Resenha do livro ‘Dois irmãos’, de Milton Hatoum, por Leandra Batista

HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015 (20ª reimpressão) – resenha.

O romance Dois irmãos foi lançado no ano 2000, escrito por Milton Assi Hatoum, nascido em Manaus em 1952. Formado em arquitetura, professor de literatura na Universidade Federal do Amazonas e na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Milton também escreveu os livros Relato de um certo Oriente e Cinzas do Norte.

O livro Dois irmãos, que ganhou o prêmio Jabuti em 2001, já foi adaptado para o teatro, quadrinhos e televisão.

Desde tempos remotos, que se relatam disputas entre irmãos. O livro mais lido do mundo, de acordo com um levantamento do Ibope, a Bíblia Sagrada, também traz pelo menos duas histórias nesse sentido. Numa delas, os protagonistas são os filhos de Adão e Eva: Caim e Abel; por ciúme, Caim mata Abel. Noutra, Esaú e Jacó também se desentenderam porque a mãe tinha preferência pelo filho mais novo: Jacó. Machado de Assis, ao escrever o romance de mesmo nome – Esaú e Jacó, fala dos irmãos Pedro e Paulo, que disputam tudo, até uma tribuna, depois de ambos se elegerem deputados por partidos diferentes. Milton Hatoum, em Dois irmãos, narra a história dos gêmeos Omar e Yaqub, que também têm uma trajetória de desentendimentos e disputas constantes, e põe à reflexão esse sentimento tão presente nas relações familiares – que é o ciúme –, e que faz com que relações uterinas se transformem em tragédias.

A obra relata a história de uma família de origem libanesa, que vive em Manaus, e conta minuciosamente os conflitos entre os gêmeos Omar e Yaqub, rivais desde crianças, idênticos fisicamente, mas de personalidades totalmente diferentes.

A história é contada por Nael, filho da empregada Domingas. Trata-se de um narrador que também participa da história, pois passa o romance tentando descobrir a identidade do pai. E é por meio das memórias de Ralim que o passado é mobilizado para (re)construir uma identidade proibida, pois não se sabe de qual homem da casa Nael é filho.

O romance se passa nos anos que transcorreram após o golpe militar de 1964, tempos difíceis para o país. Mostra um pouco de como a criação da Zona Franca de Manaus, em 1967, alterou a vida dos manauaras. Faz-nos viajar pelas várias etnias existentes em Manaus, à época, como sírio-libaneses, mestiços e, principalmente, índios, que é o caso de Domingas, que, embora tenha crescido junto dos gêmeos, o seu lugar na casa era de empregada. Também nos presenteia com uma Manaus de cores vivas, com suas delícias culinárias, com a beleza da floresta e, principalmente, do rio Negro, em cujas margens a história se desenrola.

A angústia dos irmãos decorre da disputa pelo amor da mãe, Zana, uma mulher linda e forte, que, antes do nascimento dos filhos, vivia um amor ardente e despido de qualquer culpa com o marido Ralim, que a amava incondicionalmente e fazia qualquer coisa para assegurar a felicidade da esposa, até mesmo ter filhos, mesmo essa ideia não estando nos seus planos, por temer que, devido à maternidade, Zana o deixasse de lado e não o amasse com todo o ardor que até então o deleitava.

O casal teve três filhos. Os gêmeos Yaqub – um homem silencioso e, porque não dizer, calculista, pois planejou minuciosamente sua vingança contra o irmão, isso depois de ter sofrido vários anos, sem receber o amor e o carinho da mãe, já que cuidado pela empregada Domingas, enquanto Zana se ocupava do outro, o “filho caçula”, como ficou conhecido no romance – e Omar, uma pessoa sem limites e irresponsável, superprotegido pela mãe que o criou com toda atenção e cuidados, inclusive negligenciando o amor aos outros dois filhos. Zana também teve Rânia, moça inteligente e bela como a mãe, que nunca quis casar-se, pois nutria desejos incestuosos pelos irmãos.

Logo na adolescência acontece a primeira disputa entre os gêmeos: os dois se apaixonam pela mesma garota, Lívia, e, por causa dela, Omar golpeia Yaqub no rosto,o que resulta numa cicatriz tanto no rosto como na alma, durante toda a vida. Por esse motivo, Zana decide distanciar os gêmeos por um tempo. A sua escolha para fazer uma viagem ao Líbano recai em Yaqub, pois não conseguiria viver longe de Omar.

Essa escolha trouxe tristezas, pois o irmão mais velho passa cinco anos longe da convivência familiar e retorna um homem triste, sempre pensativo e principalmente misterioso, embora na sala de aula se revele um excelente aluno, indo estudar em São Paulo. Lá, ele se torna engenheiro e também se casa com Lívia, o seu amor de adolescência. Enquanto isso, Omar,o irmão mais novo,continua em Manaus com sua vida de boemia.

Dentre vários acontecimentos, Zana manda Omar passar um tempo em São Paulo, perto do irmão. Quando ele descobre que Yaqub está casado com Lívia, isso lhe causa revolta, pois Lívia era a paixão de adolescência de ambos. Omar não aceita o casamento, nem a ascensão do irmão e, durante algum tempo, vai transformar a vida de todos num inferno. Isso só terá um fim, quando os gêmeos se encontrarem para o acerto de contas tão esperado, em que a nenhum membro da família será permitido interferir, pois só os dois poderão acabar com essa rivalidade que durou uma vida inteira.

Leandra Batista é Graduanda em Letras pela Universidade Estadual do Ceará, aluna do curso de extensão da UFC – Orquestra de Cordas (violino).

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