RETALHOS DO COTIDIANO: FOGO FRATERNO – II – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Outra característica é a necessidade de esvaziamento: é um açude cheio que deve sangrar. Transborda. Aí vem o grito, a lamentação, a lamúria, os impropérios e até a blasfêmia; noutros, a confidência; uma certa passividade, porque todo o trabalho de eliminação está sendo feito pelas ideias.” (*)

Mal acomodados na sobriedade, no despojamento e na estreiteza de uma já desgastada cama de solteiro, altar – tão inapropriado quão indigno – erigido apressada e circunstancialmente à bela, delicada, insinuante e exigente Afrodite, deusa grega que preside os prazeres do amor, os amantes pouco – muito pouco, mesmo! – usufruíram do apaziguamento do pós-gozo que naturalmente deflui do cálido e idílico e prazeroso momento de entrega total de corpos e de almas.

Ela, desvestida, ainda se mantinha aninhada ao longo do corpo nu do seu homem, coxas e pernas num entrecruzamento de aconchego, de acasalamento, sob a frágil proteção de um lençol gasto pelo uso, o cansaço do colóquio do amor “in extremis” se esvaindo no reconfortante idílio do afável regaço, a cabeça levemente recostada no robusto peito dele.

Ele, aparentemente plácido, sereno, imperturbável, com o braço esquerdo a envolvia candidamente, a assegurar à fêmea desnuda, ora satisfeita, o agasalho terno e zeloso do macho saciado, a mão espalmada sobre a pele macia e sensual do ventre, ali, no intermédio dos seios fartos e dadivosos e do umbigo indiferente e recluso, e, com o direito dobrado sob a cabeça, servindo-lhe de apoio, conservava o olhar fixo num retalho de céu ponteado de tremeluzentes estrelas, recolhido vagamente através do vão aberto da janela que dava para o quintal e que, silente e impassível, tudo testemunhara.

Ele, embora não se deixando abater pelo fervilhar de questionamentos que permeavam a consciência, preocupava-se, sim, em vislumbrar completamente a encruzilhada em que se metera, sem menosprezar, todavia, o real motivo que o pusera em tão crucial situação, ou seja, o amor – sagrado amor! – que a convivência e o cotidiano, com suas circunstâncias às vezes incontroláveis, insubmissas, incontornáveis, levaram-no a nutrir pela cunhada, mulher do irmão que tão generosamente em sua casa o acolhera, esta mulher destemida, resolvida, intrépida, que ora se submetia a dividir com ele o desconforto do precário e incômodo espaço de uma velha cama de solteiro.

Ela, embora não se deixando aprisionar pelo alheamento ou passividade que a saciedade carnal sempre provoca nos amantes, acariciava o peito nu do rapaz, ora alisando suavemente com as pontas dos dedos os pelos abundantes, ora abrindo com as bem cuidadas unhas estreitas veredas entre eles, o olhar atento nas oscilações bem marcadas da respiração já não mais arfante, ao tempo em que gotejava pingos de racionalidade em meio a tão desvairada e alucinante aventura essencialmente humana:

– Amor, espero que você tenha percebido que esta minha entrega significa uma escolha difícil e longamente amadurecida, que me pôs insone por incontáveis noites de solidão absoluta. Compreenda – eu lhe peço – que, se elegi você como o homem da minha vida, doravante, é porque admiti, como algo inquestionável, que logo teríamos de tornar esta descoberta numa realidade nova, propícia a críticas e julgamentos, mas firme de propósitos e sem previsão de término, algo duradouro. Não se trata de uma simples aventura… na minha vida, amor, isso não se faz mais possível, entendeu?

Ele se mantinha calado, como só lhe fosse permitido apreciar o brilho reluzente das estrelas, que pareciam querer adentrar o seu tão acanhado quarto de dormir, invadir o seu ora anuviado espírito e, então, infligir-lhe o justo castigo de que todo adúltero se faz merecedor. Extasiado, o pensamento vagueava por outros ambientes, por outras vivências, repleto de indagações, de questionamentos, de incertezas, e, o pior, de culpas e de arrependimentos. A rigor, as palavras da mulher se desmanchavam, se diluiam nos desvãos do quarto, sem que ele fizesse algum esforço para ou se mostrasse capaz de recolhê-las no nicho do entendimento, da compreensão.

Ela, ao perceber que dele não recebia a devida atenção, desaninhou-se sem pressa, recolheu as suas roupas no chão abandonadas, esquecidas, calmamente recompôs-se, incluindo uma arrumada nos negros cabelos ligeiramente desgrenhados, e fez-lhe um pedido:

– Me leve para o meu quarto, por favor!

Só então o jovem, que mais parecia dormir de olhos abertos, despertou para a grave realidade. Levantou-se. Vestiu-se precariamente. E, já de pé, tomou delicadamente as dóceis mãos da mulher, fitou languidamente os negros e perscrutantes olhos da fêmea prenhe de dúvidas, e então propôs-lhe:

– Vamos! Eu a acompanho.

E os dois seguiram, de mãos dadas, pelo corredor lateral da casa, no céu anilado a lua em quarto crescente ligeiramente lembrando um “croissant”. Ele sentiu fome; lembrou-se de que nada comera desde o pós-almoço. Ela, mais uma vez, quebrou o silêncio que deles teimava assenhorear-se.

– Amor, eu entendo a sua situação; afinal, ela não é tão diferente da minha. Agora, tão logo o seu irmão chegue de viagem, vamos, nós três, ter uma conversa difícil, complicada, mas definitiva. Não levo jeito para fazer pendular o meu amor entre dois maridos; afinal, nem flor sou. Assim, a separação me parece inevitável. Então, livres estaremos para assumir, de vez, o nosso projeto de vida a dois. O que você acha disso?

– Perdoe-me, mas eu…

Já no umbral da larga porta de entrada da casa, o som do televisor esquecido num dos cantos da sala iluminada irradiando uma grave sensação de drama, ela o convidou a entrar. Ele reagiu:

– Não! Eu não posso! Não tenho esse direito. Não me sinto capaz de causar mais essa indignidade ao meu irmão. A casa ainda é dele. Acho até que fui muito além do que devia. Perdoe-me, você também! – Os músculos da face confrangidos, os olhos desprovidos de brilho e fulgor, uma lágrima retida no ponto lacrimal, entre preguiçosa e temerosa de rolar ladeira facial abaixo, ele se despede abatido. – Boa noite!

Não esperando sequer a resposta, acabrunhado, cabisbaixo e meditativo, retornou ao seu quarto. Ouviu, no silêncio absoluto da noite, o som das voltas da chave no fechamento da porta, ao que se seguiram o desligamento do televisor, o apagamento das luzes da sala, a batida da porta do quarto de casal, onde a amada impossível costumava enclausurar a sua solidão.

“Como na embriaguez, nessa crise aguda põe-se ao claro o temperamento, a educação, o caráter, e, sobretudo, a condição presente da criatura.” (*)

O banho na fria madrugada revelou-se intimidatório. A consciência sobrecarregada ameaçava estourar-lhe os miolos, à medida que ia explodindo em descargas recorrentes de culpas e de arrependimentos. Aproximou-se da janela ainda aberta, absorveu o sopro suave do vento ameno a atingir-lhe o rosto e o peito, contemplou minimamente o céu azul com pingos de ouro cintilantes e amargurou-se: “Deus meu, o que fiz? O que mereço? Piedade de mim, Senhor!”.

Uma dor lancinante se apossou da parte frontal da cabeça – era como se um instrumento pontiagudo lhe penetrasse, impiedosamente, as frontes. Tomou um comprimido e deitou-se, ainda envolto na toalha. Não dormiu, mas, algum tempo depois, sentiu o alívio da dor. Levantou-se, deu uma arrumada no quarto, parceiro de sonhos – alguns realizáveis; outros frustrantes –, de quimeras e de ilusões, confidente de sentimentos – alguns puros; outros nem tanto. Retirou do guarda-roupa a velha mala de viagem, nela recolhendo, com a serenidade de quem já decidira o rumo a tomar, os seus poucos pertences. Vestiu-se. Deitou-se novamente, agora à espera da hora certa de agir… que logo veio.

Sem se despedir, agindo como um ladrão que foge, sorrateiramente e às escondidas, após roubar o que jamais lhe pertenceria, deixou para trás a casa que lhe servira de morada no curso do seu processo vital de amadurecimento – o jovem do interior que se transformara no homem citadino – e o amor que sempre se lhe revelara tão impossível. Cuidaria de dar um novo rumo à sua vida que, ali e agora, experimentava o fim de um ciclo de tamanha expressividade.

E que o irmão não soubesse da traição. E, se viesse a saber, que o perdoasse.

“Um mesmo indivíduo que há anos sairia a correr pela rua, desgrenhado, hoje ficaria inerte, petrificado ou doido de mudez, conforme à modificação que lhe houvessem imprimido as voltas que o mundo dá.” (*)

O ser humano e suas circunstâncias e suas encruzilhadas e suas peculiaridades e suas idiossincrasias e seus estados de espírito. Nada somos se nada sentimos. E o que sentimos – de bom ou de ruim – nutre-se do que nos pode oferecer o nosso condicionamento sociocultural. Afinal, não somos uma ilha.

Nota do autor:

(*) Manuel de Oliveira Paiva, em DONA GUIDINHA DO POÇO / São Paulo: Ática, série Bom Livro, 3ª ed., 1999; pág. 91.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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