Picasso, Maar e filmes para chorar

“Obras de arte são objetos finitos cheios de infinitos”

Claudio Murabac

 

Imagem: Pablo Picasso. Mulher chorando, 1937.

O espanhol Pablo Picasso (1881-1973) foi um artista extremamente talentoso. Ao longo de sua vida produziu intensamente, mantendo sempre um grau de inventividade admirável. Mas, além do talento artístico, outra característica bem peculiar marcava a personalidade de Picasso: ele foi um conquistador irrefreável, entrelaçando a seus relacionamentos oficiais uma série de casos extraconjugais.

Tanta voracidade depositou em Picasso uma espécie de ausência de empatia. O outro era instrumento utilizado habilmente para o alcance de algum objetivo. Uma de suas ex-mulheres, Françoise Gilot (1921), escreveu uma biografia intitulada “A minha vida com Picasso”.  Ela narra a frequência de situações em que Picasso apresentava comportamentos com traços obsessivos e sádicos. Gilot chega a afirmar  em seu livro que Picasso repetia contundente e enfaticamente que ninguém tinha real importância pra ele. A importância das pessoas era equivalente aos grãos de poeira que flutuavam no ar.  Pelo olhar de Gilot, isso se dava especialmente com quem o acompanhava na intimidade. No caso, as mulheres.

Vou evitar, neste texto, fazer uma leitura de mais traços psíquicos da personalidade de Picasso. Isso acontecerá em outra oportunidade. A linha que vou seguir aqui é a da relação que se estabelece no encontro com uma obra de arte a partir das identificações.

“Mulher chorando” (1937) é uma obra que sempre me afetou. O ser que se despedaça em lágrimas na imagem é a representação que Picasso fez de Dora Maar (1907-1997), uma das mulheres que passou pela vida do artista. Linda e talentosa, Dora era fotógrafa. Na imagem de Picasso há na mulher representada um cuidado na composição. Ela escolheu um belo chapéu vermelho e arrumou os cabelos provavelmente na ânsia de viver um momento feliz. O espectador observa a frustração desse desejo, pois o semblante é de dor e desespero.

 

Imagem: Dora Maar. Fotografia de  Man Ray.

 

Conhecendo a biografia de Picasso ficamos sabendo que ele adorava torturar Dora Maar. Tecia sobre ela falsas acusações, zombava, insultava até conseguir o objetivo almejado: fazê-la chorar. Então rapidamente realizava esboços, caprichando na exaltação do sofrimento de Dora, transformando os esboços em pinturas, como é o caso de nossa “Mulher chorando”. Essa desorganização no relacionamento também desorganizou a percepção e os pensamentos de Dora. Ela passou a perambular, com a fala desconexa, as roupas rasgadas, afirmando ter sido atacada por homens na rua. Depois, alucinou, tinha frequentemente visões religiosas e revelações premonitórias.

Na época Dora foi atendida por Jacques Lacan e passou a fazer análise com ele.  Uma das hipóteses levantadas por Lacan no caso foi a fase do espelho: as imagens de espelho que existem fora de nós constituem como aprendemos a nos ver e construir uma imagem de quem somos.  Trata-se de um momento ontológico da evolução humana, entre os primeiros seis e dezoito meses de vida, no qual a criança desenvolve identificações com as imagens de seus semelhantes e com a percepção de sua própria imagem no espelho, conforme ressalta Roudinesco (1998).

Chegamos num ponto importante, que é a questão da identificação. Vou fazer uma confissão que pode soar estranha em nossos tempos de culto à felicidade permanente: sempre gostei e continuo a gostar de filmes que me fazem chorar. Enfatizo que nem de longe percebo esta característica como um traço de personalidade masoquista, nem tenho apego ao sofrimento. Afinal, já bastam as inevitáveis vicissitudes que o viver tributa e que a gente tem que aprender a enfrentar. Por que, então, ver filmes que fazem chorar?

Parando para pensar melhor: (sugiro que você faça este exercício, lembrando que tratamos também de relações inconscientes) em todos esses filmes estabeleço alguma relação com minha própria vida, com medos e desejos que me são familiares. Suspense, aventura ou drama, não importa. Quando a narrativa fílmica “bate” é porque entrou em cena algo que no mundo da psicanálise é chamado de mecanismo de identificação e é isso que dá uma liga especial, que te faz acompanhar a trajetória da narrativa com um aguçado interesse que é, na essência, narcísico.

Pesquisando no dicionário de psicanálise de Laplanche (2001) encontro uma referência à identificação como constituinte do ser, num movimento de constituição e diferenciação da personalidade por uma série de identificações. Em outras palavras, voltamos ao que vimos com Roudinesco: precisamos do outro para ser quem somos. No outro eu me reconheço, elaboro desejos de futuro, sigo passos. É no outro que narcisicamente busco partes de mim para dar liga e constituir uma relação. Esse outro, como acontece nos filmes, pode permitir que eu “viva” situações prazerosas. Por outro lado, este outro pode errar, atropelar a história e perder oportunidades ou, ainda, sofrer decepções. Situações que nos são tão familiares que parecem falar de nós. Um trecho da música “Certas canções”, celebrada pela voz de Milton Nascimento traduz este argumento:

“Certas canções que ouço

Cabem tão dentro de mim

Que perguntar carece

Como não fui eu que fiz?”..

Nos filmes que nos fazem chorar, assim como aconteceu comigo na imagem da “Mulher chorando” há a identificação. Com o sofrimento, a dor, a perda e a possibilidade de reunir os pedaços pelo amor. Recordo de um filme que me fez chorar muito e que me trouxe lições sobre a importância de construir relações. Trata-se do filme Wit, traduzido para o português como “Uma lição de vida”. Nele a atriz Emma Thompson dá vida à personagem Vivian Bearing. De acordo com o dicionário, a palavra wit tem um sentido semântico de “juízo”, “saber”, “habilidade”. Vivian é uma professora de 48 anos, tecnicamente hábil em seu campo de trabalho, que granjeou muitos títulos acadêmicos, especializando-se em poesia do século XVII, notadamente nos sonetos do poeta John Donne.

No trato humano, porém, Vivian era considerada rígida demais. Durante o filme ela relembra algumas passagens de sua inflexibilidade, em doses costuradas entre presente e passado.  Um aluno perde a avó e solicita uma extensão de prazo para a entrega de um trabalho. Com frieza ela indefere o pedido, impassível diante da morte e do sofrimento do outro. A realidade de Vivian é perpassada por regras, padrões, convenções. Ela é uma pessoa normatizada.

O filme começa com a notícia de que Vivian está com câncer nos ovários em estado avançado. Seu médico dispara informes sobre a doença e propõe uma única possibilidade de tratamento, de ciclos quimioterápicos violentos, avisando que será um processo bastante doloroso. Ela não demonstra apreensão, angústia, parece aceitar resignadamente a situação. Pergunta sobre o tipo de tumor, ele explica que se trata de um carcinoma insidioso, invasivo, traiçoeiro. O médico pergunta: “Você crê que poderá ser forte?” Vivian diz que sim.

Vivian tem que se deparar, de repente, com uma grave doença. Na vida de qualquer ser humano em algum momento ela surge: em nosso próprio corpo, numa pessoa amada. Enfim, é uma situação frequente e dolorosa, que tributa perdas ou limitações e que na jornada da vida temos que aprender a enfrentar.

 

Imagem: Emma Thompson em cena do filme “Uma lição de vida”.

 

Vivian, então, inicia o tratamento. Seu cenário agora é o hospital, as cores frias das paredes e móveis são repetidas nos uniformes e na postura mecanizada das pessoas que trabalham no local. As luvas, máscaras e toucas compõem os acessórios imprescindíveis num mundo repleto de microrganismos. Um jovem médico faz um exame de toque em Vivian. Ele é inábil, tenso, coloca a paciente em posição objetal, preocupa-se apenas com a doença, com o órgão afetado, como se ela, por conta da doença, fosse reduzida a uma parte de seu corpo e nada mais. Não há zelo com as emoções, com a fragilidade que a doença tributa. A subjetividade não é levada em conta.

Sonetos costuram a narrativa fílmica. Enquanto Vivian aguarda a realização de exames e nos momentos mais intensos de sua solidão, relembra trechos de John Donne, que versam justamente sobre a negação da mortalidade humana. “Morte não seja orgulhosa/ embora alguns te chamem/ poderosa, temível, pois não és assim/ pobre morte, não poderás matar a mim”. No confinamento do hospital ela tece reminiscências. Ela menina e o pai. Lembra quando começou a aprender a ler e viu o milagre das “ilustrações perfurando o sentido das palavras”. O encantamento do aprendizado de novas palavras como “soporífero”. E, sobretudo, a inundação emotiva desencadeada pela recordação do contato real com o outro. Então sabemos que Vivian nem sempre foi só.

O que teria acontecido em sua vida para que ela erguesse tanta blindagem? Sua professora, E. M. Ashford percebe a obsessão de Vivian e aconselha: “Não volte à biblioteca. Sai, vá viver a vida, divirta-se com seus amigos”. Ela não acata o conselho, torna-se cada vez mais sólida, pétrea, encapsulada. O contexto de estar em tratamento hospitalar a faz repensar sua existência. A tentativa de vencer a doença determina um acúmulo de dores físicas e psíquicas. Vivian desaba, não se sente mais tão segura quanto antes. Sofre sozinha. Nunca recebe visitas. A única pessoa que a acolhe com algum carinho é a enfermeira Susie. Ao pé da cama do hospital, repousa uma imagem de São Sebastião, em sua agonia de flechas e dor.

No estudo do caso de Vivian há o agravante da eminência da morte. Quando ela chega na fronteira não quer mais saber de John Donne, que figurava como o cerne de seu existir. Regride a um estado longínquo, que nunca abandona o humano. O medo, a dor, a solidão extrema conduz a um tipo de solidão de tempos imemoriais: a solidão do desamparo. Essa solidão é especialmente vivida no corpo arcaico, nos primeiros meses de existência com o primeiro objeto de amor: a mãe. Curiosamente a mãe não aparece no filme. O que me faz levantar uma hipótese a partir desta ausência: o comportamento  de negação dos relacionamentos de Vivian pode estar atrelado a vivências difíceis com este  primeiro objeto. Como o filme não revela se isto de fato ocorreu, fica lançado este  argumento apenas como hipótese.

Ao receber a única visita desde que foi internada e já prestes a encerrar a jornada humana, ela chora nos braços de sua antiga professora como um bebê. “Não existe gente grande”, diz Comte-Sponville, “existem apenas crianças que fingem que cresceram” (2007, p. 83). E continua o mesmo autor, sobre o morrer: “Quanto a mim, verei quando a hora chegar, e não me preocupo muito com isso. Prefiro me sair mais ou menos bem na vida do que me sair bem na morte” (p. 93).

Diz John Donne: “Após um breve sono, acordamos eternamente / e a morte deixará de existir, morte, tu também morrerás”.  O filme, com extrema sensibilidade, possibilita um tear reflexivo sobre as escolhas de vida. A morte é o término de um ciclo, natural e inevitável. Não apenas vivemos, convivemos. No mistério de minha relação com o outro está o mistério do sentido da vida. Vivian se deu conta disso talvez tarde demais. Para nós, como espectadores, a grande lição que o filme traz ao falar da dor e da morte repousa no sentido de fazer valer a vida que temos. Esta vida só se faz valer afetivamente com a presença dos outros.

 

Referências

COMTE-SPONVILLE, André. A vida Humana. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

NICHOLS, Mike. Wit: uma lição de vida. Emma Thompson, Christopher Lloyd, Eileen Atkins e Audra McDonald. 2001, EUA.

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de janeiro: Zahar, 1998.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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