram fartamente: a primeira característica da mídia é a de construir uma realidade. Qualquer fato existe ou deixa de existir se é ou não veiculado pela mídia. Dito de outra forma, ela tem o poder de instituir o real, mais do que a família, a escola ou mesmo a religião. A mídia de massa estrutura valores, hábitos, códigos, consensos. Ela não somente diz o que existe e como existe, mas também o que não existe, segundo suas interpretações editadas a partir de seus interesses privados. Ao decidir o que e como deve ser discutido pela população, a mídia hegemônica brasileira está condicionando o nosso olhar, consequentemente a nossa consciência e ação.

Pensar a democracia é pensar a ação de pessoas livres, seres morais, capazes de exercitar sua vontade de construir mundos baseados em valores adquiridos como resultado de suas visões. O que fazer quando o acesso à realidade vem distorcido em sua verdade? Entendemos verdade como a expressão das coisas como de fato são, enquanto a mentira faz justamente o contrário, distorce a realidade voluntariamente em função dos interesses de quem a distorceu.

Mas a busca da verdade é uma dimensão ética humana. A ética nasce das perguntas pelos critérios que tornem possível o enfrentamento da vida com dignidade. Ela emerge como reflexão crítica e não mera aceitação da aparência, tematizando questões que nos permitam superar o mal para estabelecermos marcos com os quais seja possível configurar o mundo humano enquanto espaço efetivo de liberdade e justiça para todos. A ética existe porque as pessoas agem, não porque elas ficam paradas. Ela tem de existir para ordenar as ações e o poder de agir.

É mister exercitarmos ainda mais e melhor nosso olhar sobre a realidade com o escopo de entendermos os fenômenos midiáticos com suas motivações, interpretações e ocultações para podermos produzir as modificações necessárias no campo legal capazes de fracionar o poder altamente concentrado da mídia hegemônica brasileira, com o objetivo de viabilizar o acesso aos fatos de forma mais plural e verdadeira. Sem dúvida, a condição de liberdade e igualdade, que define o regime democrático, necessária para o pleno exercício da busca e explicitação da verdade jamais será atingida num regime de exceção. Eis a questão!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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