A reinvenção do Benfica, por Paulo Elpídio de Menezes Neto

As estiagens periódicas que se sucederam no Ceará perdem-se na memória do nosso povo. Numerosos estudos registram a incidência inclemente desse fenômeno e os seus efeitos sobre a economia e a sociedade cearenses.

O crescimento de Fortaleza, a sua expansão e as pressões sociais produzidas pelas migrações sazonais de populações vindas das regiões mais afetadas do estado estão estreitamente associados ao processo de urbanização da cidade, a partir dos anos 1940.

Até essa quadra e um pouco mais à frente, o perímetro urbano “central” de Fortaleza delimitava-se, grosso modo, salvo imprecisões que os conhecedores apontarão, pela avenida do Imperador, a oeste; a avenida Dom Manuel, a oeste; a avenida Duque de Caxias, ao sul; e, ao norte, pelas áreas contíguas à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Com o aumento populacional da Capital, que vai ocorrer em progressão crescente, desde os anos 1940, dá-se importante deslocamento interno de famílias que trocam os logradouros centrais pela periferia da cidade, determinando, como percebeu justamente o arquiteto Clóvis Ramiro Jucá Neto e colaboradores em um artigo esclarecedor (“A universidade e a cidade – por uma história da arquitetura moderna da UFC”), “significativa expansão da malha urbana, caracterizada pela fragmentação e segregação espacial”. O Alagadiço (Barro Vermelho) precedeu a mudança para Jacarecanga e Soares Moreno, Joaquim Távora, Parangaba, Damas e Benfica; e ulteriormente, em fase mais recente, para a Aldeota e a Praia de Iracema.

Jacarecanga teve a preferência das famílias mais abastadas que lá se instalaram em seus palacetes e bangalôs, bem ao gosto da arquitetura da época. O Benfica, com os recém-chegados, famílias de comerciantes, profissionais liberais e funcionários, não construiu uma paisagem aristocrática, ao contrario, manteve a convivência urbana de moradores de classe-média, as instalações de uma fundição, o prado de corridas de cavalos e peladas de futebol, em torno de Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, criada em 19 de julho de 1934 por Dom Manuel da Silva Gomes, como desdobramento da Paróquia Nossa Senhora do Carmo. Essas características emprestariam ao Benfica a condição de bairro “mais tradicional de Fortaleza”? O feito maior consiste em ter preservado o “velho”, sem frustrar o “novo”.

O Benfica, dentre outras alternativas atraentes, entrou nas cogitações para sediar a Reitoria da Universidade Federal do Ceará, com a consequente projeção de seus campi, no Pici e em Porangabuçu. O projeto inicial contemplava duas outras possibilidades alternativas, a do Palácio do Plácido e a estação João Felipe, pertencente à época, à Rede de Viação Cearense, RVC, em área que se estendia por numerosas quadras, permitiria, com algumas vantagens, a unificação de todas as unidades da UFC. Dificuldades burocráticas e a especulação imobiliária que se exerceram sobre a Universidade e o governo federal, frustrariam essa variante do projeto inicial. O Benfica levou a melhor, em decorrência das condições oferecidas pela família Gentil, cujos herdeiros eram proprietários dos principais imóveis que vieram a ser ocupados pela Reitoria e seus serviços técnicos e administrativos.

O Benfica era, por essa época, um bairro com ares cosmopolitas, embora já não pudesse esconder os sinais de visível decadência, com residências luxuosas de famílias tradicionais que se dispunham a delas se desfazer – e as velhas construções e moradias de classe média que, ainda hoje, convivem fraternalmente com as legiões de estudantes universitários. Os colégios cederam lugar à expansão célere de unidades acadêmicas: assim se foram o Colégio Santa Cecília e o Colégio Americano. Residências estudantis, a faculdade de Arquitetura, o Centro de Humanidades, as áreas reservadas ao curso de Economia, o Conservatório de Música, O Museu de Arte, o Teatro Universitário, a Casa Amarela, as casas de Cultura – ocupam hoje imensa gleba urbana ao longo da Avenida da Universidade. Essa ocupação espacial, com aproveitamento de velhas instalações e a construção de outras tantas, foi obra benfazeja concluída em doze anos, o tempo de reitorado de Antônio Martins Filho, de 1955 a 1967. O bairro ganhou nova vida, os imóveis valorizaram-se. A concentração de uma importante população universitária, permanente ou transitória, surgida nas ruas adjacentes, trouxe à velha Gentilândia o ar renovado dos jovens pelas preocupações intelectuais, espécie de um Quartier Latin que a muitos da cidade passa, ainda, despercebido. O shopping que se instalou nas vizinhanças da Carapinima espelha o viés dos seus moradores, com as suas iniciativas culturais nos amplos espaços de convivência que oferece à toda a comunidade.

O Benfica renasceu com a Universidade Federal do Ceará, foi uma reinvenção de uma realidade em risco de perder-se. A essa remodelagem heróica não faltaram a visão e determinação de Martins Filho, cuja proposta de “renovação cultural” tinha como objetivo, ao qual consagrou a sua vida, promover mudanças nas “condições materiais de existência” de Fortaleza e de seus habitantes. O Benfica de hoje traz em si a imagem forte de seu artífice, de suas mãos e de sua ambição criadora.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *