Procrastinação estruturada, por Weluilson Silva

Aquele velho “deixa pra depois” é comum na vida dos brasileiros, os maiores conhecedores da arte da procrastinação – embora isso também exista em outros países. Quem nunca deixou de fazer uma coisa importante para olhar as redes sociais, ou executar outras tarefas sem tanta importância, não sabe o que é procrastinar.

O filósofo John Perry, escritor de “A arte da procrastinação”, diz que o procrastinador estruturado é aquele que, apesar de tudo, realiza várias tarefas valiosas. Para Perry, “o procrastinador pode ser motivado a fazer tarefas difíceis, convenientes e importantes, desde que essas tarefas sejam uma forma de não fazer algo ainda mais importante”. Portanto, acabamos descobrindo aquilo que gostamos de fazer, associado a não fazer aquilo que é relevante.

Quando eu ainda estava na faculdade, descobri que gostava de escrever, mas não escrever coisas tão significativas, e sim coisas aleatórias. Por exemplo: estava eu escrevendo meu trabalho de conclusão do curso de comunicação, e parei para procrastinar, escrevendo o momento em que estava vivenciando. Eu o descrevi como um momento de loucura, pois via a escrita como desabafo e equilíbrio do estresse. Não nego que sou excelente procrastinador, mas quem nunca procrastinou que atire a primeira pedra.

Os escritores são bons em procrastinar, porque é a forma que usam para buscar inspiração. Daqueles 99% transpiração, 80% são procrastinação. Escutar uma música, tomar uma cerveja ou fazer qualquer outra coisa que adie a introdução de um romance ajuda um pouco na construção dela.

O nosso povo é admirado porque sabemos procrastinar com convicção – o sistema público que o diga. Os poderes executivo, legislativo e judiciário do país são conhecedores de uma boa procrastinação, leis importantes adiadas, para serem aprovadas outras menos importantes. Talvez esta seja uma característica destes três poderes.

Um país lindo como o Brasil é impossível que não fosse alvo de procrastinação: como apreciar as pequenas coisas, sem deixar as importantes para depois? Até mesmo os estrangeiros tiram um tempinho para procrastinar aqui no nosso belo país.

A procrastinação é cultural, e não é à toa que somos o país do carnaval, porque realmente somos excelentes nisso. Além do mais, podemos usar o feriado a nosso favor. O país para com o intuito de procrastinar. Desde adiar a leitura de um livro até a participação da maior festa do mundo (carnaval), esse ato é conhecido como procrastinação.

A procrastinação é um lazer e uma forma de equilibrar o estresse e a felicidade, pois quando tiramos férias, viajamos, lemos coisas fúteis, como revistas de carro ou esporte, e tomamos água de coco na praia, enfim, procrastinamos. Feliz são aqueles que sabem e podem procrastinar com excelência. Pesquisas apontam que quem viaja é mais feliz, e isso tira qualquer dúvida sobre a questão.

Há quem viva disso.  Os publicitários que o digam – faz parte do processo de criação, porque fazer o que realmente importa implica sempre precisar pensar fora da caixa. Foi procrastinando que Steve Jobs pensou e criou o IPod, dispositivo de áudio que armazena milhares de músicas sem memory card ou CD.

As grandes empresas de inovação como Google, Facebook, Walmart e outros disponibilizam espaços de lazer na área de trabalho, eles já adotaram a procrastinação como método estratégico.

A procrastinação é conhecida por ser uma característica de preguiçosos, no entanto, quem procrastina o faz com uma atividade menos importante. Nem todo procrastinador é preguiçoso, e nem todo preguiçoso é procrastinador. Saiba diferenciar procrastinação de falta do que fazer, e saiba aproveitá-lo com o que realmente importa.

Boa procrastinação para você.

Weluilson Silva

Weluilson Silva

Publicitário, graduado em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/Devry, Escritor amador/ Romancista (em processo de publicação). Mestrado Incompleto de Gestão de Marketing pelo Instituto Português de Administração em Marketing (IPAM).

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