Partido Político, “Corrupção” e estratégia eleitoral, por Josênio Parente

Pela lição do “Mensalão” e da Operação “Lava Jato”, o caixa 2, como é chamado o dinheiro não contabilizado e nem prestado conta à Justiça eleitoral, era natural como estratégia de campanha. Não é isso que será analisado nessa reflexão. Essa realidade, o patrimonialismo, é típico de sociedade tradicional a caminho da modernidade. Essa é a observação de Max Weber, falecido em 1920, ao estudar a Alemanha que caminhava para uma economia de mercado. Mas observaremos, rapidamente, as acusações de “corrupção” nas eleições de 2014 e sua reprodução nesta eleição de 2018, e como a população encara essa realidade.

Em 2014, o Jornal O Povo, de Fortaleza, noticiava de forma reveladora como a estratégia da corrupção estava presente como foco daquela campanha. Dizia: “em mais uma rodada de provocações públicas, o ex-presidente Lula desafiou o seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, a provar que algum governo tenha criado ‘mais mecanismos para mandar prender corrupto’ do que sua gestão. Convocando mais uma vez a militância do PT a discutir a corrupção nas eleições. Lula afirmou que no governo FHC era “roubar por roubar e não tinha denúncia porque tinha um tapete muito grande para jogar toda sujeira para debaixo’” (Jornal O Povo, 19 de julho de 2014, p. 22, Política).

A corrupção, portanto, foi a marca importante que rondou na campanha das eleições de 2014. A estratégia da oposição, se utilizando do “Mensalão”, onde o Ministro do SupremoJoaquim Barbosa liderava o processo e condenava apenas pelo “domínio do fato”, pela suspeita, fez efeito nas bases do poder político do PT e a oposição conseguiu avançar no seu espaço político. O “Mensalão” conseguiu com que o PT diminuísse o número de deputados, senadores, vereadores e prefeitos, e quase perde as eleições presidenciais, com o segundo turno entre Dilma Rousseff, pelo PT, e Aécio Neves, pelo PSDB, perdendo o brilho da vitória apertada do PT, com apenas em torno de 3.000.000 votos. A festa do PSDB estava preparada. A frustração, contudo, fez com que o clima de ódio e o radicalismo contra nordestino, responsável por essa virada, e os partidos de apoio ao PT, revelam uma outra realidade: a importância do Congresso, dos partidos políticos. Estes não haviam investido na representação da Caso do Povo, pois o governo podia fazer maioria pelo caminho da “negociação”, o “toma lá dá cá” da tradição patrimonialista. Há, no entanto, uma mudança visível dessa tradição nesse contexto.

A estratégia de utilizar a “corrupção” na disputa eleitoral está sendo reproduzida para as eleições de 2018 e se esperava que o mesmo resultado de ocupação de espaço acontecesse com a candidatura de Lula. O “Mensalão”, no STF (Supremo Tribunal Federal), foi substituído pela Operação “Lava Jato”, conduzido por um Juiz de Primeira Instancia, Sérgio Moro, em Curitiba, Sul do País, região onde o PSDB se apresenta mais forte. Acusaram o potencial candidato, Lula da Silva, como sendo chefe de uma quadrilha que assaltou o Estado brasileiro, incluindo o PT e os partidos que lhe deram sustentação.  A eleição se aproxima e a defesa de Lula parece ter conseguido mais sucesso na legitimidade de suas ações, apesar da sequência de derrotas na esfera do Judiciário. Se a estratégia de 2014 era o confronto de acusações sobre “corrupção”, agora a defesa mostra o caráter persecutório, político, do Judiciário e a conivência dos tradicionais meios de comunicação.

O significativo nas eleições de outubro de 2018 é a persistência da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de condenado por corrupção, como a mais competitiva dentre os tradicionais candidatos e, passados vários meses com apresentação dos potenciais candidatos, o resultado dessas eleições ainda depende da possibilidade da candidatura Lula ser colocada à disposição dos eleitores, segundo as pesquisas eleitorais.

As eleições se aproximam e os candidatos começam a ser conhecidos e mais definidos. “Sem Lula, Bolsonaro lidera todos os cenários no segundo turno” era manchete da semana nos principais jornais. Tranquilo para o candidato? Claro que ainda não, embora já indique que a candidatura Bolsonaro tem sofrido variação ao se mobilizar ideologicamente, aproveitando o voto da direita em geral, que vai do liberalismo democrático, passando pelos conservadores e chegando ao extremo. Assim, seu discurso transita da direita para o centro liberal.

O candidato que as pesquisas indicam poder concorrer com Bolsonaro, Ciro Gomes, com competitividade, agrupando as esquerdas com vários candidatos e o potencial de herdar o legado de Lula da Silva, embora Marina da Silva dispute também esse espaço, começa a crescer também. Ele é o principal alvo da oposição. A reprodução das estratégias do marketing que tirou Ciro Gomes na campanha de 2002 e abriu espaço para Serra, embora tenha também contribuído para a vitória de Lula, começa a se reproduzir.

O quadro de candidatos para a eleição de 2018, portanto, não mudou significativamente desde o período em que os candidatos se apresentaram, apesar de São Paulo ainda permanecer com o dilema do PSB disputando com o PSDB espaços de poder nacional, devido à repercussão da disputa entre PT e PSB em Pernambuco. Naquele estado do Nordeste, o PT tem candidato competitivo e segura o PSB para não apoiar ainda o PDT de Ciro, mas também faz da disputa local com o PSDB algo que pode atrapalhar a candidatura de Alckmin.

Jessé de Souza diz que o problema mais importante no Brasil não é propriamente a corrupção, mas a desigualdade social. A questão é saber se esse quadro está representado nesse contexto de disputa eleitoral. Qual o Brasil que está surgindo desse novo quadro?

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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