Projeto Flórida: E o cinema como ferramenta para a quebra de regras

Existe uma beleza e austeridade por vezes velada, outras vezes evidente, em alguns trabalhos da cinematografia contemporânea. Esse balanceamento é um índice muito particular que observamos no exercício de alguns realizadores e seus filmes. Sean Baker é um desses nomes. E em seu segundo longa-metragem, ele aponta sua lente para as famílias e pessoas que vivem nas margens de um Estados Unidos da América pouco explorado.

Mas não nos enganemos, em Projeto Flórida (2017)*, o diretor não nos vem contar uma estória reacionária. Ambientado ao longo de um verão, o filme segue a rotina da preciosa Moonee (Brooklynn Prince), uma menininha de seis anos de idade que passa os dias aprontando junto com seus coleguinhas nos arredores do Hotel Magic Castle, em Orlando. Para além da primeira impressão que a sinopse pode trazer, Baker nos entrega, na verdade, um dos filmes mais potentes de 2018.

Para entendermos isso temos de olhar para além das aparências. Não estamos diante de uma comédia, um filme de conotação temática “livre” ou de um drama em seu sentido mais clássico. E ao mesmo tempo, estamos diante desses elementos. A concisão na costura do roteiro escrito por Baker e Chris Bergoch e a operacionalidade entre os aspectos técnicos como fotografia e montagem, por exemplo, garantem a sustentação da obra.

Ao dar um enfoque e ter o universo pela perspectiva de um grupo de quatro crianças, o filme congruentemente possui suas camadas ou variações tonais da comédia. Essas crianças são travessas, transgressoras, terríveis, mas também são encantadoramente inteligentes e todos esses traços juntos nos dão a leveza de que falávamos anteriormente e vemos em cena.

E quando a lente do longa se volta para o universo e os conflitos dos adultos, os tons mais densos da obra vão se misturando à sutileza contida no arco das crianças. Daí, a irresponsabilidade e a pressão de um cotidiano implacável marcado por oportunidades de melhoria de vida omitidas se misturam na contida miscelânea de conceitos de uma infância “semi blindada” contra tudo isso. Ou seja, a dureza está inerente à leveza e vice e versa.

A contradição é, por isso mesmo, um dado muito forte na obra como um todo. Baker tenta não rotular seus personagens. Tudo é apresentado em sentido e forma fílmicas do modo mais naturalista possível. As crianças estão super à vontade em seus papeis e aqui o senso de incorporação dos discursos e ações que o olhar infantil entrega à vida é comovente. Nós nos apegamos a esses pequenos e passamos muito tempo com eles à medida que a metragem de 1 hora e 50 minutos avança.

O filme seria, por essa razão, longo? Não acredito nisso. Afinal, como medir a durabilidade da experiência que o cinema é? E no tempo que cada obra pede ou se compõe, a duração se torna relativa. Em “Projeto”, ela se dilata porque Sean acredita que esse tempo esticado é essencial para entendermos e emergirmos na dinâmica dessas crianças, uma vez que elas são as protagonistas. Mas não sejamos tão exigentes quanto a isso. O cinema tem de ser uma experiência de imersão em maior ou menor medida.

Esse emergir, em termos de estética, ocorre também no modo como a fotografia foi pensada de modo a nos fazer sentir cada textura e odor que, nesse caso, vemos sinestesicamente nas cenas. As imagens produzidas por uma lente de 35mm são de fato únicas. E Baker a escolheu tanto por questões estéticas quanto por um senso de preservação da técnica e dos materiais que o filme e a celuloide carregam na história do audiovisual. Em linhas gerais, ele justificou o uso da “gloriosa 35 mm por meio de duas linhas. Pelos longos planos em tracking shots no acompanhamento dos personagens em seus trajetos e pelas composições dos planos que nos contam cada parte da estória ali descrita.

O uso da câmera 35mm deu ao filme uma estética belíssima ao mesmo tempo em que coloca em pauta o uso técnico do filme como preservação ainda nos dias de hoje.

Em uma determinada sequência, vemos as crianças desativando a caixa de energia geral do hotel. Temos um plano aberto, em mastershot, do prédio todo. Aos poucos, os moradores vão saindo um a um dos seus quartos. O burburinho começa, seguido das reclamações. Tudo é apresentado como se víssemos uma maquete. Em outro plano, vemos Bobby, o gerente do hotel (ternamente interpretado por Willem Dafoe), que restabelece a energia, caminha pelo pátio enquanto é irônica e carinhosamente ovacionado pelos moradores. É uma construção fílmica simples, direta e por isso mesmo brilhante.

A anatomia de um excerto como esse diz muito da natureza de Projeto Flórida em sua totalidade. Temos o componente estético, de composição dos quadros, dos modos como as composições são idealizadas e da leveza de uma câmera que captura um personagem que é apresentado como um super-herói da vida real. Ele é uma figura grandiosa, e o uso do steadcam em toda sua leveza nos dá uma imagem de Bobby triunfal na resolução do problema posto anteriormente.

Mas também há o componente narrativo. Onde em uma única cena, Sean Baker cria uma micro estrutura, quase particular, no sentido de uma pequena estória que passa a ser contada com início (a queda de energia) meio (a reclamação dos moradores) e resolução (com o restabelecimento da luz pela ação de Bobby). E do apanhado de uma série de sequência ou fragmentos organicamente orquestrados é que temos esse que é um filme para ser lembrado décadas a fio.

Na sua conclusão, o longa tem seu momento alfa na insustentável situação que traga os adultos e sobretudo a mãe de Moonee, Halley (Bria Vinaite), bem como as crianças. E se o que o espectador passa a querer depois de 1 hora e 40 minutos de projeção é um final feliz, o filme faz sua escolha não com base em um escapismo esvaziado de sentido. Ele troca a lente. Substitui a 35mm pelo iPhone 6s e parte para o cinema no modo “guerrilha”.

Ele o faz por entender que, se é isso o que o público quer, então ele terá de topar o jogo, pegar na mão dessas crianças e dentro da cabeça delas, acompanha-las até o fim dessa estória. Você terá de entrar na Disney de maneira não autorizada. Esse é o brilho de um trabalho como Projeto Flórida. Um filme que não é politicamente correto, e que entende que o cinema pode ser contra as regras e não necessariamente contra as leis. Mas certamente a maior transgressão que Baker faz em seu filme é apontar suas lentes para os locais, pessoas e situações pouco abordadas seja em Hollywood ou no exercício do cinema como arte em sua totalidade.

 

* Projeto Flórida está em cartaz nos Cinemas do Dragão e RioMar Shopping em sessões diárias e merece ser visto.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Florida Project

Tempo de Duração: 111 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2017

Gênero: Drama, Comédia

Direção: Sean Baker

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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