RETALHOS DO COTIDIANO: FOGO FRATERNO, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Estava na casa do primo não havia muito tempo. […] Tudo se exacerbara quando, de passagem pelo corredor, a porta do banheiro entreaberta, a surpreendera grandemente nua… […] O marido viajara mais uma vez. […] Os olhos consultavam o corredor. E ela apareceu, na leveza desesperadora do ‘baby-doll’. (1)

Desde que – ela e ele, já casados – decidiram juntar os poucos bens de que dispunham, aqueles que ainda ofereciam alguma serventia, e partir para a capital, confiantes em oportunidades que os permitissem alcançar o tão desejado padrão de vida – impossível de ser conseguido em cidadezinha do interior – capaz de satisfazer as expectativas de ambos, não mais haviam posto os pés no ressequido solo do torrão natal, simplesmente porque não lhes sobrara tempo para cumprimento de agenda social ou familiar. O cotidiano do trabalho os consumia – ele, caminhoneiro vinculado a uma grande empresa de transporte de cargas, com área de cobertura em todo o território nacional e algumas ramificações em países confinantes, fronteiriços; ela, como auxiliar de tesouraria na sucursal local da aludida transportadora.

Não tinham filhos: não porque lhes faltasse o desejo de tê-los – sempre tentaram –; talvez porque houvesse entre eles alguma restrição de natureza biológica. Nunca se preocuparam em desvendar tal mistério. E pelas sendas da vida caminhavam tranquilamente: sem cobranças, sem exigências, sem culpas, sem desculpas. A flâmula cujo mastro o casal empunhava, ao agitar-se excitante com os ventos do compartilhamento conjugal, expunha o lema que todo o relacionamento deles presidia: amor e respeito.

Filha única de mãe viúva e pensionista, herdeira absoluta, com ela morava em residência própria, uma boa casa em bairro de classe média alta. No curso do dia, uma jovem mulher auxiliava a velha senhora na condução dos afazeres domésticos. À noite, na ausência do parceiro em viagem, filha e mãe cumpriam naturalmente os papéis que a vida lhes confiava.

A empresa implantou um sistema que premiava – pelos bons serviços prestados no curso de alguns anos e com períodos de férias simultâneas, coincidentes – casais empregados/vinculados, independentemente dos cargos que ocupassem. Eles escolheram o mês de maio. Requereram o usufruto do prêmio e foram atendidos.

– Filha, eu gostaria de passar o dia das mães com a minha velha. O que você acha disso?

– Tudo bem, amor. Nós vamos, sim. Se mamãe quiser, ela pode ir com a gente?

– Claro! Será um prazer. A gente pode ir no sábado e voltar na segunda. Você tem alguma ideia melhor, bem?

– Não, não. Concordo com você.

– Então, eu vou ligar lá pra casa avisando o pessoal.

E a casa da mãe virou uma festa. Os dois velhos mais pareciam duas crianças. A alegria se esparramava por todos os ambientes, transvazava de cada rosto, de cada olhar, de cada sorrir. Os abraços efusivos, os beijos afetuosos, as lágrimas sensíveis, tudo revelava sentimentos preservados no longo tempo que já se fora. As conversas singraram a calmaria da noite, movidas a café e tapiocas e bolos caseiros.

Tão logo todos se recolheram, na madrugada que ameaçava ser chuvosa, a mãe chamou o filho à cozinha, o seu exclusivo reduto, e fez-lhe um pedido:

– Meu filho, sua mãe espera de você um presente bem especial. Eu vou lhe dizer o quê. Seu pai também vai gostar muito disso.

– Pode dizer, mãe. No que estiver ao meu alcance, eu terei o maior prazer de atender a senhora.

– Está ao seu alcance, sim, meu filho. Olhe bem, o Juninho, seu irmão, já vai completar dezoito anos… disso você sabe, né? Pois bem. Esse rapaz passa o dia aqui sem fazer nada. Não estuda porque não tem mais escola pra ele aqui na região. Não trabalha porque nem pro pesado, pro rabo da enxada, aparece alguém querendo contratar. Faz pena ver a tristeza do rapaz. Eu tenho até medo de que ele cometa uma besteira. Que Deus nos livre e guarde! [Fez o sinal da cruz, beijando suavemente o indicador dobrado sobre o polegar levemente recurvado]. Leve-o com você. Abra as portas do mundo pra ele. Me dê esse presente, meu filho. E a bondosa Mãe Santíssima, a mãe das mães, vai cobrir você de bênçãos celestiais.

– Tudo bem, mãe. Eu apenas preciso combinar com a minha mulher. Se ela concordar… a senhora sabe que eu vivo praticamente no meio do mundo. Tem ainda que ver o caso da mãe dela, minha sogra, com quem a gente mora, a verdadeira dona da casa. Se tudo der certo, ele já vai quando a gente for, ‘tá certo?

– Isso, meu filho. Eu tenho certeza de que tudo vai se encaixar direitinho. Já vou até dar uma arrumada nas coisas dele. Eu te amo, meu filho.

– Eu também amo a senhora, mamãe.

E assim o jovem Juninho teve modificado o seu curso de vida. Arranjaram para ele o quarto dos fundos, já sobriamente mobiliado – cama de solteiro, guarda-roupa de duas portas, escrivaninha e frigobar –, com janela para o quintal e banheiro privativo, o qual por muito tempo servira às secretárias domésticas – na época em que elas costumavam dormir no trabalho –, com acesso pelo corredor lateral da casa, o que dava ao usuário um pouco mais de independência.

Concluídas as férias, o casal voltou às jornadas normais de trabalho, ou seja, ela assumiu o seu posto na Tesouraria; ele retomou as viagens pelo Brasil afora, com retornos, em alguns fins de semana, ao recesso do lar. E, por intermédio deles, em especial da cunhada, o jovem logo começou a trabalhar na mesma empresa – num cargo sem muita expressão, mas era um começo –, preenchendo os momentos de folga, principalmente à noite, com estudos solitários e participações em cursinhos preparatórios para o exercício de atividades técnicas especializadas.

Todas as noites, ao chegar em casa, encontrava-a em completo silêncio e pouca luminosidade, indicativo de que as pessoas já se haviam recolhido. Caminhava até seu quarto, tomava banho, lia ou estudava por algum tempo, até que o cansaço natural o empurrava para debaixo dos lençóis de sua cama de solteiro. Acordava cedo, tomava o café da manhã com as pessoas da casa e, de carona, seguia com a cunhada para o trabalho. No trajeto, quase não conversavam. Havia uma barreira entre eles, erigida pelo respeito mútuo.

Mais de dois anos se passaram. A cunhada perdera a mãe, vítima de infarto fulminante. Viu-a em prantos e uma lágrima fugidia denunciou o desconforto que lhe causava a perda daquela mulher que, a seu jeito, aprendera a querer bem. Fez as vezes do irmão em momentos tão cruciais. Os dias pesarosos se foram e a vida retomou o seu curso normal.

Com o currículo mais recheado de cursos técnicos, o rapaz, agora com mais de vinte anos, já exercia função na área de informática, que exigia melhor qualificação e lhe rendia melhor remuneração. Só não mudara o jeito introvertido de ser. Não tinha amigos, não alimentava vícios de qualquer natureza. Não tinha namorada. Era muito tímido para arriscar-se em conquistas.

Bem que desejava estar enganado, mas percebera mudanças – que o incomodavam – no relacionamento com a cunhada, o qual ia, a seu ver, adquirindo outros contornos, outros matizes. Os olhares e as conversas já não se faziam tão solenes; embora ainda respeitosos, carregavam uma boa dose de interesse no que faziam, no que pensavam, no que queriam. E, apesar de tanto lutar contra, descobriu-se apaixonado por ela, pela mulher do irmão, pela mulher dos seus agora tão ardentes sonhos. Pediu perdão a Deus e tentou dormir em paz… não conseguiu… ela preenchia todos os desvãos de sua obscena, lasciva e pervertida imaginação. Pecado capital que o tornava merecedor do castigo infernal, com fogo e ranger de dentes. Desviou a atenção para a balsâmica lembrança de sua mãe, de seus conselhos, de suas orações. Rezou contritamente uma Salve Rainha que – creiam, indulgentes leitores – sempre acalma almas em risco. Adormeceu. Ao acordar, viu-se obrigado a lavar, na pia do banheiro e à base de sabonete, o calção do pijama, com que eliminou marcas reveladoras de seus sonhos prenhes de erotismo.

Envergonhado, esquivou-se do café da manhã – certamente não resistiria ao olhar penetrante da amada inalcançável. Evitou a carona, preferindo ir ao trabalho de transporte coletivo. Decidiu que, doravante, evitaria ao máximo encontrar-se com ela. Seria doído, mas não havia outro jeito de evitar o pior.

Naquela noite, ao chegar em casa, encontrou-a iluminada, o som distante do televisor ligado; tão logo fechou o portão de alumínio, ouviu às suas costas passos suaves e respiração ofegante. Virou-se. E viu olhos que revelavam o amor correspondido.

“Ela, só e tão próxima, a poucos passos! […] O supremo bem de poder desnudá-la, tirar-lhe o ‘baby-doll’ tantas vezes entrevisto e exasperante.” (2).

Ela se aproximou. Olhos nos olhos. Respiração entrecruzada. A boca ardente reclamando febrilmente o aconchego de lábios concupiscentes. As mãos se encontraram e se fundiram num aperto de entrega total. Os seios dela, intumescidos, no peito musculoso do rapaz se conectaram e os seus corpos se energizaram. O abraço do acolhimento, da aceitação. E ela se deixou conduzir para o quarto do rapaz, aninhando-se voluptuosamente em seus braços, tão zelosos quão esbraseantes.

“Posse desesperada, profunda, a loucura, o sexo confundido com a própria morte.” (3).

E eles jamais foram os mesmos.

Notas do autor:

  1. Moreira Campos, em Gota delirante / DIZEM QUE OS CÃES VEEM COISAS – 3ª ed. – São Paulo: Maltese, 1995; págs. 48-49).

  2. Idem, ibidem; pág. 48.

  3. Idem, ibidem; pág. 50.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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