QUATRO ASES E UM CURINGA*, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Eu tenho interesse por doido danado**. Porque eles veem as coisas de um ponto de vista original. Não é? E isso é uma característica do escritor, também. O escritor verdadeiro não vai atrás do lugar-comum. Ele procura o que tem de verdade por trás da aparência.” (Ariano Suassuna, em vídeo postado em rede social).

PRECONCEITO Nº 1

Ela, já com quase meio século de existência terrena e com peso corpóreo bem acima da média exigida pelos ditames de uma sociedade hipócrita, caminha apressadamente pela calçada da avenida Duque de Caxias, mais precisamente pelos fundos do santuário do Sagrado Coração de Jesus, ali bem próximo da Cidade da Criança. Ouve, então, uma voz masculina:

– Se for rolando vai chegar mais rápido…

Ela para, olha fixamente para o jovem sentado em um dos degraus de acesso à porta traseira da igreja e diz com tranquilidade de causar inveja ao mais fervoroso e paciente dos frades franciscanos:

– Ó belo e saudável jovem! Só não lhe dou um abraço bem fraterno porque estou um pouco suada…

E o insultuoso jovem mantém o seu jeito preconceituoso de ser:

– Deus me livre e guarde de me afogar nessas banhas!

E ela, com a mesma calma, retruca:

– Interessante, sabe que você tem razão. Eu poderia causar um grave estrago nesse seu corpo esquálido… de quem já morreu e não foi avisado… quebrar-lhe algumas costelas… É bem melhor que deixemos as coisas como estão, você não acha, amigo? Passe bem!

Retomou, então, o seu caminho, com a mesma urgência de antes, sem olhar para trás, sem dar atenção a quem não faz por merecer.

PRECONCEITO Nº 2

Num dos largos bancos de base de ferro e assentos de madeira, sob a aprazível sombra de frondes de velhos oitizeiros, no bosque central do campus universitário, área de convivência de alunos e professores, jovens que compõem um seleto grupo de aprendizes conversam alegremente sobre amenidades. Aproveitam o intervalo de aulas.

De repente, a garota de cabelos alaranjados que vão até os ombros, óculos de correção, pele clara, conjuntinho de grife e tênis de marca universal, demonstrando estar incomodada com a proximidade de um colega afrodescendente – da etnia balanta e originário da República da Guiné-Bissau, na costa centro-oeste do continente africano –, que ao lado dela se senta, levanta-se abruptamente e se retira esbravejando:

– Catinga de negro…!

Eu, o mais velho do grupo, com idade para ser progenitor de todos eles, entendo, então, que devo ocupar o vazio deixado pela garota preconceituosa. Sento-me naturalmente ao lado do ser humano que lhe causou tamanho incômodo. Num simples contato de pele – braço com braço – e de conversa, logo percebo que, sob aquela pele cor de ébano, há um ser humano de alma cristalina, de apurada sensibilidade, de contagiante sorriso, de admirável inteligência, de consciência plena sobre o seu papel no mundo, de humildade e compreensão suficientes a capacitá-lo ao enfrentamento dos abomináveis gestos de uma sociedade hipócrita.

E quando o silêncio quis emudecer as relações do grupo – demasiadamente humanas –, agora já quase se desfazendo ante o término do intervalo e o chamado da sala de aula, declarei com a voz vibrante que me é tão peculiar:

– Cheiro de gente!

PRECONCEITO Nº 3

À boquinha da noite, pai e filho pré-adolescente caminham na tranquilidade de uma das ruas que interligam as avenidas Jovita Feitosa e Bezerra de Menezes. Vestidos com o uniforme de seu time de coração, retornam para casa, nas proximidades de onde já se acham, após assistirem, no estádio Presidente Vargas, à primorosa exibição e à merecida vitória de sua agremiação preferida.

De repente, o susto de uma brusca freada de carro. Ao lado deles, para uma Mitsubishi Pajero escura, de onde descem dois indivíduos altos, corpulentos, embrutecidos. Armados de tacos de beisebol, os brutamontes amedrontam apenas pela aparência.

Com agressividade preconceituosa, encurralam seus desafetos contra o alto muro de uma residência, os quais, não podendo esboçar qualquer reação, limitam-se a pedir que não os molestem fisicamente, com o pai, em atitude protetora, interpondo-se entre os malfeitores e o filho em transe.

Quando tudo parecia perdido, pai e filho são salvos pela ação corajosa de pessoas que costumam transformar a calçada de suas casas em polo de convivência, onde sobejam agradáveis conversas sobre o cotidiano. Todos se levantam e, embora não portando qualquer tipo de arma, enfrentam os brutamontes que, agora em desvantagem numérica, entram, covardemente também, na Pajero e fogem em alta velocidade no sentido da Bezerra de Menezes.

Traumatizados, pai e filho pré-adolescente já não mais curtem sua paixão futebolística em espaços públicos.

PRECONCEITO Nº 4

Aos dois meses, ela foi abandonada. Por quê? Simplesmente porque nascera sem braços e com imperfeições nas pernas que projetavam crescimento em desconformidade com o resto do corpo.

Uma senhora de posses a recolheu e criou-a como se filha dela fosse.

Aos 14 anos, Lorelai – este é o seu nome de batismo – participa de um desses programas televisivos que oferecem oportunidade à genialidade humana até então anônima.

E a sua atuação é mais que empolgante, chega a ser comovente.

Tocando piano com os dedos dos pés, ela a todos encanta com voz harmoniosa, agradável, inimitável.

E a letra da música (tradução) dizia assim: “Nas asas de um sonho / (…) / Nossos corações batem como uma borboleta / (…) / É incrível o que os sentimentos podem fazer / (…) / Siga seus sonhos / Siga seu coração.”

Uma lágrima cálida escorrega lentamente pelo meu enrugado rosto.

PRECONCEITO***

Tão velho, velha!

Tão negro, negra!

Tão pobre, pobre!

Tão magro, magra!

Tão gordo, gorda!

Você ainda não percebeu, entretanto,

que, ao mergulhar nos defeitos meus,

acaba se descuidando de todos os seus:

tão expressivos e perceptíveis quanto…

Viva da melhor maneira que puder.

Cuide das rosas do seu belo jardim.

Liberte-se integralmente de mim.

Deixe-me com meus espinhos viver.

Por que inquietar-se com minha quietude?

Por que incomodar-se com minhas diferenças?

Meus excessos? Minhas carências?

Jamais serei o que você quer que eu seja.

Não nasci pra ser seu espelho… Ora, veja!

Ao seu amorfo padrão não me amoldo.

Sabe por quê? Porque [Deus esteja!]

sei ser feliz com os meus defeitos

e até invejado pelas minhas virtudes.

Não ria! Sorria… Apenas isso.

Post scriptum:

* Título incidental [Ases = notáveis em suas especialidades. Curinga = versátil; capaz de desempenhar múltiplas funções]. Nome de conjunto vocal e instrumental formado, na década de 1940 e no Rio de Janeiro, por cinco artistas cearenses, entre eles os três irmãos Pontes de Medeiros (Evenor, José e Permínio). De suas músicas, lembro-me bem de uma que dizia assim: “Eu só queria / Que você fosse um dia / Ver as praias bonitas / Do meu Ceará! / Tenho a certeza que você gostaria / Dos mares bravios / Das praias de lá.”

** Ariano quis dizer: “Eu tenho um interesse danado por doido”. Na fala, não raramente as frases adquirem estruturas diferentes.

*** Xykolu, em MY BOOK OF THE FACE 2, pág. 20.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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