PARA ALÉM DA MALDADE HUMANA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Sétimo dia do martírio de Marielle Franco, covardemente assassinada simplesmente por fazer da política sua voz e sua ferramenta humana de luta, na perspectiva de superação das misérias a que são submetidos historicamente os humanos negros e as negras brasileiros que construíram com seu suor e suas vidas a riqueza desta nação. Marielle é vítima de uma violência política que, com o golpe de 2016, ganhou asas, chegando agora a um estágio de altíssima gravidade.

Pensar o Estado é refletir criticamente sobre a sua razão de ser, os seus instrumentos garantidores de toda e qualquer vida humana em sua plenitude, é pensar as pessoas que compõem esse Estado, suas instituições e procedimentos. É tarefa de todos os cidadãos e cidadãs. Quando um mal perpetrado como esse é resultado da prática dos operadores do Estado, entra-se num mundo do terror, eliminador dos direitos e garantias humanas, de qualquer humano. Chega-se ao pior dos mundos.

O desejo de praticar o mal, oriundo do ódio e da prepotência emprenhados nos corações e mentes de indivíduos guiados por ideologias contemporâneas discriminatórias e violentas, é primariamente a vontade de aniquilar o outro, de reduzi-lo a nada, como faziam os senhores portugueses com africanos escravizados no Brasil, ou os nazistas e stalinistas nos campos de extermínio europeus. Esta vontade se refina contínua e rapidamente, não se satisfazendo apenas com a eliminação pura e simples, mas atuando em sua doentia necessidade de perseguir obstinadamente seu odiado e sua gente, para gozar-lhes o seu sofrimento. Em sua análise sobre a experiência do Holocausto, a cientista política Hannah Arendt concluiu que a passividade das pessoas de bem é o que permite estes tipos de crime acontecer.

Outra questão importante, ressaltada pelo cientista em comunicação Bernardo Queiroz, trata-se da fé de Marielle Franco na via política. Ela morreu porque se posicionou claramente na luta de classes, demarcou sua posição e sabia quais eram seus adversários. Portanto, não é possível despolitizar a sua morte, como pretendem determinados meios de comunicação social. E nem é com niilismo, desqualificação da política e discurso difuso que se vai fazer o combate àqueles que mataram Marielle. Se até “Temer se diz indignado pela morte da jovem”, afirma Queiroz, “é fundamental o discernimento dessas indignações todas para que os responsáveis não se passem por indignados”.

Uma reflexão oportuna para esse delicado momento brasileiro, nesse período pascal celebrado pelos cristãos, vem do teólogo Leonardo Boff. Ele lembra que se há uma colaboração perene que o Cristianismo trouxe ao discurso ético-político é o caráter inegociável da ética pessoal. A razão reside no entendimento da consciência como norma interiorizada da moralidade. Esta interiorização é um fato irredutível. Não é fruto de algum superego social, nem eco da voz do dominador externo. Há lá dentro, no íntimo de cada pessoa, uma voz que não se cala, sempre vigilante, aprovando e proibindo, advertindo, aconselhando, dizendo: ‘Não faças isso, faça aquilo’. Sócrates e Kant a chamaram de a voz de Deus em nós.

Portanto, a superação do mal requer uma necessária escuta profunda pessoal de cada cidadão e cidadã no sentido de buscar entender que compromisso assumir nesse momento tão delicado da vida nacional. Um compromisso que nos leve a sair da nossa passividade, como tão bem alertou Hannah Arendt, para o combate ao autoritarismo que avança em nosso país sob a pele de cordeiros midiáticos novelescos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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