“Paciência com a crise, gente, por que a pressa?” por Osvaldo Euclides

Parece que os fatos estão em desacordo com a teoria, desobedecendo-a, desafiando-a, desmentindo-a. Pois é. O défict público só faz subir e a inflação só faz cair. O pessoal que estuda economia aplicando planilhas fica meio tonto, mas sempre acha uma explicação para manter a elegância do discurso.

Em 2014, a crise era insuportável, dizia-se, o País estava à beira do abismo. A única salvação par empresários e trabalhadores era “mudar o governo, restaurar a confiança do mercado, retomar o grau de investimento, melhorar as expectativas”. Bem, o governo foi mudado.

O discurso foi-se adaptando. Não bastava mudar o governo, era preciso estancar a outra sangria, a sangria fiscal. Era indispensável sinalizar ao mercado com uma medida radical e definitiva. Também foi feito. O Congresso aprovou uma emenda constitucional meio absurda, que congela os gastos sociais (os juros continuam livres) por 20 anos. Mas não resolveu. Nada mudou para melhor, o déficit fiscal piorou. E muito.

O discurso continuou mudando. Não houve recuperação do crescimento da economia, mas todos deveriam comemorar que “a coisa parou de piorar”.

Mas, como o desemprego só piorou nos longos meses seguintes, uma situação dramática para 14 milhões de famílias, foi preciso educar e acalmar a população: o desemprego é a última coisa a melhorar, quando tudo começa a melhorar, diziam os economistas e os jornalistas “de mercado”.

O discurso continuou se adaptando às circunstâncias econômicas cada vez mais adversas. A crise só será resolvida com o “conjunto das reformas”, só “as reformas” salvarão o país. Foi feita também a reforma trabalhista. Embora ninguém diga como, nem porque, mas todos dizem que isso é bom para o trabalhador. Claro que não é.

A inflação foi a zero, furou o chão, em alguns meses e em alguns índices já temos até deflação. E, acreditem, o Banco Central comemora, mas mantém os juros reais mais altos do planeta, quando ninguém no mundo civilizado compreende.

Bom, como nada melhora, empresários e trabalhadores estão consumindo todas as suas reservas e gordurinhas cada vez mais escassas (ou que nunca tiveram) e quase prendendo a respiração para economizar oxigênio. E sobreviver.

Essa turma do “mercado” é “fogo na roupa”. Armínio Fraga, aquele que quando Presidente do Banco Central  fez juros de 45% ao ano na Selic, já passou a nova senha para economistas e jornalistas “de mercado”: o Brasil só vai melhorar depois das eleições de 2018. E se, e somente se for eleito alguém com compromisso com as “reformas”.

Paciência, gente, só faltou ele dizer: “por que a pressa?”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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