Quando a fragilidade da oposição enfraquece a democracia, por Cleyton Monte

Ao acompanhar os movimentos da política cearense nos últimos meses, vejo com muita preocupação o esforço dos principais líderes de se distanciar do papel de oposição. Eunício Oliveira é dado como certo na chapa governista, Tasso Jereissati se distancia cada vez mais da disputa majoritária, Capitão Wagner bem que tentou, mas provavelmente disputará uma vaga no Legislativo e Domingos Filho parece não encantar os partidos oposicionistas. Os motivos são conhecidos. O governador Camilo Santana conseguiu, nos últimos anos, desmobilizar a oposição na Assembleia Legislativa, sua gestão tem sido aprovada pela população e, num cenário de crise política e Lava Jato, nenhum líder quer arriscar-se numa disputa incerta. Caminhamos então para uma eleição de baixa competitividade. O que isso significa para a democracia?

Grandes teóricos da democracia (Bobbio, Dahl e Sartori) destacaram a importância de uma oposição forte, responsável, coerente e programática para o arranjo democrático. Qualquer governante, por mais progressista e bem intencionado que seja, deve ter seus planos analisados por grupos de oposição. O ideal seria que essas forças tivessem se organizado desde a última eleição (2014). Compreendo que o resultado das urnas serve não apenas para indicar os ocupantes dos cargos públicos, mas possibilita vislumbrar quem serão seus opositores. Certamente a política não é estática e as alianças são comuns no processo democrático, entretanto, se torna incompreensível para o cidadão comum acordos realizados entre líderes que trocavam acusações gravíssimas no pleito anterior. A busca desenfreada pelo poder acaba destruindo qualquer possibilidade de coerência. Esse tipo de movimento não é contemporâneo, a história cearense registra uma série de uniões e pactos entre os mais diferentes políticos. O interesse público raramente entra nesse cálculo.

Fazer oposição não quer dizer atacar agressivamente os ocupantes dos cargos de destaque na administração ou articular uma união artificial; sua efetivação envolve a existência de uma agenda propositiva e alternativa. As maiores forças de oposição não conseguiram construir um projeto que unisse diferentes partidos – os egos foram mais poderosos. O PSOL possui uma pauta de projetos modernos, mas dificilmente terá viabilidade eleitoral. Assim caminha nossa democracia. Cid Gomes, que se colocou como oposição ao PSDB cearense nas eleições de 2006, nunca criticou diretamente os governos das mudanças. Se os ventos locais e nacionais não mudarem, Camilo Santana, eleito pelas forças governistas, continuará no Palácio da Abolição, mas se engana quem aposta que um bom governo nasce da ausência de contestação.

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM), membro do Conselho de Leitores do O POVO e professor universitário.

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