QUEM É O DEUS BRASILEIRO?por Rafael Silva

A vida humana é a mais complexa forma de vida que conhecemos! No seu sentido biológico, guarda elementos idênticos, em todas as suas formas, sem exceção, possui o mesmo radical genético – 20 aminoácidos e 6 moléculas fosfatadas. Para L. Boff a vida é “o último rebento genealógico… a expressão mais complexa da biosfera, obra de um ser supremo, que ainda somos incapazes de compreender em sua totalidade”.

Do ponto de vista econômico, a vida é objeto do cuidado destinado à casa em que habitamos. Com relação ao olhar político, não se pode suportar qualquer coisa fora da preservação da vida. Na teologia, a vida é a garantia divina da existencialidade. Preservar a vida é denunciar o deus Moloch, que cultiva seus filhos para devorá-los. Esse deus é a própria expressão da violência social. A mais profunda ausência de responsabilidade com a dignidade humana, pois se materializa na maior chaga social do milênio: a pobreza.

Para Ellacuría, precisamos nos expor à dialética da pobreza. Fugir dessa realidade é negar o rosto do oprimido, a opção preferencial pelo pobre precisa vir desvinculada da sistematização em torno da pobreza. Tem-se aqui dois movimentos práticos: inicialmente, presume-se ação de superação da ordem social e historicamente construída na famigerada globalização; depois, constitui-se na consequência de fazer do pobre o princípio estruturador da nossa sociedade. Nesse sentido, a pobreza pode ser vista a partir de dois conceitos: um negativo, e outro positivo. O negativo considera pobre todo indivíduo que não possui condições materiais (leia-se econômica) para suprir suas necessidades. O conceito positivo se revela no sentido de se fazer solidariamente pobre, estar junto com ele na luta contra toda espécie de injustiça e contra os poderosos. Precisamos atuar nas duas frentes, contudo é preciso compreender a dimensão do problema para encontrar mecanismos de solidariedade capaz de superá-los.

Com intuito de construirmos a primeira frente precisamos compreender que nunca a história registrou tantos homens vivendo em horríveis condições como as de hoje. As estatísticas oficiais da FAO e das Nações Unidas estimam que pelo menos 815 milhões de pessoas estejam expostas à fome no mundo. Isso significa 11% da população mundial. Abrindo os dados percebemos que desse grupo, 489 milhões (60%) vivem nessa situação, em decorrência de conflitos armados, dessas 155 milhões são crianças. Observa-se ainda que 6 milhões de crianças morrem em situações motivadas pela fome. Um rápido cálculo permite dizer que: todos os dias 16.438 crianças morrem. Isso equivale a 648 crianças, por hora e 11 inocentes, por minuto.

A realidade brasileira é assustadora, mesmo apesar de profundos avanços. As estatísticas oficiais revelam que 16,2 milhões (para o Gov. Federal) e 21 milhões (para o IBGE) de pessoas estão em condição de pobreza extrema ou miséria absoluta. Essas pessoas não são alcançadas por programas federais, como Bolsa Família. Em 2017, voltaram a essa condição, cerca de 3,6 milhões. As razões talvez sejam explicadas pelo baixo ciclo da economia e restrições de acesso a bens básicos, devido aos ajustes irresponsáveis dos governos.

O Nordeste brasileiro é o local onde a pobreza é mais áspera. Cerca de 916 milhões ou 18% da população está em condição de pobreza absoluta; desses, 46,7% vivem no meio rural e 53,3% no meio urbano. No Ceará, o número de pessoas em condições de pobreza atinge 10% da população, seguindo as mesmas proporções estatísticas, para o meio urbano e rural. Em outras palavras, o pobre é o ser humano dado em sacrifício para o deus Moloch.

Diante desse cenário, só nos resta um caminho, assumir a opção preferencial pelos pobres. Essa frase sozinha parece inerte, até certo ponto teologal, mas se insere num contexto mais concreto que passa necessariamente pela economia, pela sociedade e pela ecologia. Nossa opção preferencial pelos pobres não significa ser contra os ricos, mas consiste noutra gramática de lutas por distribuição da riqueza gerada.

Para tratar a questão econômica e social é preciso ter noção da sua dimensão. Com isso, chamo atenção aos dados da OXFAM que indica o aumento de bilionários em tempos de uma devastadora crise financeira, do imoral enriquecimento de 1% dos mais ricos. Nesse cenário, apenas 8 pessoas detém sozinhas o equivalente àquilo possuído por 50% dos mais pobres. Isso é o retrato de uma economia adoecida, apodrecida, a economia de Moloch. A situação se apresenta tão extremada que já não podemos aceitar ajustes. Boaventura defende que não precisamos de uma alternativa à globalização, senão de uma globalização alternativa. Caso contrário, não daremos conta das mazelas sociais que aviltam a classe trabalhadora. A sociedade,, por ser distribuída em verdadeiras castas, é convidada a sanar um problema que ela mesma promoveu. Nesse contexto, a luta entre as classes é inevitável e ocorre de forma absolutamente desprovida de sentido político. Verdadeiras guerras são financiadas em virtude da desigualdade. Caso você se haja nascido na periferia da América Latina, seja negro e do gênero masculino você tem – de partida – 56% de chances de ser assassinado antes de completar 18 anos. Isso reflete uma sociedade enferma, degenerada e sem condições aparentes de indicar uma saída.

Por isso, a crise ecológica é o elemento central. Quando se fala em ecologia imagina-se falar da fauna e da flora. Mas, não é apenas isso. Ecologia é o termo criado pelo biólogo alemão Haeckel para relacionar sistemas vivos e não vivos. L. Boff, observa precisamente quatro formas de ecologia, discutidas atualmente. A primeira é a ambiental – que se preocupa com a qualidade de vida e o equilíbrio dinâmico que nos mantém vivos; depois a ecologia social preocupada com a injustiça, a violência e a desigualdade; seguida da ecologia mental, retratada na sensibilidade profunda que visa resgatar a noção perdida do sagrado; por fim, a ecologia integral argumenta que o universo ainda está na sua gênese. Passando por cada uma dessas dimensões é que percebemos quão enorme é o desafio.

Por que esse movimento holístico é necessário? Uma pista é dada em Ellacuría, quando afirma que “é preciso identificar sociopoliticamente o pobre e as causas de sua pobreza”. Devemos questionar não por que há luta entre as classes – diante desse cenário isso é inevitável – mas nos questionarmos por que há classes. Isso parece um caminho ainda abstrato, mas necessário, capaz de escandalizar e denunciar. Por fim, você deve ter levado pouco mais de cinco minutos para ler este pequeno texto. Nesse intervalo, 55 crianças tiveram suas vidas interrompidas pela fome. Quem é o Deus brasileiro? O Deus brasileiro, só pode ser o deus Moloch que come suas criaturas.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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