Possíveis cenários de uma eleição imprevisível, por Gilvan Mendes

A prisão do ex-presidente Lula foi um duro golpe nas pretensões eleitorais do PT e da esquerda brasileira em geral. Sem um grande nome, o campo progressista se fragmenta fortemente entre nomes mais ou menos conhecidos do eleitorado. Guilherme Boulos (PSOL) representa a ala mais ”militante” e sem peso nacional, enquanto Ciro Gomes(PDT) encabeça a lista dos nomes relativamente conhecidos do eleitorado nacional e que tendem a fazer um aceno ao centro político, desde que segure sua língua. Além, claro, de Marina Silva (REDE) e Joaquim Barbosa (PSB) que se esforçam para se apresentarem para a opinião pública como ”Outsiders”, diferentes de tudo o que está aí’, Barbosa foi objeto de análise de uma coluna recente de André Singer, que se referiu ao mesmo como o representante atual do Partido da Justiça. Fragmentação parece ser a palavra da vez. Isso sem falar na centro-direita e na sua corrente mais extremista.

Geraldo Alckmin (PSDB) parecia até pouco tempo o grande nome da antiga oposição ao lulismo. Suas credenciais como Governador de São Paulo seriam suficientes para a ”tropa de Temer” e seus ”vassalos’apoiarem sua candidatura. Mas, em política tudo o que é sólido se desmancha no ar, Michel Temer (MDB) resolveu tentar a reeleição ancorado em uma suposta retomada do crescimento econômico, deixando de lado o apoio às candidaturas alternativas de Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (MDB). Existe a possibilidade de que se forme uma chapa Temer-Meirelles. A pedra no sapato desses nomes citados é o povo, ou melhor, a rejeição que a maioria da população tem demonstrado até agora por essas figuras, as recentes pesquisas são claras quanto a isso. Já a direita mais ”radical” possui Jair Bolsonaro (PSL) como o maior trunfo, o parlamentar carioca possui uma capacidade significativa de explorar os medos e preconceitos da população a seu favor, conseguindo com isso o apoio de pessoas ”menos esclarecidas’ e jovens ativos no uso da internet, encantados com clichês e frases de efeito, além de militares e policiais das mais diversas matizes. Seu discurso é autoritário e pouco elaborado, mas infelizmente conquista corações e mentes diariamente.  A liquidez das redes sociais joga em seu favor. Isso tudo lhe renderá uma quantia significativa de votos em outubro.

Nomes como Flávio Rocha (PRB), Manuela D´Ávila (PCdoB), João Amoêdo (NOVO) e Álvaro Dias (PODE) são pouco relevantes no quesito eleitoral, tendo em vista que o sistema político em curso no Brasil pouco favorece os ditos partidos pequenos, sem grande expressão nacional.

Em suma, o que veremos é sem dúvida uma disputa pulverizada, sem grandes favoritos e com uma onda de polarização rasteira e intolerância com o modo de agir e pensar do outro fora do comum. Quem necessita de paz interior e cuidar do coração deve ficar longe dos ”debates” políticos dos nossos dias. Tudo isso reflete a necessidade da nossa democracia de se fortalecer, para enfrentar os problemas do século XXI com coragem e transparência, abandonando as velhas práticas clientelistas e patrimonialistas. Não podemos aceitar a violência desenfreada que está aí nas ruas todos os dias. Não podemos aceitar a desigualdade social e a pobreza que rouba o futuro e a esperança de milhares de brasileiros todos os dias. Devemos sentir nojo da corrupção sistêmica ostentada por alguns dos nossos representantes, não só deste ou daquele partido, não só este ou aquele nome.  Tudo isso requer uma modernização política ampla e uma verdadeira democratização da nossa democracia. 

Temo que isso não seja relevante para os nobres candidatos até agora apresentados. O pensamento rasteiro e meramente voltado para o próprio umbigo parece agradar mais nossos atuais e futuros representantes. No Brasil quem se esforça com mais determinação para quebrar o sistema democrático é justamente o grupo que deveria fazer o completo oposto e lutar por mais democratização: os políticos. Some-se a isso uma mídia tradicional aficionada pelo sensacionalismo e a poderosa e crescente influência obscura das redes sociais na reflexão do cidadão comum. As eleições de 2018 podem se tornar conhecidas por sua desesperança. 

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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