RETALHOS DE VIDAS: Futebol, alma de um povo, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Alguns chegam a reviver detalhes insignificantes. […] Essas vítimas da paixão não se cansam de contar a sua história, cada vez com maior número de minúcias e mais abundância de memórias.” [João do Rio, em CRIMES DO AMOR / A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS: CRÔNICAS. São Paulo: Martin Claret, 2007; pág. 177].

– Eu quero é ela!

Não havia na periferia campo de futebol mais bem cuidado. Incrustado em área aberta pela ação destemida das mãos calosas de amantes do futebol, em terreno cedido a duras penas pelo coronel Hermógenes, homem de muitas posses e detentor de muitos votos, as pessoas de poucas posses foram construindo, ao longo de décadas e em seu entorno, em parcerias sempre mais vantajosas para o respeitável benfeitor, as suas casas simples. E assim surgiu o núcleo do bairro Vila Nossa Esperança que ora se expande por área considerável na parte sudeste da cidade grande. A grama natural, a marcação a cal, as traves e travessões de madeira retangular justapostos em bicos de gaita, as redes fabricadas e remendadas artesanalmente e ao molde de redes de pescar, com malha bem mais larga, o piso com pequeno declive para uma das laterais, uma movimentada avenida há alguns metros de uma das linhas de fundo, o abraço do casario em formato de “U” maiúsculo, em cuja base uma fileira de frondosos cajueiros protegiam os telhados das casas – além de oferecer galhos tortuosos às peripécias dos infantes e sombra aos já tradicionais vendedores de comidas e bebidas – e em cujas arestas abriam-se dois estreitos corredores com fluxo para uma rua de calçamento, em paralelo com a avenida. Berço lúdico de muitas gerações, ali muitas crianças se envolveram em saudáveis brincadeiras, adolesceram, jogaram partidas memoráveis, coseram suas esperanças, descoseram suas frustrações, cresceram, apaixonaram-se, saborearam o que de mais palatável podem oferecer as aventuras, regurgitaram o que de mais amargo podem causar as desventuras, amadureceram, casaram-se… afinal, viveram. Aos domingos, o encantamento e a alegria de uma partida de futebol, a que se seguiam muitas conversas jogadas fora, muitos flertes, muitos nós que se atavam ou desatavam, muitas rodas de samba, muitas homenagens a Baco e a Afrodite, as divindades gregas do vinho e do amor.

– Eu quero é ela!

Numa daquelas modestas casas, morou Toia Pretinha, a magricela negrinha, sem homem que a sustentasse, que, no curso de muitos anos, lavou e passou roupas nas casas de grã-finos, mas destinava as segundas-feiras para dar o devido tratamento aos uniformes – camisas, calções e meiões – dos atletas domingueiros. Mãe de Totonho, o hábil e tinhoso ponta esquerda do esquadrão azulino, seu único filho, fruto de uma desventura juvenil, certamente o solitário gozo de prazer carnal, tratou-o como uma joia rara. Com sacrifício, deu-lhe a educação no extremo do que as posses permitiram. Um dia, estranhou que, sempre disposta, forte e saudável, sem registro dessas pequenas mazelas que costumam desarticular uma vida comum, uma tosse irritante dela tenha se apoderado. Comentou com a vizinha que lhe recomendou um remédio caseiro – “É tiro e queda!” –, mas que não surtiu o efeito desejado. E a tosse não apenas resistiu, mas evoluiu, agora com secreção, que, em poucos dias, tornou-se purulenta. Era tuberculose. Um quadro de debilidade, de esgotamento físico, de morbidez prostrou-a no fundo de uma rede, de onde a translúcida alma galgou a justa eternidade e o franzino corpo, de revestimento epidérmico da cor de noite desnuda de lua e estrelas, transportou-o à última morada uma multidão entristecida. No jogo seguinte, fez-se um minuto de silêncio à sua póstuma memória. Agora na orfandade, Totonho precisou da ajuda dos amigos, até dar um novo curso à própria vida.

– Eu quero é ela!

O amor lhe sorriu numa festiva tarde de domingo, no intervalo do jogo contra o time do bairro dela. Amor à primeira vista: olharam-se circunstancialmente e perceberam-se mutuamente atraídos; e, sob o estímulo de Cupido – “Almas gêmeas sois!” –, a flecha da paixão trespassou-lhes os corações, fundindo-os num só. As juras de amor logo os levaram aos altares divino e humano; e, lá, Totonho de Toia Pretinha e Tetê de Zé Galdino, em cerimônias bem simples, tornaram-se marido e mulher, até que a morte os separasse. E a modesta casa à margem do bem cuidado campo de futebol os agasalhou. No curso do dia, ele era segurança de banco, serviço terceirizado, e ela cuidava zelosamente de mãos e pés da clientela exigente e cativa do concorrido salão de beleza da irmã mais velha; à noite, entregavam-se ao que o Amor costuma reservar naturalmente aos casais de enamorados. Aos domingos, ele se divertia com a prática das habilidades inatas: no batuque do samba e na ginga do futebol; e ela faturava uns bons trocados com sua bem sortida mesa de guloseimas e sucos de sabores variados. Viviam bem, ao modo deles, e se amavam, muito!

– Eu quero é ela!

De repente, ela começou a demorar-se no retorno à sua casa, a queixar-se de cansaço e de recorrentes enxaquecas, a recolher-se ao leito conjugal com amuos e enfados, a reagir com indiferença aos agrados do seu homem e a justificar-se com o excesso de trabalho. De início por ele compreendido, logo o comportamento da mulher instilou gotas de dúvidas no pensamento do marido que dela sempre ouvia pedidos como estes: “Tenha um pouco de calma comigo!” ou “Me dê um tempo!” ou “Logo, logo, isso passa!” Na solidão noturna, a televisão tornou-se a dileta companheira. E o álcool foi, aos poucos, preenchendo os desvãos do corpo e da alma: passou a dormir no sofá da sala, sob efeitos da embriaguez. Já não conseguia ser tão diligente no trabalho, nem tão ágil no dedilhar das cordas do cavaquinho que, submisso, sempre se agasalhava no peito esquerdo do artista, ali, bem próximo ao coração, nem tão eficiente na condução da bola amada, no drible desmoralizante, no cruzamento perfeito, no chute indefensável. Agora, sentia-se um ser decadente.

– Eu quero é ela!

Naquela noite, pelas frestas da janela fechada, viu-a descer sorridente e agradecida do carro importado de um cliente. E a noite já se fizera há algum tempo. Arrepiou-se com a certeza de tê-la visto jogar beijinhos de despedida em direção ao carro que se afastava lentamente. Sentiu, de imediato, vergonha dos vizinhos, amigos de longo tempo. Abriu-lhe a porta. Saudou-a com um “Boa-noite!”, que ela mal respondeu, dispensando-lhe um furtivo olhar de quase-desprezo. As dúvidas cederam lugar ao ciúme. A discussão se tornou inevitável. “É assim que você me trata, retribui o amor que sempre lhe devotei?! Com um belo par de chifres?!” “Deixa de ser ciumento, cara! Não há traição coisa nenhuma. Quem me trouxe até aqui foi uma cliente. Uma cliente, ouviu?!” “Tu pensa que eu sou trouxa, é?! Sou Zé Mané não!” Os dois se maltrataram com palavras que esgarçavam brutalmente os frágeis laços que aparentemente ainda os uniam. A ingestão nervosa de algumas doses de aguardente causava-lhe uma grave sensação de furor. Sentimentos represados transbordaram, explodiram. Esbofeteou-a repetidas vezes. “Sem-vergonha! Traidora!” “Covarde! Quem bate em mulher não pode ser chamado de homem!” “Cala a tua boca, desgraçada!” “Você me perdeu, idiota! Hoje mesmo volto pra casa do meu pai!” “Pois vá! Arrume seus panos de bunda e vá!” “Vou mesmo! Tu vai chorar a minha falta.” “Já vai tarde!” Percebeu o sangramento: um filete de sangue escorreu da comissura esquerda da boca da mulher amada. Deixou-a em meio ao caos em que sua casa se tornara. Bateu a porta com raiva e saiu à rua. Ainda ouviu a voz ameaçadora da mulher ultrajada: “Você vai se ver com o meu pai! Aí tu vai ter de ser homem, covarde!” Cruzou apressadamente o bem cuidado campo de futebol e sumiu na primeira esquina. Perambulou por muitas ruas, sem destino certo. Ao retornar, já quase finda a madrugada, encontrou a casa no mais completo abandono: porta encostada, luzes acesas, televisor ligado, a garrafa com aguardente pelo meio… e nada dos pertences da mulher. Ela se fora.

– Eu quero é ela!

Sorveu algumas doses generosas da bebida, à medida que o pensamento cambaleava para além do seu habitat natural. Fera acuada. Adormeceu ali mesmo, no sofá. Acordou tarde. Teve um dia horrível. A ressaca o atormentou. Faltou ao trabalho; não avisou a ninguém. Ingeriu bastante água gelada. Tomou um banho longo. Vestiu-se, decidido a ir até à casa do sogro, disposto a pedir perdão à mulher amada. No meio da tarde, fechou a casa e saiu com a sensação de que olhares recriminatórios o acompanhavam enquanto caminhava. Na esquina, o bar amigo convidou-o a entrar. Tomou uma dose de cachaça para arrumar as ideias; outra para criar coragem para encarar o sogro; mais outra para… revoltou-se com o que pretendia fazer… e pensou: “Ora, ele sabe onde moro. Se quiser me enfrentar, que me procure!” E bebeu todas. Na hora de encerrar as atividades, o aconselhamento do dono do recinto: “Rapaz, vá pra casa. Você está passando das medidas…” “Sabe, amigo… você está certo… eu vou… mas me dê um litro da bruta… que vou embora…” “Quer um copo?” “Não precisa, lá em casa eu tenho copo…” Pôs a garrafa debaixo do braço e, trôpego, tomou o rumo de casa. Logo, mudou de ideia. Sentou-se na grama do campo, recostando-se no poste direito da trave, o olhar, fatigado e desinteressado, para a avenida iluminada quase sem movimento. À medida que o tempo passava, sentia que as pessoas se recolhiam às suas casas, portas e janelas se fechavam, luzes se apagavam. Silêncio. Abandono. Solidão. Frio. Entornou, repetidas vezes, o litro da bebida, sorvendo-a no gargalo. Com muito esforço, levantou-se. Bordejou. Adernou o corpo para um lado, desequilibrou-se… só não foi com o rosto ao chão porque conseguiu agarrar-se à trave. Abraçou-a. Jogou o litro vazio no meio do gol, e, entre lágrimas e soluços, gritou repetidas vezes, com pequenos intervalos:

– Eu quero é ela!

O excesso de álcool no organismo causou graves estragos em órgãos vitais. Apagamento: perda da visão, queda da pressão e o corpo vergou-se, descaiu. Envenenamento alcoólico: dificuldade de respiração, resfriamento do corpo, incapacidade de reação. Coma alcoólico.

No amanhecer, a chuva inesperada surpreendeu os que precisavam deslocar-se cedo para o trabalho. Viram o corpo inerte de um homem abraçado à base do poste direito da trave, as roupas encharcadas… Ao lado, jazia o litro vazio.

No jogo do domingo, toda a comunidade dedicou, com um minuto de silêncio, reverência especial ao Totonho de Toia Pretinha. Não houve roda de samba, nem de pagode. E todos se recolheram tão logo a lua cheia derramou sua luz prateada sobre o campo de futebol bem cuidado. Alguém assegurou ter ouvido, naquela madrugada, para os lados da igrejinha, o arrepiante rasgo de mortalha da coruja.

“Em qualquer parte, na noite, estarão as corujas. Elas rasgam mortalha, agourentas, cortam o silêncio, sacudindo a vigília dos doentes. […] Elas surgem sempre, impressentidas, como num sopro de morte: alteiam-se leves, pousam sobre o peito dos mortos e com o bico arranham-lhes os olhos, que fulgem parados e indefesos na noite.” [Moreira Campos, em AS CORUJAS / O PUXADOR DE TERÇO: Contos – Rio de Janeiro: José Olympio, 1969/ págs. 49-50].

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

  1. Osvaldo Euclides

    Osvaldo Euclides

    ERRATA:
    Onde se lê: “uma movimentada avenida há alguns metros de uma das linhas de fundo”, leia-se: “uma movimentada avenida a alguns metros de uma das linhas de fundo”. Ou seja, em vez do verbo “há”, indicador de tempo pretérito, correto teria sido o emprego da preposição “a”, indicadora de espaço.

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