PARSIFAL – um intelectual na política, de Luís-Sérgio Santos (cedida por www.ler.digital)

O AUTOR

Luís-Sérgio Santos, cearense, é jornalista, historiador e professor da área de Comunicação da Universidade Federal do Ceará. Já no início da carreira ganhou o Prêmio Esso, em 1980. Foi correspondente da Folha de S. Paulo, secretário de redação e editor geral dos dois maiores jornais do Ceará, Diário do Nordeste e O Povo, respectivamente. Expert em design gráfico, dá consultoria e implantou reestruturação de veículos impressos. Lançou três revistas, Fale, InsideBrasil e Poder Local, e é diretor geral da Omni Editora. É autor do livro “Rui Facó – uma biografia”.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘Parsifal – Um Intelectual na Política’, de autoria de Luís-Sérgio Santos, foi lançado no início de 2018, com 463 páginas, pela editora ‘Escrituras’ e pelo Instituto Myra Eliane. A obra traz 22 fotografias antigas.

CIRCUNSTÂNCIAS

O Instituto Myra Eliane, uma ONG, que foi criada e é dirigida por um neto de Parsifal Barroso, articulou-se com o historiador Luís-Sérgio Santos para fazer uma pesquisa sobre a vida pública do avô. Dessa iniciativa já há pelo menos três frutos: o livro O Cearense, de autoria de Parsifal, foi relançado; a biografia de Olga Barroso (mulher de Parsifal, filha do líder político sobralense Chico Monte, de autoria do poeta Juarez Leitão) e a própria biografia de Parsifal.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A biografia de Parsifal Barroso mais do que se justifica por várias razões. Uma delas é que a história política parece fazer questão de não dar a ele o destaque que ele teve e mereceu. Parsifal foi deputado estadual, deputado federal, senador, governador e ministro de Estado. Derrotou nomes importantes como Raul Barbosa (numa disputa para o Senado) e Virgílio Távora (numa eleição para governador em 1958). Em 1962 foi o mentor intelectual e principal avalista da ‘União pelo Ceará’. Foi o ministro mais jovem do presidente Juscelino Kubitschek e, segundo analistas, o segundo mais influente (depois de José Maria Alkmin). O livro pode colaborar para retirar esse véu sobre uma trajetória que precisa ser conhecida e avaliada.

O LIVRO

O livro está estruturado em onze capítulos e destaca a carreira política e a trajetória intelectual de Parsifal Barroso, que teve papel importante na vida pública e na sociedade cearense. O primeiro capítulo impacta o leitor do livro, pois coloca Parsifal em plena cena nacional, ocupando um importante ministério do governo Juscelino Kubitschek, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em tempos turbulentos, com “greves pipocando” em todos os setores.

Logo em seguida, a surpreendente vitória de Parsifal Barroso sobre Virgílio Távora na eleição para governador do Ceará em 1958. O autor do livro mostra os mais delicados aspectos da disputa eleitoral a partir de um debate franco e aguerrido, mas mantido sob a elegância regimental, entre o próprio Parsifal (ainda senador, entre a eleição e a posse) e o pai de Virgílio, o senador Fernandes Távora.

O capítulo seguinte trata da ‘União pelo Ceará’, articulação política comandada por Parsifal para eleger seu sucessor o coronel Virgílio Távora, a quem havia derrotado quatro anos antes.

Nos capítulos seguintes, destaca-se a obra intelectual de Parsifal Barroso, com foco em três livros que ele escreveu e publicou: O Cearense, Uma História da Política e do Ceará e Vivências Políticas. Completa o livro sua história pessoal e familiar (seu pai também fez política e um dos filhos chegou a deputado federal).

INSIGHTS

O Carlos Jereissati queria ser uma espécie de tutor do meu governo e eu não me submeti a isso.”

“Parsifal fez um curso intensivo de gestão e negociação como ministro do Trabalho do turbulento início do governo JK, onde greves pipocavam por todo o país.”

“A esse tempo, o deputado Paulo Sarasate considerava necessário que eu me abstivesse de voltar à política...ele achava que meu nome não era bem aceito, não era bem visto pelos militares. Eu era um trabalhista que tinha feição socialista.”

Com exceção dos Diários e Rádios Associados e da Rádio Dragão do Mar, todos os demais órgãos de publicidade falada e escrita já se encontravam adquiridos ou controlados pela Coligação Democrática (campanha de Virgílio), e nenhum táxi aéreo poderia ser mais contratado pelas Oposições Democráticas (de Parsifal).”

“A Brahma (Ambev) passou a mão e comprou todas as fábricas da Pepsi Cola. Passaram de 22 engarrafadores espalhados pelo país para um único engarrafador, a Brahma. Isso é coisa que pouca gente sabe.”

“Toda revolução devora os seus próprios filhos.”

O autor intelectual da União pelo Ceará sou eu, unicamente eu.

“Todo o Ceará tomou conhecimento dos fatos e se admira que eu, o coronel Virgílio Távora e os nossos amigos não mandássemos dar uma surra completa nesse indivíduo.”

IDEIAS CENTRAIS

“A amizade de JK com Parsifal devia-se também a uma questão prática. O caixa da Previdência, numa época em que o Brasil não tinha nenhum aposentado, era extremamente líquido e JK tomou esse dinheiro, via empréstimo ao Banco do Brasil, para construir Brasília. Eu convivia com Juscelino mais nas viagens para financiar parte da construção de Brasília.”

“Quando Parsifal Barroso e Chico Monte entraram em rota de colisão com o governador Raul Barbosa e, por consequência, trocaram o Partido Social Democrático pelo Partido Trabalhista Brasileiro de Carlos Jereissati não imaginavam o que estava por vir em termos eleitorais. Parsifal derrotou Raul, ao final do mandato deste, quando disputava a senatória em 1955. Parsifal se elegia pela coligação do PTB com a UDN que saiu também vitoriosa na corrida de Paulo Sarasate ao governo do Ceará. Deixou Raul sem mandato. E, em 1958, pelo PTB, o mesmo Parsifal derrotou o udenista Virgílio Távora em renhida disputa pelo governo do Ceará. Virgílio vinha sendo preparado pela UDN para ser o sucessor de Sarasate desde que este foi eleito em 1954.

“Virgílio foi retirado do ostracismo. Quando o Virgílio foi escolhido meu sucessor, sabe o que é que o Virgílio era? Era diretor da Novacap em Brasília. A lei criadora da Novacap dava direito a que um diretor fosse udenista, para a oposição fiscalizar. A UDN mandou três nomes para o Juscelino. Virgílio foi o escolhido. Então, aconteceu que ele estava reduzido a diretor da Novacap, com um mandato que não era vitalício. Então estava no ostracismo. A expressão é exata: estava no ostracismo. Justamente eu o retirei desse ostracismo e passei a apoiá-lo para o governo do Estado.”

“Eu já sabia que haveria a Revolução de 1964, por intermédio de fontes fidedignas. Se eu não colocasse um nome forte para governador, qualquer um outro seria fatalmente defenestrado com o advento da revolução. Eu tinha informações seguras de que a revolução viria. Não se sabia quando, mas que ela viria era uma verdade fora de contestação, porque o governo do Presidente João Goulart estava seguindo uma orientação perigosa, do ponto de vista da Segurança Nacional.”

“Antes de tomar posse no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, Parsifal ficou doente, e João Goulart (então vice-presidente eleito), curioso para conhecer os termos do discurso de posse, foi ao apartamento 804. Parsifal pegou um bloco de papel e ‘leu o discurso’. Jango saiu dali satisfeito. Nunca soube que o bloco de papel estava totalmente em branco. “Só conheci Parsifal Barroso falando de improviso”, conta Roberto Parsifal (seu filho).”

“Eu trouxe de volta a legenda para meu pai. A legenda que friamente os amigos tinham tomado dele”. Encucado com a história de que o nome de Parsifal Barroso teria sido vetado pela “revolução”, Régis Barroso (filho de Parsifal, eleito deputado federal), já no pleno exercício do seu mandato, procurou o brigadeiro Jaime Peixoto da Silveira.

— Como o senhor sabe, sou filho do ex-governador do Ceará. Há quatro anos atrás não deixaram ele ser candidato porque ele teria sido vetado pela revolução. O senhor confirma essa versão?

— O que houve foi um blefe.

— Quem blefou?

— Paulo Sarasate.”

“Em 1961, o governador Parsifal Barroso teria sido alvo de uma tentativa de envenenamento. Pelo menos foi o que admitiu a Polícia Técnica do Ceará. Uma funcionária do gabinete que inadvertidamente tomou café na xícara do governador foi acometida de uma crise de vômitos, com todos os sinais de envenenamento. Para Parsifal, tudo não passou de mero acaso. O caso nunca foi elucidado.”

(Leitura Especial Resumida do livro PARSIFAL – um intelectual na política do site www.ler.digital)

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