Raw: E o exercício do terror além do horror

O cinema de horror tem sido nos últimos anos colocado em perspectiva por uma leva de obras que mesclam códigos tradicionais do gênero com novos elementos, sobretudo advindos da interpretação de uma leva de autores da cinematografia contemporânea.

Uma dessas autoras é francesa Julia Ducornau. Com seu terror dramático “Raw”, que no português diz respeito à expressão francesa “é sério”, a diretora nos apresentou um trabalho autêntico tecnicamente e que nos induz à reflexões sutis acerca dos distúrbios humanos na pós modernidade.

A estória acompanha os dias de Justine (Garance Marillier), uma jovem vegetariana que após passar por um ritual de iniciação na faculdade de veterinária, passa a sentir um desejo incontrolável de comer carne em qualquer acepção.

Falar do longa enquanto contexto é interessante porque nos dá a oportunidade de pensarmos de forma mais abrangente como esse atual cinema de terror tem montado suas bases conceituais. Uma vez que em seu primeiro longa-metragem, Julia mistura gêneros e temáticas para construir uma narração que dialoga diretamente com o seu tempo.

Mas que tempo é esse? E como essa narrativa se desenrola para o desvelamento da estória ali posta em cena? Em primeiro lugar, vale refletirmos sobre como o lugar do horror é testado e tensionado na experiência fílmica. O longa abre mão da necessidade de se usar dispositivos usuais como “jump scares”*, por exemplo, em detrimento de outros códigos sensoriais como a repulsa ou o estranhamento imagético.

A experiência do filme de terror em Raw é assimilada por meio de outras vias, como distúrbios detonados em meio à pós-modernidade

Ou seja, é termos a experiência do filme de terror assimiladas por meio de outra vias. Quando, por exemplo, percebemos toda a atmosfera de opressão operada em cima de Justine, enquanto Caloura na vida universitária. Ou das sequências em que ela mesma vai se percebendo uma canibal e que perigosamente não pode conter seus impulsos, até então desconhecidos.

É claro que existem cenas em que esse horror se apresenta a partir de imagens mais estilizadas, como as partes de corpos decepados e o sangue, que nesse caso, surge muito mais como um elemento conceitual ao invés de meramente estético. Uma vez que está ali na cena não para chocar, mas para compor uma mise em scene, ou posta em cena que joga a estória para frente.

Há momentos em que o longa trabalha uma estilização maior do horror, mas o terror  surge no filme mais como elemento conceitual ao invés de meramente estético.

No entanto pensar filmes como Raw é termos a chance de refletirmos novas possibilidades de apreciação narratológicas. É olharmos o espelho da construção cinematográfica de gênero contemporânea e atestarmos que há realizadores pensando olhares alternativos. E pondo essas visões em prática por meio de suas obras.

E tomar o diálogo como uma chave para a compreensão de obras como essa é essencial, não apenas para entendermos “o filme”, mas observamos para além dele mesmo. É notarmos como produções como está estão inseridas num contexto maior. Que envolve uma teia de obras ligadas pelos topos que encerram Países, no caso de longas surrealistas, de terror com variações tonais surrealístico-dramáticas realizados na Europa nos últimos 20 há 10 anos.

Já que diante de Raw vemos muito do cinema de Xavier Dolan, quanto à representação de uma juventude em constante conflito com ela mesma. Ou de Michael Haneke, com a apatia de comunidades imersas na pós-modernidade e suas brutais contradições. Vemos discussões importantíssimas diluídas numa aventura narrativa que se coloca veladamente sem pretensão, mas que carrega consigo alguns dos mais pertinentes debates de nosso tempo.

Para enxergarmos essas variações, no entanto, precisamos nos despir de conceitos concebidos previamente e irmos para a aventura do filme totalmente desarmados. Aptos para nos deixar absorver pela estória estando atentos para absorver os tons mais profundos que ele nos dá. Refletindo e imaginado o terror para além do horror. E o cinema para além dos próprios códigos de que ele mesmo se fez ou faz construir.

 

*O Jump Scare é uma das mais básicas técnicas usadas em filmes de terror e nas linguagens de video game na intenção de causar sustos no público a partir do aparecimento súbito de alguma figura na tela ou a partir da mudança entre os planos ou imagens que são apresentadas e alternadas.  Em sua maioria, os jump scares vem acompanhado de um som ou trilha de fundo para potencializar a sensação do susto ou do medo que a imagem suscita.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Grave

Tempo de Duração: 139 minutos

Ano de Lançamento (FRA): 2016

Gênero:  Drama, Terror

Direção:  Julia Ducornau

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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