RETALHOS DO COTIDIANO – Caça ao insolente, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Faça o que quiser, disse Deus, e depois pague por isso.”

[Ditado espanhol].

Ele reuniu a família – a mulher, professora universitária aposentada, doutora em letras vernáculas, autora de vasta produção acadêmica e parceira resoluta em toda a sua trajetória profissional, a filha e o filho, o genro e a nora, e os quatro netos pré-adolescentes – para um jantar celebrativo, em plena noite de lua cheia que, graciosa, inefável e imponente, desfilava serenamente por um límpido, plácido e estelífero céu azul, na ampla e modernosa sala da mansão de praia, de onde era possível ver o tremeluzir das águas, com pinceladas de mel, de um mar agora calmo, adormecido, querençoso. No banquete, representava o restrito e seleto grupo de amigos apenas um jovem casal, saído há pouco da lua de mel em aprazível serra de muitos encantos naturais; ele, enérgico, veemente e com poucos anos de oficialato, a estrela mais reluzente de sua reduzida e valorosa equipe de auxiliares diretos; ela, esbelta, graciosa, elegante, de futuro promissor, recentemente pós-graduada em medicina pediátrica, com consultório em clínica tradicional.

Há exatamente um ano, quando já se preparava para a tranquilidade da reserva remunerada, ele assumia, após formalmente aceito o honroso convite ministerial, o comando de uma prestigiada e secular unidade militar, sediada em sua sempre amada cidade natal. Assim, a ela retornara não para o merecido repouso do guerreiro, mas para dar continuidade ao que mais gostava de fazer: servir à pátria, em qualquer condição, em qualquer situação; honrar a farda verde-oliva de muitas glórias, que lhe rendera condecorações meritórias.

Em meio ao jantar, à base de frutos do mar, com regalos de um premiado Domaine, o comandante faz rápida interpelação ao oficial de confiança, ora ocupante do primeiro posto à sua esquerda na mesa de mogno, grande, farta e pródiga:

– E o que me tem a dizer sobre a operação Caça ao Insolente, amigo?

– Comandante, a operação foi um sucesso. Concluída há pouco mais de três horas, transcorreu conforme o planejado. Estratégia perfeita, resultado positivo. O tempo há de demonstrar a eficácia da ação.

Vozes de variados tons e motivos e sons da prataria, dos talheres e das taças entrecortam o ar agradável e ameno e dão vida àquele encontro essencialmente humano. Ouve-se, então, o toque perturbativo e insistente do telefone. O filho, gentil e prestativo, atende. Logo reconhece a frágil voz de sua avó paterna, sempre carregada de enormes preocupações:

– Meu filho, diga ao seu pai que o Rodrigo está no hospital…

– Vovó, o que aconteceu com o tio Diguinho?!

– Quiseram matá-lo. Não sei por quê. Um rapaz tão prendado, bonito, educado. Diga ao seu pai…

– A senhora quer falar com ele?

– Não. Não. Basta dizer pra ele que o Rodrigo foi encontrado por populares, numa rua de pouco movimento, o corpo todo lanhado como se tivesse levado uma grande surra. A prestativa equipe duma ambulância prestou os primeiros socorros e ele, já quase sem vida, deu entrada no hospital. Pelo que sei, o caso dele é grave. O seu pai tem de ir até lá pra ver como as coisas estão. Diga tudo isso pra ele, agora!

– Sim, vovó!

– Espero notícias. E que sejam boas!

Há pouco mais de uma semana, percebendo que o seu oficial de confiança mudara o comportamento, demonstrando excessiva preocupação, o comandante quis saber o que o incomodava tanto, ao ponto de deixá-lo tão nervoso. Numa conversa de amigos, na discrição de seu gabinete, soube que “um marginalzinho efedapê, filhinho de papai e metido a besta,” estava assediando a elegante pediatra de futuro promissor. Com galanteios inoportunos e propostas indecorosas, importunava recorrentemente a jovem senhora que, não vendo como pôr um basta naquela situação aflitiva e de altíssimo risco, confiou ao marido a responsabilidade pelo desfecho do caso.

– Quais são os seus planos? Posso saber, amigo?

– Comandante, ainda não tenho um plano…

– Faça o seguinte. Convença a sua mulher a aceitar um encontro amoroso com o indigitado Don Juan, sob a condição de ser em local de pouco movimento, para dar proteção ao bom nome de uma mulher bem casada, e em horário aí pela boquinha da noite. Convoque quatro soldados, os que lhe parecerem mais bem preparados para a tarefa, os quais deverão cumpri-la à paisana e com disfarce. No dia e hora acordados, ela deverá estar o mais distante possível do local do massacre. Então, compareça ao local com os quatro justiceiros, já devidamente instruídos a dar uma boa sova no conquistador de meia tigela. Uma boa surra vai sossegar-lhe o facho. Ele vai aprender a não mais mexer com mulher casada, em especial aquelas que se casam com oficiais.

– Uma excelente ideia, comandante! Vamos pô-la em prática.

– Ah, dê à operação o sugestivo nome de Caça ao Insolente!

O filho narra ao pai, reservadamente, tudo sobre o telefonema da avó. Sem perder a calma, ele pede ao filho que mantenha em segredo o ocorrido, até que tudo pudesse ser esclarecido. Voltou à sala de jantar e, desculpando-se, disse ser imperioso ausentar-se: ossos do ofício. Pediu para que todos permanecessem tranquilos e que continuassem o jantar com a mesma naturalidade. Garantiu que retornaria tão logo tudo se resolvesse. Ponderou que a natureza do cargo que exercia o obrigava a manter sigilo sobre o que reclamava a sua pronta atuação. Ordenou a todos que não atendessem qualquer chamada telefônica e complementou: – Medida de segurança, tão somente isso! Determinou, então, que o oficial de confiança o acompanhasse na empreitada. Saíram sem trocar palavras, sem demonstrar a mais mínima das preocupações.

No trajeto para o hospital, o jovem oficial pergunta:

– O que houve, comandante?

– O pior. O imponderável. – Fez-se um silêncio de alguns minutos. – O Don Juan, o marginalzinho efedapê, você, por acaso, tem ideia de quem seja?

– Lógico que não, comandante.

– Minha mãe ainda vive. Apesar da idade avançada, goza de uma invejável lucidez. Ela é mãe de doze filhos, todos vivos… ou melhor, eu acho que todos ainda estejam vivos. Eu sou o mais velho, o exemplo a ser seguido, a solução de todos os problemas que afligem a família. O mais novo se chama Rodrigo. Nós o chamamos de Diguinho. Nunca quis casar. Segundo ele, não nasceu para isso. – Mais um silêncio de poucos minutos. – Você quer saber para onde estamos indo, amigo?

– Se for possível, comandante… Já me impressiona o fato de o senhor estar ao volante…

– Estamos indo ao hospital. Minha mãe disse ao meu filho, por telefone, que Diguinho teria sido surrado e abandonado, quase morto, em rua de pouco movimento. Descoberto por populares, teria sido levado ao hospital. E para lá estamos indo. Degustar, certamente, o sabor amargo de uma inglória vitória.

– Mas, comandante…

– Deixemos que as nossas culpas nos martirizem no momento devido. Ao hospital, portanto!

E a realidade se fez impiedosa. Pelo relato médico, Diguinho sofrera estragos irrecuperáveis. Apesar de ainda ser cedo para algum diagnóstico definitivo, o atual estado clínico já indicava fratura de duas costelas, da clavícula do ombro direito, perda do olho esquerdo e, o que era bem pior, a quase certa paraplegia. De toda sorte, só o tempo poderia revelar a capacidade regenerativa do paciente.

O comandante assumiu a responsabilidade pelo tratamento do irmão. E que lhe fosse dispensado o melhor dos cuidados. Comprometeu-se, perante os familiares, os amigos e a opinião pública, a tudo fazer pelo desvendamento do caso (como se não soubesse de tudo em relação ao massacre que acabara impondo ao irmão).

Alguns meses depois, renunciou ao cargo de comandante e requereu a reforma remunerada. Pretendia dispor de mais tempo para dedicar-se ao irmão paraplégico e tentar mitigar o seu infortúnio.

O processo investigativo acabou sendo esquecido em algum arquivo da burocracia militar, sem que tenha alcançado a verdade dos fatos. Os quatro justiceiros não chegaram sequer a ser identificados. Coisas da justiça dos homens.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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