Receita geral: jejum, recolhimento e sangria, por Osvaldo Euclides

Seria fácil, seria realmente muito fácil, depois de tanta queda, depois de tanto desastre, produzir algum crescimento do PIB na economia brasileira. Bastaria algum tipo de estímulo creditício ou fiscal, embora esse crescimento tivesse fôlego curto. O certo seria, além disso, estimular demanda e investimento.  Curiosamente, o governo Michel Temer e a equipe econômica Meirelles-Goldfajn não movem um músculo nessa direção.

A atitude dos três homens públicos é em tudo parecida com as fórmulas aplicadas nos primeiros anos que se seguiram à crise de 1929. Naquele tempo também comandavam os fanáticos e radicais do liberalismo. E recomendavam ao doente fraco, anêmico e deprimido que fizesse jejum, se recolhesse e repetisse as sangrias. Em bom economês, austeridade fiscal e monetária. Não fosse a teimosia do presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, e a proposta inteligente do ‘economista’ John Maynard Keynes, a desgraça teria sido ainda maior e muito mais duradoura.

Pois é. O Brasil está adotando hoje a receita vencida e superada desde a longa Depressão iniciada em 1929. Dizem os dogmáticos que com fé e esperança tudo pode acontecer. Embora a economia já tenha história e trajetória para indicar os bons e os maus caminhos.

Para muitos historiadores a Segunda Guerra aconteceu por causa da má condução dos vitoriosos na construção dos acordos de solução da Primeira Guerra. As penas e as multas impostas aos derrotados eram severas demais. E a austeridade imposta aos vitoriosos era estranhamente drástica. E alguns estudiosos dizem também que a economia só se recuperou porque houve uma Segunda Guerra, que teria acionado as esferas da engrenagem de produção pela demanda sem fim e sem critério do próprio esforço de guerra.

Não se trata de pensar que precisamos de uma guerra para ter de novo crescimento econômico e desenvolvimento social. Não, longe disso, pelo contrário. A história fornece no passado recente do Brasil e do mundo as experiências bem sucedidas (assim como os fracassos cantados em prosa e verso).

Entre 1945 e 1975, o mundo experimentou crescimento econômico e desenvolvimento social com qualidade, com continuidade, com justiça. Não foi assim tão difícil. Foram ações inteligentes, deliberadas e articuladas naturalmente. Na Europa, o investimento pesado e o direcionamento para o Bem-Estar Social. No Japão, desarmamento militar e de espíritos, gestão e mobilização de investimentos. Na América do Norte, uma espécie de coordenação geral e exploração inteligente das ‘oportunidades’. Os dois grandes comunistas, China e Rússia, escolheram caminhos diferentes, um cresceu, o outro apenas sofreu. O Brasil? O Brasil foi um sucesso – entre 1946 e 1969 cresceu como ninguém, como nunca.

Foram as três décadas de ouro da história (1945-1975) da política econômica. Parece que há um esforço para esquecer tudo isso, esse tudo de bom. Quando o mundo ocidental botou o pé no freio e adotou o fanatismo neoliberal (Ronald Reagan e Margareth Thatcher à frente no início dos anos 1980), e fez da austeridade monetária e fiscal o seu deus, a China, que vinha mal,  pisou no acelerador e botou toda a máquina do Estado para trabalhar pelo desenvolvimento. E virou o jogo em trinta anos. A Rússia comunista não soube lidar com a crise que a desafiou nos anos 1980 e acreditou que era preciso reestruturar-se (aparentemente) em moldes capitalistas – não é uma má escolha, pelo contrário.

Crise, mais crise, é o discurso fanático, dogmático, quase cego. Austeridade, mais austeridade, é o único remédio. Jejum, sangria e recolhimento, a receita geral. E os empresários parecem gostar e apoiar. Como entender?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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