RETALHOS DO COTIDIANO: FOGO FRATERNO III – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos,

determinará ele próprio o vosso curso.” (*)

Ela bem que fez uso de todos os recursos de que dispunha – não muitos, obviamente – sempre estimulada pela convicção de que desvendaria o mistério em que se envolvera o sumiço do rapaz. Debalde. Frustração. Recolhimento. Autoavaliação. Revisão de conceitos. Sensatez. Retorno ao leito natural do rio vital, com fluidez sem grandes riscos e sem ameaças de novos transbordamentos marginais. Vida que segue.

 

Sentira-se, sim, ultrajada, desde o vazio inesperado à mesa posta para o café da manhã – cadeira, xícara, pires, pão, café, leite, açúcar, tudo no mais inexplicável abandono – até o bilhete telegráfico escrito à mão firme e largado no tampo da escrivaninha, como se nada tivesse acontecido no curso daquela noite tão pródiga em sensualidade, em compartilhamento e em comprometimento – “Meu irmão. Minha cunhada. Estou indo embora. Preciso dar novo rumo à
minha vida. Muito obrigado por tudo! Me desculpem pelo jeito indelicado com que me despeço. Não me procurem. Não se preocupem comigo. Deus continuará cuidando de mim. Um dia, quem sabe, nos reencontraremos. Um abraço.” A chave esquecida na porta de acesso ao quarto, ainda impregnado dos odores que emanaram da entrega plena, sob o lençol macio, embora desgastado pelo uso, no recatado altar erigido à Afrodite, no singelo templo do Amor, já resumia tudo. Sentira-se, sim, como a noiva deixada ao largo, com desprezo, mal se concluíra a tão desejada noite de núpcias, caroços de arroz ainda presos no alvíssimo vestido dos encantamentos. E aquilo
não passara de uma aventura – Ah! Ventura! –, apesar de tudo o que fizera para que não fosse.

 

Ele, com o apoio inestimável do chefe – de quem conquistara, com méritos, a admiração profissional, muito além da pessoal – e por seu aconselhamento, em face da situação crítica ora vivenciada pelo protegido, e pela intervenção de quem detinha certos poderes e muitos privilégios na empresa, conseguira encaminhar todo o processo de transferência para outra sucursal sediada no interior do Paraná, sem que nada vazasse para além das divisórias que demarcavam a área reservada ao discreto setor de recursos humanos. Tratava-se de um caso de alto risco, em termos de relacionamento humano – o triângulo amoroso com suas três pontas tangenciando o
intramuros da transportadora –, exigindo, portanto, ação rápida, efetiva e, acima de tudo, sigilosa. E o Destino – lei maior que paira sobre os homens, sem que se lhes permita afrontá-la ou
transgredi-la – se encarregaria de determinar o tempo certo do seu desvelamento.

“Se um dentre vós põe em julgamento a esposa infiel, Que pese também na balança o coração do seu marido e lhe meça a alma com cuidado.” (*)

 

Não tardou muito e o caminhoneiro já usufruía do retorno ao sossego reparador da sua casa, ao convívio vivificante da sua família, para o merecido descanso previsto em contrato, de que resultaria o necessário refazimento de energias. Recebido festiva e calorosamente, como sempre, pela amável e dedicada mulher, que o abraçou, entre afetuosa e sensual, e o beijou, ardorosamente, ele retribuiu com os mesmos enlevo, prazer e desejo. Nessas horas, não há
cansaço nem frustração que elanguesçam vontades reprimidas, que emurcheçam o vigor e o frescor de paixões circunstancialmente represadas, que sosseguem e serenem corpos e almas em simbióticas sofreguidão e concupiscência. E os amantes, então, se comportaram como se nubentes fossem e, sob a proteção de Vênus, a luxuriosa deusa romana do amor, se entregaram aos múltiplos prazeres das núpcias. Demasiadamente humanos.

 

Em algum momento, ele perguntou pelo irmão. Ela, sem aparentar qualquer titubeio, sem demonstrar qualquer apreensão, simplesmente levantou-se, o corpo – ainda nu – envolvido em branquíssimo lençol, pés descalços, cabelos em desalinho, alma em plena quietude, suavemente caminhou até a mesinha ao pé da janela fronteiriça e, de uma de suas gavetas geminadas, recolheu o papel dobrado em quatro partes, entregando-o ao marido e voltando ao aconchego do leito do casal. Era o bilhete deixado pelo irmão, o qual ele leu com alguma perplexidade. Uma pausa. A releitura, agora com franzimentos de testa. Olhou para a mulher com olhos de espanto. E lhe fez as indagações mais razoáveis:

– Por quê?! O que houve? Você sabe de alguma coisa?

– Não! Sinceramente, de nada sei. Como você pode ver no bilhete, ele simplesmente decidiu ir embora. Sentimos sua falta no café da manhã. Encontramos a chave pendurada na porta fechada, o quarto bem arrumado, mas sem qualquer de seus pertences, e o bilhete no tampo da escrivaninha. Ele se tinha ido.

– E você não fez nada para descobrir o paradeiro dele?

– Fiz, sim, meu amor! Tudo o que uma mulher solitária, uma funcionária sem influência alguma poderia ter feito. Não obtive respostas. Até no RH, o que me disseram não ajudou muito. Ele teria abandonado a empresa, sem deixar qualquer vestígio, qualquer informação que pudesse levar alguém até ele. Só não procurei a polícia, nem consultei hospitais, por causa do que ele deixou claro no bilhete de despedida. Eu fui até o meu limite, na condição de cunhada obviamente.
– Eu vou descobrir. Alguém na empresa deve saber de alguma coisa. Alguém não some assim, não se evapora, sem deixar pistas. Você acha que eu devia avisar a minha mãe, o povo lá de casa?

– É bem melhor não. Até que você descubra o paradeiro dele. O silêncio, neste momento, pode evitar possíveis consequências graves. Aja com cautela, amor!

 

Passaram-se dias, semanas. O caminhoneiro já retornara às estradas. Levara consigo apenas uma frágil esperança de encontrar o irmão fugitivo. Deixara a mulher com a mesma felicidade de sempre, uma rainha, ou melhor, uma deusa, a quem ele rendia todas as homenagens e dedicava a própria vida. Para ela voltaria, tão logo fosse possível. E esta era a sua sina – andar pelo país, inebriar-se de saudade e sonhar acordado nos braços aconchegantes da mulher amada.

 

“Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes os vossos desejos:

(…)

De voltardes para casa à noite com gratidão;

E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de

bem-aventurança.” (*)

Na manhã de um certo dia, ao levantar-se, ela sentiu o incômodo de uma leve e passageira tontura, mas suficiente a lembrar-lhe que as regras ainda não tinham vindo, já lá se vão alguns dias. Simples atraso do mênstruo por conta de estresse, ou… A náusea, o enjoo, recorrentes, embora plenamente suportáveis, acionaram nela o “start” da desconfiança. No trajeto para mais um dia de trabalho, passou pela farmácia e comprou um teste de gravidez. Seguiu as orientações de uso. O resultado causou-lhe um misto de alegria e receio: estava grávida… mas quem seria o pai? A dúvida da mulher: o marido amado de toda a vida ou o cunhado amante de uma noite de aventura? A certeza da fêmea: o amante! O sentido da Razão: o marido. E que os deuses a protegessem.
A ida ao médico, além de confirmar o que ela já sabia, serviu ao estabelecimento do esquema de procedimentos que visavam ao salutar e hígido encaminhamento da gestação, para o bem de ambos, filho e mãe. Isso mesmo: ela agora era um feliz projeto de mãe.
“Eu vinha, (…) tendo em mim a força da conformação, da resistência e da inércia que faz com que
um minuto depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro volte a sentar na sua banca e
o linotipista na sua máquina, e a cidade apareça estranhamente normal.” (**)

Notas do autor:
(*) Gibran Khalil Gibran, em O PROFETA – Tradução e apresentação de Mansour Challita. Rio de
Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran, 1990; págs. 11, 39 e 14, nesta sequência.
(**) Rubem Braga, em Visão/OS MELHORES CONTOS –Seleção de Davi Arrigucci Jr. – 10ª ed. – São Paulo: Global, 1999; pág. 155.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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