Receita para destruir uma nação, por Capablanca

Esta semana um empresário lançou um movimento de renovação das práticas políticas no Brasil, deixando-se insinuar que poderá ser ele candidato à Presidência da República nas eleições de 2018. O curioso é que ele lançou o movimento num evento na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Disse ele que na ocasião estavam lá mais de mil comerciantes brazucas.

O general que comanda a intervenção no Rio de Janeiro pediu acesso a mandatos coletivos de busca e apreensão para grupos de moradores da Cidade Maravilhosa, uma aberração jurídica e um evidente desprezo por direitos civis duramente conquistados. E sugere que seria ideal que tudo fosse juridicamente arranjado para que os militares não tenham que responder a “uma nova Comissão da Verdade”.

Noutro dia, outro comandante da mesma corporação militar pede que se estabeleça “uma mudança na chamada “regra de engajamento”, uma espécie de manual das situações em que os soldados podem ou não usar a força contra civis. Com isso, emendou, os militares no Rio teriam “o poder de ferir e chegar ao ferimento letal daquele sujeito que tivesse ato ou intenção hostil”.

Nas redes sociais, nos últimos dias um vídeo dá orientações aos jovens da periferia e das favelas, principalmente os pobres e pretos: não estar nas ruas de madrugada, andar com cópia de mais de um documento (o segundo deve ser a Carteira de Trabalho), ter o celular sempre com carga para informar aos parentes sua localização e registrar imagens de abusos, carregar notas fiscais de eletrônicos de sua posse e, sobretudo, como agir diante de um blitz.

Um fotógrafo da agência de notícias Associated Press fotografou militares fazendo vistoria em mochilas de adolescentes, enquanto outros estavam exigindo cadastros específicos para entrar e sair de seus bairros (de suas moradias, de suas favelas, de suas comunidades, como queiram).

Quando a imprensa perguntou a um comandante militar qual o objetivo da operação na favela Kelson’s, ele explicou: “Queremos mandar um recado para a criminalidade e mostrar que estamos presentes”.

Um candidato fala a uma platéia de empresários é é aplaudido quando diz que vai jogar uns panfletos exigindo a saída dos bandidos da favela. Mas, se eles não saírem, “vai metralhar tudo”.

Agora ligue a sua rádio ou sua televisão e veja do que se fala: assuntos policiais, crime e violência, principalmente. Até a pauta econômica que tradicionalmente domina o noticiário sumiu. Questões sociais? Nem pensar.

Ou a percepção deste que vos escreve está sensível demais, ou vamos todos nos acostumar com um novo Brasil, diferente daquele alegre, descontraído, criativo e espontâneo.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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